O conto distópico Harrison Bergeron: uma análise a partir de John Rawls

O ano era 2081, e todos eram finalmente iguais. Ninguém era mais inteligente, mais bonito, mais forte ou mais rápido que ninguém. Essa igualdade rigorosamente imposta tinha como fiscalizadores os agentes do United States Handicapper General (Gabinete Delimitador dos Estados Unidos). Sob sua determinação, cidadãos com aptidões intelectuais ou físicas acima da média eram obrigados a usar dispositivos que nivelassem suas habilidades em comparação com os demais.

Por exemplo: pessoas com inteligência acima da média eram obrigadas a usar, no ouvido, uma espécie de rádio com o intuito de reduzir sua capacidade mental. Desse modo, a cada determinado período de tempo, um transmissor do governo emitia um som agudo para que o indivíduo não se beneficiasse das características superiores de seu cérebro.

Harrison Bergeron, de 14 anos, fora bastante afetado com o uso dos aparelhos niveladores, já que, por ser bastante inteligente, ao invés de um pequeno rádio como os demais, ele usava um enorme par de fones de ouvido e óculos com lentes grossas e distorcidas. Devido sua aparência, foi obrigado a colocar uma bola vermelha de borracha no nariz, raspar as sobrancelhas e cobrir alguns de seus dentes brancos com próteses pretas. Além disso, para amenizar sua força física, foi obrigado a carregar, para onde fosse, uma pesada sucata metálica.

Em um ato de rebeldia, Harrison se liberta de todos os aparelhos niveladores que o desabilitavam, invade a gravação de um programa de televisão e ordena que todos os participantes ali presentes façam o mesmo com seus dispositivos niveladores. Seu ato transgressor está sendo televisionado para inúmeras pessoas. A televisão noticia Harrison como sendo um marginal transgressor, que se autoproclama oficialmente livre daquela imposição tirânica, motivo de festa dentre todos os presentes no auditório.

Ao passo em que entram pela porta agentes do Gabinete Delimitador fortemente armados, disparos são efetuados com o intuito de conter Harrison e a euforia que ali acabara de se instaurar, vitimando-o e instituindo novamente a ordem no local, agora novamente controlado pelos agentes do governo.

Além de caracterizar-se como uma crítica direta à repressão e ao autoritarismo de regimes conservadores, o conto Harrison Bergeron, escrito por Kurt Vonnegut Jr., e publicado originalmente no ano de 1961, aborda em forma de distopia várias críticas a respeito das teorias igualitárias de justiça. John Rawls (1921-2002), filósofo estadunidense, ainda que não faça diretamente uma contestação ao modelo de pensamento igualitário, propõe uma alternativa para este caso, denominada por ele como princípio da diferença, cujo objetivo é corrigir a distribuição desigual de aptidões, sem que se imponha limitações aos mais dotados (como Harrison Bergeron, por exemplo). Desse modo, pode-se traçar um paralelo entre o conto escrito por Vonnegut e a ideia proposta pelo filósofo.

A alternativa de Rawls para este caso, conforme nos aponta Sandel (2017), consiste em estimular os bem-dotados a desenvolver e exercitar suas aptidões, compreendendo, porém, que as recompensas que tais aptidões acumulam no mercado pertencem à comunidade como um todo. Não criemos obstáculos para os melhores corredores; deixemos que corram e façam o melhor que puderem. Apenas reconheçamos, de antemão, que os prêmios não pertencem somente a eles, mas devem ser compartilhados com aqueles que não têm os mesmos dotes.

Em Uma Teoria da Justiça (1971), John Rawls afirma que o princípio da diferença representa, na verdade, um acordo para considerar a distribuição das aptidões naturais um bem comum e para compartilhar quaisquer benefícios que ela possa propiciar. Os mais favorecidos pela natureza, não importa quem sejam, só devem usufruir de sua boa sorte de maneira que melhorem a situação dos menos favorecidos.

Aquele que se encontram naturalmente em posição vantajosa não devem ser beneficiados simplesmente por ser mais dotados, mas apenas para cobrir os custos com treinamento e educação e usar seus dotes de modo a ajudar também os menos afortunados. Ninguém é mais merecedor de maior capacidade natural ou deve ter o privilégio de uma melhor posição de largada na sociedade. Mas isso não significa que essas distinções devam ser eliminadas. Há outra maneira de lidar com elas. A estrutura básica da sociedade pode ser elaborada de forma que essas contingências trabalhem para o bem dos menos afortunados.

Ainda que esta análise não aborde as várias questões que envolvem a teoria proposta por Rawls, percebe-se que, embora a alternativa proposta por ele não sugira, necessariamente, uma distribuição igualitária de aptidões, renda ou riqueza – importantes influenciadores no acesso do sujeito a oportunidades melhores −, traz implícita a importante busca pelo cuidado com o outro. Assim, ao invés de utilizar empecilhos com o intuito de nivelar a atuação do indivíduo em sociedade − como nos demonstra o conto de Vonnegut −, as instituições sociais devem reconhecer as aptidões dos mais dotados, e estruturar-se de modo a produzir incentivos que, em um longo prazo, beneficiem os menos favorecidos socialmente.


                                                         Ensaio escrito por Edemilson Antônio Brambilla, estudante do curso de Letras/Português – Inglês da Universidade de Passo Fundo.

Tal trabalho utilizou-se das seguintes referências:
RAWLS, J. Uma Teoria da Justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 708p.
SANDEL, M. Justiça: o que é fazer a coisa certa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2017.
VONNEGUT JR, K. Harrison Bergeron. The Fantasy of Science and Science, 1961.

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