Aquela que tinha amor até em seu nome

Certa vez, no vilarejo de Lucca, em Toscana, havia uma jovem moça chamada Lyubov (derivado o elemento eslavo “lyub” que significa “amor”), filha do senhor feudal Eudes e de sua esposa Aldreda. Moça esta que tudo tinha, tudo podia. Por trás dos panos, uma pessoa. Na frente de seu povo, outra. Não era à toa que quase todos a adoravam, muito raramente via-se uma pessoa com tanto poder. A serva de sua moradia, Bogdana, tinha um amor especial pela jovem, mesmo que por inúmeras vezes fora destratada, permanecia fiel e loucamente apaixonada. 

Aos poucos, Lyubov foi se aproximando de seu povo. Como sempre a idolatravam, jamais desconfiaram da terrível pessoa que esta poderia ser. A cada dia, a garota envolvia-se mais com os moradores daquele vilarejo. Ao meio de tantos homens e mulheres, Jocosa, uma rapariga simples, muito inteligente, que sempre se dedicou para que houvesse paz em Lucca, deixou-se levar pelos encantos de Lyubov. A filha dos senhores feudais viu em Jocosa a presa perfeita para dar seu bote e tornar-se completamente idolatrada. E assim, durante muito tempo, foi conquistando-a aos poucos, pelas beiradas.

Certo dia, após muitas conversas íntimas com a moradora, chamou seu pai e lhe disse:

– Sabes, nos últimos meses estou passando bastante tempo com indivíduos que moram neste vilarejo, mas uma me chamou atenção: Jocosa. Já deves ter a visto perambulando por aí. Eudes, sem entender muito, pediu que a filha continuasse. 

– Ela tem um comportamento estranho, fala com alguns gatos pelas ruelas, por muitas vezes esconde seu rosto, parece até que tem alguma doença em sua pele – disse a jovem.

O senhor feudal espantou-se, mas antes mesmo de pronunciar uma sequer palavra, Lyubov o interrompeu:

 

– Acho que Jocosa é uma bruxa! – disse a jovem bravamente – Acredito que possa ter me enfeitiçado. Devemos queimá-la!

 

Eudeus chamou seus homens e, sem pestanejar, iniciou-se uma caçada à suposta bruxa. Lujban e Lyudmila, irmãos de Jocosa, ouviram os rumores que começaram a circular e logo correram avisar a rapariga, que mal nenhum havia feito. A moça apressou-se para fugir.

Era tarde demais. Resistiu, tentou se explicar, lutou. De nada adiantou. Queimada em praça pública. A última visão que se teve foi de Lyubov sendo aplaudida e vangloriada. A caça às bruxas continuou. Primeiro, Lyudmila. Após, Cateline, mãe de Jocosa, Lyudmila e Lujban. A fama de Lyubov como a “destruidora do mal” se propagou e, progressivamente, todas as mulheres que lutavam por um lugar para morar com mais paz e menos mortes, foram perseguidas, humilhadas e queimadas. Por onde passava era recebida como gloriosa. A jovem viu então que faltava uma. Somente uma.

 Chamou imediatamente Bogdana, a qual veio rapidamente agradar sua amada patroa.

– Já a disse que sempre a vi como uma serva leal? – questionou ironicamente.

– Acredito que não, senhorita. Mas, sempre fiz meu melhor para agradá-la.

– Contudo, venho notando um comportamento estranho de sua parte desde que começamos a combater o mal de Lucca.

Sem entender, a serva não respondeu. Então, Lyubov virou seu último gole de chá, levantou e em tom de voz alto, enunciou:

– Servos! Venham! Temos aqui a última bruxa existente no vilarejo. Queimem-na.

E assim se foi feito.

Aquela que se demonstrou amiga do povo, que lutava por um lugar melhor. Aquela que tinha amor até em seu nome. Não tinha amor pelos outros.

 


 

Conto escrito pelo estudante de Letras da
Universidade de Passo Fundo, Lucas Danielli Marinho.