Certa noite de pós-chuva, em que a terra se conservava muito úmida, vô se vê inquieto com o barulho dos cães de fora, no terreno.

Apura o ouvido quando a cadela perto da casa aumenta o ritmo, mas pelo barulho ter cessado, decide que o melhor é voltar a dormir, já havia sido um dia fatigante e no sono seria melhor de lidar com barulho que seja. Noutro dia, pela manhã, após o café se encaminha para a saleta anteporta mal iluminada e de paredes de tinta descascada, com o andar idoso, calmo, apesar de ágil e, na cabeça, a consciência dos afazeres decorrentes do de sempre, além do chapéu.

Tem se portado de maneira diferente, pois que tais pensamentos tomam conta de seu tempo, nunca antes se viu pensando tanto em sua existência enquanto homem do campo, de forma que conhece mais de rúculas que de si próprio. E do campo que nem ficava afastado da cidade, era separada a chácara da cidade por uma ponte.

E a ponte ficava em seu território por direito, então seu desmembramento da cidade nunca foi completo. De forma que também nunca foi completa sua separação do campo, passando toda a sua vida em cidade pequena margeada por todo mato possível de chácaras e plantações.

Saiu da cidade poucas vezes, apenas quando necessário consultar médico e nem em cidade muito distante: uma hora para ir, uma para voltar, intermediada por duas horas de consulta e espera por ônibus. De velhos costumes… não, ser velho não justifica.

De prática personalidade à concepção de vida em cidade, não tinha em si o bicho da curiosidade. Se ocupava do que era necessário: salário, comida, teto e conforto não desmedido. Por tais motivos, pensar na sua condição frente e ante um mundo que existe, como que pela primeira vez tivesse se dado conta de que vive, de que os outros vivem, de que debaixo da terra os médios prédios da cidade tinham concreto também e tinham forma na terra, tinha cidade debaixo da cidade.

Pensar que a vida vai além dos limites próprios da superfície, da superfície. Pela primeira vez tomara-se conta da superfície. Se ver pensando que a forma da água e o efeito das sensações na pele são de uma natureza desconhecida, mesmo que próxima; se ver na possibilidade do que pode ser a luz se não a possibilidade de ver, de ver! Não se imagina sem visão e por tão pouco a concedem! eram de maneira muito esquisita encarados esses pensamentos.

“Pensar que a vida vai além dos limites próprios da superfície, da superfície”.

Calçou as botas e, recordando os infrequentes acontecimentos da noite anterior, decidiu que seria melhor certificar-se que nada fugira da normalidade. Apesar, aquilo o excitava de maneira tão rara quanto os barulhos aconteciam. Pois tal é que tomou conta do vô uma sensação de descoberta. Eram, os barulhos, a possibilidade de uma mudança. Mas ainda desconhecido de tais sentimentos, achou melhor afastá-los, tal como afastava os caminhos novos para a rodoviária.

Desceu a escada e mirando a parte debaixo da casa de madeira viu a cadela que fica solta no pátio lambendo os ovos quebrados da galinha ponhadeira. Filha de uma mãe, era lógico: a barulheira era porque a cadela espantara as galinhas para comer os seus ovos. E para a excitação que o acometera veio a resposta já conhecida de outras perguntas.

De uma brandura matinal para uma fúria conhecida que esteriliza qualquer tipo de pensamento existencialista em mente nova não moveu a cadela do lugar, mas segurou e com pedaço de pau que estava no alcance da mão deu na cadela a ponto de fazê-la sangrar pelo fuço.

Vendo o sangue, pensando que a cadela também o via e certamente o sentia, esfregou sua face nos ovos para marcar o acontecimento: o sangue vinha dos ovos, sangue, ovos, galinha ovos sangue. Esse era o recado a ser passado. E foi: anos depois a cadela nunca se
pôs a chegar perto de ovos, mesmo que oferecidos. Estava feito, o mistério acabado, o barulho era culpa do cão. Resolvido isso e com a sensação que o primeiro humano teve ao nomear uma planta, tomou direção, os nervos ainda afoitos, para a casa da galinha que ficava do outro lado do caminho de entrada, ao lado da casa.

Antes de abaixar-se de novo tirou tempo para respirar, as pauladas haviam-no fatigado e sentir o ar no pulmão encher-se de disposição novamente e, em pé, conseguia sentir como se a amplitude do ambiente pudesse entrar em si pelas narinas, inflar-lhe o ser em cada partícula sua, ampliado-se até si mesmo. Recuperou-se. Abaixou para alcançar os ovos dentro do ninho da galinha, esperançoso de que poderia salvar ao menos um e inesperadamente toca no animal peludo que logo solta seu brado de fúria. O susto faz com que se afaste, o homem e o animal, ainda que o segundo mais assustado que o primeiro. Solta o outro cachorro do canil, que logo destroça a raposa. O som dos ossos se partindo foi tão satisfatório quanto a tunda dada na cadela, relembra o homem. A cadela.

E de repente se vê oprimido pela sua própria forma de ser. De repente o ar pesava sobre ele e se ser era de tamanha dificuldade que se fosse homem de se expor cairia de joelhos. De repente. De repente se viu reduzido na sua mais condensada possibilidade de si, sendo o vazio que se é nada, a reduzida forma de ser o que é por escolha da negação.


 

Texto de B. A., estudante do curso de Letras da
Universidade de Passo Fundo (UPF).

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