Cai a fronteira da ficção: uma conversa com Ricardo Lísias

Vinte minutos podem parecer uma eternidade ou um piscar de olhos, mas quando se conversa com o escritor Ricardo Lísias, o tempo pode facilmente ser encarado como a segunda opção. Talvez porque Lísias escreve, todos os dias, há muito tempo – e, por isso, sua capacidade de compreensão do mundo ultrapassa as barreiras do senso comum que teimam em permanecer no inconsciente de todos nós, reles mortais. Sua escrita é, por consequência da observação – e anotação – profunda, uma absorção do cotidiano.

Talvez, também, venha disso a sua facilidade em escancarar atritos da sociedade e, por conseguinte, colocar o dedo na ferida daqueles que não esperam ser atacados tão sutilmente e com demasiada força. Em 20 minutos de entrevista, a conversa com o autor de livros como Divórcio (2013) e Diário da Cadeia (2017), revelou muito mais sobre a ficção brasileira do que pode-se imaginar.

A decisão judicial que o obrigou a revelar sua identidade, opaca por trás do pseudônimo do político brasileiro Eduardo Cunha, na metade de 2017, é capaz de descortinar o modo de como a arte e ficção são encarados no país – e como isso impacta não somente a trajetória profissional de artistas e escritores, mas também a relação do brasileiro com a interpretação de sua realidade. Um verdadeiro efeito dominó. Sua experiência foi abordada no último Seminário Nacional e Seminário Internacional de Língua e Literatura, realizado pelo curso de Letras, nos dias 9, 10 e 11 de outubro, na Universidade de Passo Fundo (UPF).

 

“Toda a minha obra dá certo, mas na verdade dá certo em partes. Essa parte é uma parte fracassada, não funcionou. As pessoas acharam que realmente tudo aquilo era verdadeiro. Aí eu faço sem nome nenhum e também acham”

 

 

Letrilhando entrevista:  Ricardo Lísias 

 

Letrilhando: Você disse anteriormente que, mesmo que o autor deixe suas marcas no texto, ainda assim abre margem para infinitas interpretações. Isso pode, inclusive, abrir espaço para alguns incômodos, como você mesmo passou na suspensão das vendas [do livro ‘Diário da Cadeira’], o ataque à tua pessoa [no livro ‘Divórcio]… A minha questão é: será que o problema não está na falta de interpretação de texto?

Ricardo Lísias: Essa questão que as interpretações são muito múltiplas é porque, evidentemente, as pessoas podem chegar a resultados que ás vezes a gente até pode classificar como esdrúxulos, ou pelo menos muito complexos. Mas ainda assim acho que as pessoas não podem ser desconsideradas nas avaliações que elas fazem. Não sei dizer se o problema é exatamente interpretação de texto, ou se já de bom senso; são coisas diferentes. Uma coisa até mais elevada que isso, né? [risos] Porque, a depender do nível intelectual ou de escolaridade das pessoas que estejam lendo, algumas coisas já se sobrepõem. Na situação atual, o problema é mais de bom senso… ou talvez tenhamos que arrumar outra palavra também, porque a situação é muito complexa.

L: Algo deu errado no caminho…

R: Muito errado, exatamente. Algo deu muito errado nos últimos anos, pra gente ter conseguido chegar a tal estágio que as coisas estejam tanto à deriva, né? É bom que elas não sejam sempre 100% controladas, mas no nível de deriva que a gente chegou, é realmente sinal de que alguma coisa se perdeu. Talvez seja mais até que a interpretação de texto. Talvez seja certo grau de civilidade mesmo, de tolerância com a interpretação do outro.

L: Só o fato do seu livro ter sido suspenso antes da venda, já diz muito… [Referência a liminar concedida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em março de 2017, que proibiu a venda e comercialização da Editora Record de exemplares do livro ‘Diário
da Cadeia’, após processo movido pelo ex-deputado Eduardo Cunha].

R: É algo gravíssimo, realmente muito grave. Foi realizado pelo Poder Judiciário, o que dobra ainda mais a gravidade da situação. São pessoas com alta escolaridade e que detém um poder muito grande. Isso também é grave. Por isso eu vejo que começou com um problema de interpretação, mas já não é mais isso. Agora a situação é de um grau de intolerância muito maior. Não é mais gente não entendendo o texto, é gente querendo que a compreensão do outro não exista ou até que o próprio outro não exista. A gente começa silenciando o outro e termina matando, massacrando, e assim vai.

L: Começa com um livro e termina com as pessoas.

R: A História já nos mostrou isso. E a História também mostra que a gente não aprende  com a História; faz de novo, e pior, e repete. A gente se aprofunda nos erros ao invés de aprender.

 

“Eu tenho tentado fazer uma obra que consiga intervir na realidade”

 

L: O que você busca quando escreve uma obra como ‘O Divórcio’, por exemplo?

