Feliz daquele que não possui vícios. Posso começar assim um romance, ou um conto, o gênero que mais me satisfaz na condição de danação em que o escritor se encontra. Mas deixando de lado a questão menos virtuosa da condição humana, feliz daquele que possui hábito, que, segundo o dicionário online ao qual consultei – pois não me dei o trabalho de buscar referências mais aceitáveis, academicamente falando – se define como prática frequente ou regular. E agora, se me permite o leitor amigo que se dará ao trabalho de seguir a leitura do presente texto, atesto aqui que meu hábito, no termo mais salutar – mas não menos danoso – que minha mente obtusa consegue buscar em seu paradigma é o hábito da leitura.
O Pequeno Príncipe de Exupéry, assim como Rikki – Tikki – Tavi de Kipling, são, segundo a meta-memória que ainda me é acessível, as primeiras narrativas das quais tenho lembrança. Lembrança dos tempos da tenra e não tão doce infância que ou Deus ou o Diabo me deram, talvez, de barganha, por algum crime cometido em vidas passadas. Só que com cinco anos, pelos menos a este, que te escreve, nesses idos anos a leitura solitária não era, ainda, um benefício alcançável. Quem me presenteava com a leitura era a minha solitária – e não menos apaixonada pela vida – mãe. Início da danação e salvação de uma alminha condenada – por mais que não fizesse ideia disso – à Literatura como único meio suportável de viver e morrer em vida.
Queixas irreparáveis de lado, – e que são problemas de minha terapeuta, que com a graça do bom Deus segue em seu humano ofício – cresci lendo – depois de alfabetizado por uma professora de nome Inês – pois o exemplo vinha de um lar turbulento, onde um pai dependente do álcool não confundia os fundos vazios dos copos de Schnapps com a realidade de um texto de Hemingway intitulado Miniatura V, que começa assim: “Fuzilaram os seis ministros do Gabinete às seis e meia da manhã, encostando-os à parede de um hospital”. Talvez não seja à toa que a primeira palavra que me lembro de ter lido na vida tenha sido serpente. E não, não li a narrativa de Adão e Eva e o pecado capital, ainda. Já o Neruda, tão bem quisto por minha mãe, se perguntava qual seria o ofício de Hitler na eternidade do Inferno.
Maniqueísmos à parte, decidi que a única coisa que eu realmente levaria a sério na vida seria escrever. E escrever bem. O que acredito não ter sido alcançado. De uma forma ou outra, a saída – ou solução – seria estudar sobre leitura para aprender a escrever, pelo menos, direito. O leitor condescendente consegue imaginar onde minha obsessão – pois os sonhos eu deixo para os menos ateus – me levou.
No ano de nosso Senhor de 2012, ingressei no curso de Letras da Universidade de Passo Fundo, no admirável – e nos dias atuais, não menos resistente à ignorância que nos cerca, como uma matilha de mabecos famintos – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. A intenção continuava a mesma: tornar-me um escritor de renome. Em 2018, já deixei o renome para os bustos de bronze nas praças ou para as lápides mais ou menos esquecidas de personalidades muito mais relevantes do que a minha. Mas me tornei professor, e o caro leitor pode, se simpatizar com este te escreve, admirar-se com a disciplina que leciono hoje. Literatura. Palavra enigmática antes de ingressar na Letras da UPF. Local, inclusive, que permitiu a este simplório escriba conhecer algumas das (se não as) melhores pessoas que a vida pôde me proporcionar.
Aos Professores e eternos Mestres que tive o prazer e a alegria de conhecer no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Passo Fundo, aqui fica o testemunho de um grande admirador de todos vocês: aprendi a ler através de vocês e com vocês. Aprendi o valor da mais dignificante profissão que alguém – ao menos para aqueles que vivem através das (e pelas) narrativas – pode aspirar. Hoje carrego o título de Professor, não só de Literatura, mas de Letras, com um orgulho feroz e voraz. E isso foi escolhido, por mim, nem por Deus… nem pelo Diabo. Escolhi o caminho das Letras, trilhado pela estrada da vida e da morte, da dor e da alegria e, se o estimado leitor me permite mais algumas palavras neste enfadonho e pobre texto, lhe digo que vago pela vida entre erros e acertos e o fim será o mesmo, mas a estrada é a de cada um e a minha, de medíocre aspirante a escritor, começou pela voz de minha mãe narrando o combate da pequena mangusta de Kipling contra as grandes najas: o que acabou me levando até os discursos dos grandes Mestres, aos quais tive a sorte e o prazer de conhecer no Curso de Letras da Universidade de Passo Fundo.
Creio na vida, e que me perdoem o tom profético, mas minha dedicação a tudo que aprendi na Letras pode encerrar este texto com a seguinte citação: “No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus”.
Somos narrativas.
Lucas Hessel é professor e mestrando do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo.