Sem tabu: uma conversa com Jairo Bouer

Apesar de estarmos no auge da Era da Informação, falar de sexo ainda é um grande tabu. Prova disso é o aumento significativo de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) entre os jovens brasileiros: dados divulgados em 2018 pelo Ministério da Saúde mostram que o índice de contágio da AIDS dobrou entre os jovens de 15 a 19 anos na última década. A estimativa é que, no país, 827 mil pessoas tenham HIV e outras 112 mil não saibam que convivem com o vírus.

A importância de falar sobre sexo foi o tema central da conversa com o médico psiquiatra Jairo Bouer, que esteve na UPF para recepcionar os estudantes em mais ano letivo. Em entrevista, ele fala sobre questões polêmicas como a abordagem da sexualidade nas escolas e, principalmente, a necessidade de se falar sobre isso – sem filtros e, claro, sem tabu.


 

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Fotos: Assessoria de Comunicação/UPF

Letrilhando: Estamos vendo um aumento significativo de casos de ISTs entre os jovens. Considerando que, na maioria das vezes, esse assunto se apresenta como um tabu, como chegar nesse jovem em uma linguagem acessível, de fácil acesso, para falar sobre isso?

Jairo Bouer: Temos falhado na comunicação, principalmente com esse jovem-muito-jovem, ou seja, aquele entre 13 e 15 anos, o pré-universitário, que está começando a viver a sua sexualidade. A gente viveu os anos 1980, uma fase mais crítica, mais complicada, onde nos vimos obrigados a falar de sexualidade e transmissão do vírus HIV. Em meados dos anos 1990, isso muda com a chegada dos novos tratamentos e a possibilidade de se conter a doença. Hoje uma pessoa HIV positivo pode viver tranquilamente a sua vida toda: o tratamento efetivo não transmite o HIV. Mas essa mensagem chegou de alguma forma nas pessoas que elas se sentiram mais liberadas, como se só fossem velhas doenças. Não é a toa que a gente viu esse aumento de HIV nos jovens, mas também um aumento muito grande de casos de sífilis, por exemplo.

 

De acordo com o Ministério da Saúde, a população mais afetada pela sífilis é a de mulheres, principalmente negras e jovens, na faixa etária de 20 a 29 anos.

 

Temos preocupação, sim, com o que está acontecendo com o jovem. E não dá pra falar que todo jovem tem o mesmo risco: a população que tem mais risco é a LGBTQI, ou seja, as minorias que, de alguma forma, ainda estão mais expostas a preconceitos, violências, agressões, bullying, muitas vezes com a questão de autoestima, de autodepreciação. Eles lidam com uma certa dificuldade com a sexualidade e acabam se expondo mais a situações de risco, se cuidando menos. Penso que as informações talvez também cheguem mais truncadas para essa população porque não existe abordagem específica para ela.

Outro grupo sensível é o das meninas muito jovens, que ainda tem uma dificuldade tremenda de se colocar em relação aos seus parceiros. É um momento da vida que implica muito nas questões de autoestima, autoconfiança, de autoaceitação e, muitas vezes, a pressão externa pode fazer com que se não se cuidem como poderiam. Isso eu vejo principalmente nas meninas com condições socioeconômicas menos favoráveis: são meninas que enxergam na maternidade a construção de um papel social, uma possibilidade, uma saída. Muitas vezes, com 14 ou 15 anos, elas engravidam – e não foi por acidente. Tudo isso faz a gente pensar que temos que rever tudo que está sendo feito. Mas dentro do que está sendo feito, a gente tem que voltar a falar desse assunto.

Letrilhando: Falar sobre o assunto é fundamental… Se questiona muito a necessidade de falar sobre isso na escola. Como você vê isso? 

Jairo Bouer: Acontece que esse foi um tema que perdeu espaço na mídia nos últimos anos em função da normalização da questão do HIV. Precisamos voltar a falar de educação sexual de uma maneira mais presente nas escolas. Essas questões colocadas hoje pelos governos mais conservadores são absolutamente equivocadas.

A gente precisa, sim, discutir sexualidade. Não adianta não falar sobre isso, evitar essas questões. E aí eu penso que essa educação sexual deve ir além da biologia, de falar só de doença. Falando só sobre isso, a gente deixa escapar uma série de questões que são muito importantes, como as emoções atreladas a questão da sexualidade, o bullying, o preconceito, o consentimento para o sexo… Temos que falar que momento certo é quando os dois estão de acordo, temos que falar da menina ser empoderada para não fazer sexo só porque o cara está fazendo pressão, mas porque ela está afim e se sente preparada pra isso. E, além de tudo isso, precisamos voltar a falar da importância do cuidado e da prevenção.

Tem uma tremenda resistência do jovem em usar camisinha – a camisinha virou empecilho. Começa a usar e a medida que vai conquistando uma certa estabilidade na relação, cai fora. Só que estabilidade para o jovem é um conceito muito relativo, tudo muda muito rápido. Acho que todas essas questões tinham que ser debatidas.

 

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Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela USP e biólogo graduado pela UFSC. Trabalha com comunicação há 25 anos, com foco em prevenção, saúde e sexualidade (Foto: Portal UOL).

 

Letrilhando: Talvez alcançar o jovem seja o maior desafio. Mas você já faz isso há anos na televisão, no rádio e na internet. Como foi estabelecer essa ponte? 

Jairo Bouer: Não sei se eu tinha ou tenho algo muito teórico para pensar na linguagem com que eu falo com eles, mas eu uso muito o jeito que eu tenho de falar com as pessoas. Então é óbvio que eu não tenho a idade deles, aliás, cada vez eu fico mais velho  e mais distante [risos], mas eu acho que temos que falar da maneira mais natural e objetiva possível.

Eu evito falar a mesma gíria, mas tento, de alguma forma, facilitar ou encurtar a distância da linguagem para que isso saia de uma maneira mais tranquila. O programa da rádio, se não me falha a memória, já está no ar há 20 anos, seis vezes por dia, desde então. As questões mudaram de lá para cá? Não, as questões são muito parecidas. Mas são parecidas porque a informação não chegou? Não, a informação chega, mas tem algumas coisas que são do momento, é involuntário. A gente tem que aprender e voltar sempre a falar sobre tudo isso.

Letrilhando: E tratar com tabu está longe de tudo isso. É o poder da palavra: poder de falar sobre o assunto.

Jairo Bouer: Eu acho que sim. Sobre essas questões, quanto mais a gente puder falar, melhor.

 

 

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