R: Eu tenho tentado fazer uma obra que consiga intervir na realidade. Então ela não é exatamente uma obra que me apresente a realidade, mas uma obra que tenta intervir na realidade. E isso tem consequências. Uma delas é causar desconforto, uma reação. Eu já me acostumei. Estou tentando fazer obras que mantenham este aspecto de intencionalmente intervir, mexer.

L: É o poder da arte.

R: É o que eu mais gosto. O leitor não termina a leitura passivo – pelo contrário, ele pode terminar muito nervoso.

L: E sobre o ‘Diário da Cadeia’. Quais foram as repercussões que mais te marcaram,
além da suspensão em si?

R: A principal repercussão foi o próprio Judiciário, né. Essa foi a que mais me assustou. Até hoje o livro tem dificuldades de circulação, não por conta da editora, mas porque muitos distribuidores recusam, há grupos políticos locais que fazem pressão para o livro não ser vendido. Então dá pra ver que têm, sim, tentativas de escondê-lo. Acho que essa é uma situação que teve.

L: É maior que a suspensão, na verdade.

R: Com certeza. Tanto é que o processo continua até hoje. É uma série de constrangimentos.

 

“Eu tenho certeza que teve muita gente que viu a exposição do QueerMuseu e descobriu a própria homossexualidade. E muita gente não quer isso. Tem essa questão de calar tudo aquilo que provoca reflexões pra não ver os próprios problemas, suas próprias questões”

 

L: Isso diz muito.

R: Muito mesmo. O público está conivente demais com certas coisas e muito incoerente com outras. As artes estão sendo atacadas e isso não é aleatório. Tem essa questão da interpretação e também de uma intervenção, de fazer as pessoas se revelarem. O que mais se revela sobre o livro não é o autor, mas o leitor. E as pessoas não querem se revelar, elas querem ficar paralisadas. A arte tem a capacidade de revelar a fraqueza e os preconceitos das pessoas. As pessoas não querem enxergar isso, então preferem agredir. Eu tenho certeza que teve muita gente que viu a exposição do QueerMuseu e descobriu a própria homossexualidade. E muita gente não quer isso; é tipo ‘fecha esse negócio, eu não quero ver!’. Tem essa questão de calar tudo aquilo que provoca reflexões pra não ver os próprios problemas, suas próprias questões.

L: Se olhar no espelho é difícil, né?

R: Muito. Pensar sobre si mesmo, admitir os próprios erros, perceber os próprios calos… Complicado, né?

L: Verdade. Vejo que a literatura revela a capacidade de você se colocar no lugar do outro. No ‘Diário da Cadeia’, no ‘Divórcio’… Muita gente se sentiu até ultrajada [risos].
O objetivo era esse mesmo?

R: A intenção desses textos todos é realmente causar uma certa intervenção. Eu queria lidar com a imprensa contemporânea de massa e questões de espetáculo, então mirei na ética na imprensa, nos relacionamentos, na vida. Só que, como o esperado, a narrativa foge do autor – como fugiu. Nesse caso, fugiu mesmo – muita gente fez as comparações mais díspares. Inclusive achando que era tudo realidade, outras de que era tudo ficção, outras pessoas fazendo tabelas de porcentagem dizendo quem é quem e me mandando pra eu confirmar… Teve gente que disse que é ele mesmo ou até quem diz que esteve em tal festa. Aí eu digo: poxa, não lembrava de você, desculpa [risos].

L: [risos] Você retratou uma realidade, mas não necessariamente é aquela realidade.

R: [risos] Exatamente. A realidade é uma coisa complexa, né? Não é algo tão simples, mas eu fui indo, fui fazendo. E as pessoas vão lendo também. Pra mim hoje isso é mais tranquilo. Se você quer entender isso, então tudo bem. As pessoas têm uma coisa interessante que é procurarem o autor afirmar a leitura delas. Elas querem que a gente diga “é isso mesmo, é verdade”. Quando eu vejo que uma pessoa tá muito nervosa, muito tensa e precisa muito daquilo, eu falo ‘tá certo, você tem toda razão’. Eu não vou causar a tristeza em ninguém, né? No livro Divórcio, não é incomum que as pessoas cheguem pra mim e falem que eu contei a vida delas. Isso me acontece, em média, duas ou três vezes por mês. Quando o livro saiu, era mais de uma vez por dia. Ou seja, a pessoa tem absoluta certeza que eu contei a vida dela – mas são muitas pessoas diferentes. E eu sempre falo: ‘claro, claro’. É normal. [risos]

L: Então a gente pode dizer que, na verdade, o que se tem mesmo é dificuldade para a ficção.

