Quem sou eu?

Embora eu saiba que sou um ser gerado por Salete e Otávio, Procópio e Iracema, Hélia e Wilkerson, Mercedes e Arno, ainda fico me perguntando quem mais me “gerou”. Quem sou eu?

Primeiramente sou esse ser sim. Sou ser fruto de um lugar muito pobre. Brincava com alguns objetos confeccionados por meu pai. Feitos de madeira. Carreteis eram rodas. Sabugo de milho eram os bois. Eram de sonhos. Quantos sonhos! Brotavam de uma criança. Um dos primeiros desejos. Como o mar está para a praia. E a praia para o mar. Muito cedo. Tão cedo que antes de raiar os primeiros flashes de luz solar ele apareceu. Por volta de 5 anos. É dessa constituição que quero falar. É de quem me concebeu. É quem me fez esse eu.

Me pego pensando. Fui constituído. As pessoas me constituíram no eu que sou. Esse eu profissional. Sentimental. Completo. Esse “eu” sonho.

Ser professor. Tudo se encaminhou para esse foco. Lembro-me da primeira palavra que decorei. A luz de lampião. Numa casa de chão batido. Copiava mecanicamente. Talvez uma das poucas escritas que haviam. Fecho os olhos e vejo. Uma lata amarela. Isso. Uma lata. A lata poderia se transformar em muitas coisas. Mas naquele momento ela me ensinava. A escrever. A decodificar. Borella. Borella. Era o nome do óleo de soja.

Quando ingresso na escola, no interior, o mundo se abriu. A cada dia reafirmava meu sonho: quero ser professor. Salete é o nome da pessoa que me ensinou a gostar dos livros. Das letras. Fecho os olhos e vejo. Como se fosse hoje. Seus lábios pronunciar as mais belas palavras. As mais lindas. As histórias incríveis.

Ursinho. Abelha. Rei e sua cadeira feita de couro de piolho. Os gestos não se apagam. Um menino sentado à frente. Ela dizia: “vocês podem ser o que vocês quiserem. Sonhem. Vocês serão prefeitos. Professores. Vereadores. Então sou Salete, quando hoje conto histórias e meus alunos brilham os olhos.

Nós somos constituídos por pessoas. Eu não sou eu. Eu sou o outro. A vida do outro que viveu pra mim. E eu vou constituindo outras pessoas. Assim nós nos tornamos eternos.

Sou Claudete, quando penso incondicionalmente nos meus alunos. Quando me preocupo se eles não entendem a matéria. Quando sou simpático e amável. Quando avalio da melhor forma, colocando-me na vida de cada ser que ali está.

Sou tanta gente. Sou eu. Sou o outro. Sou Luciane e Carmen Schons, na medida em que meus alunos aprendem a escrita tanto no inglês ou em português. Sou elas quando vibro em perceber que meus alunos construíram um belo texto. Sou as duas quando deixo recado de incentivo no final das produções textuais. Essas professoras deixaram marcas positivas em mim – e as reproduzo em outros.

Sou Luciane quando uso a dureza sem perder a ternura. Sou Carmen quando sento ao lado de meus alunos e pratico a escrita orientada.

Eu poderia ser Laercio. Mas Laercio só, não. Sou eu e mais um monte de gente num único ser. Você já percebeu? Você não é você. Eu não sou eu. Eu sou Marlete. Sou Sônia quando ensino com entusiasmo e carinho a disciplina para a qual fui designado. Sou Marlete quando gesticulo querendo entrar no cérebro de cada um. Quando passo o gosto pelo estudo. Sou Sônia quando escrevo com uma caligrafia perfeita e amo a literatura.

Depois disso, sei quem sou. Sou eu. Sou os outros. Sou a vida dos outros. Sou a eternidade dos outros em mim. Sou você. E você talvez possa ser um pouco de mim.

 


 

Texto do professor e egresso do curso de Letras da UPF, Laercio Fagundes dos Santos. 

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