R: Não tenho dúvida. Tenho certeza disso. Nesse momento, as pessoas têm muita dificuldade de fabulação. Talvez a gente esteja num momento em que se busca por respostas muito rápidas, muito velozes. E a ficção, até mesmo a arte, não é isso. Na verdade é justamente ao contrário: é como se a gente levasse um soco; demora um pouco para acordar daquilo. A gente entra num mundo dos sonhos e precisamos acordar. E agora todo mundo está acordando muito assustado; faz um barulhão e a pessoa já acorda, não pensa em nada e acredita em tudo. Todo mundo acha que tudo é de verdade, que tudo aconteceu, que foi assim mesmo… independentemente de qualquer coisa. Eu escrevi um livro de contos que tem uma seção que tem o meu nome também e trata de sexo em vários pontos diferentes. Em alguns eu sou homossexual, em outros eu sou bissexual, em outros eu sou heterossexual. Ou seja, eu não posso ser tudo aquilo. É só olhar e ler que você vai reparar que não tem como – e as pessoas acreditam que todos são verdadeiros, conforme a leitura que ela quer fazer. Eu achava que esse tema iria finalmente fazer com que as pessoas ficcionalizassem a sua leitura, mas nem esse. Acho que não existe nada que hoje em dia possa resolver isso.

 

“Talvez a gente esteja num momento em que se busca por respostas muito rápidas. E a ficção não é isso. Na verdade é justamente ao contrário: é como se a gente levasse um soco; demora um pouco para acordar daquilo. Agora todo mundo está acordando muito assustado; faz um barulhão e a pessoa já acorda, não pensa em nada e acredita em tudo”

 

L: No fim acaba virando um efeito dominó, né? Porque interfere em outras áreas, como a própria política, por exemplo.

R: Totalmente. Já não se separam mais as áreas, as pessoas vão para a política conforme vão para o futebol e lá no futebol é como se fosse na política. No jantar da família, o macarrão de domingo é como se estivesse indo votar. A vida destampou. Houve um destampatório, as pessoas estão revelando as coisas mais horríveis, seus piores preconceitos sem lidar com consequência nenhuma… Eu não sei o que vai acontecer.

L: Será que a leitura tem força pra sanar parte do problema?

R: Ajudaria bastante. Eu acho que a educação, o nível educacional, realmente é urgente. Sobretudo a educação básica, que é aquela que vai trazer a leitura inicial. Não adianta a gente chegar pra estudante de mestrado e doutorado explicar… Eles já sabem [risos]. O problema é realmente quem está na quarta série, as crianças… isso teria ajudado. O problema agora é o tempo verbal: teria ajudado. O que ajudaria hoje… Confesso que não sei. Eu estou tão perdido quanto qualquer outra pessoa. Os escritores não são oráculos de sabedoria fora de outras profissões, sabe? Eles fazem parte do seu próprio tempo, não têm respostas também pra muita coisa.

 

“Houve um destampatório: as pessoas estão revelando as coisas mais horríveis, seus piores preconceitos sem lidar com consequência nenhuma…”

 

L: A gente pede porque os escritores costumam ser observadores da realidade.

R: Sim. Para você escrever um livro, uma ficção, precisa ter essa característica de observar, mas isso é algo que fazemos ao longo do tempo. A gente anota, mas a vida diária, a vida do dia a dia, a gente tem as mesmas angústias de qualquer pessoa. De quem trabalha na padaria, de todo mundo. Vida normal.

L: Bom, vamos encerrando, né? E para terminar… você já deve ter respondido essa pergunta várias vezes, mas vamos lá: porque a maioria dos teus personagens se chama Ricardo?

R: [risos] Já fizeram essa pergunta muitas vezes e eu já respondi de muitas formas diferentes. Eu, nesse exato momento, respondo assim: no último livro, não coloquei meu nome em lugar nenhum, nem no contrato. Inclusive tiveram que ir para a Justiça pedir quem eu era. Eu operei uma transformação radical – que deu errado, porque a Justiça chegou e… né? Mas reunindo todas as respostas que já dei até hoje, essa foi a forma que tentei encontrar para fazer uma intervenção efetiva, para conseguir causar na leitura uma operação não de refletir a realidade – afinal de contas, é o meu nome e ninguém está na minha vida, só eu – mas o que eu tinha para neutralizar o leitor e tentar fazer esse grau de intervenção. Toda a minha obra dá certo, mas na verdade dá certo em partes. Essa parte é uma parte fracassada, não funcionou. As pessoas acharam que realmente tudo aquilo era verdadeiro. Aí eu faço sem nome nenhum e também acham [risos].

L: Só comprova como a ficção é difícil.

R: Ultimamente está muito difícil. Mas seguimos, e vou continuar. Vêm outros livros a caminho. Eu sempre estou escrevendo. Comecei esta obra muito lentamente porque nesse exato momento estou muito sufocado pelo tempo presente, então são ensaios que as pessoas pedem, textos, intervenções, e eu não quero me omitir. Estou escrevendo muito sobre o momento contemporâneo, textos de urgência. Mas posso adiantar que o próximo livro é um romance que vai se passar em Brasília.

L: Mais Ricardos vindo por aí?

R: Vamos ver. Vamos ver.

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Autoria: Julia Maziero Possa, jornalista e mestranda do Programa de
Pós-graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo.

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