Ensaio escrito por Guilherme Pizzatto para a
disciplina de Linguística I. Nível III – Letras UPF.
Neste ensaio irei tratar das Relações Sintagmáticas e Relações Associativas, focando nas Associativas em relação com o dialeto Talian, ainda muito utilizado no interior do nosso estado por comunidades de descendentes italianos. O objeto desse estudo que utilizarei serão as blasfêmias, “bestemas”, ofensas verbais que envolve o âmbito religioso e que são ditas em momentos de raiva, como o sintagma “porco dio” (equivale a chamar Deus de porco), que muitos pronunciam “porco due” (podendo ser traduzido como porco em dobro) de forma a não profanar o nome de Deus, sendo isto uma eufémia. A questão que discutirei será: o ato de pronunciar a blasfêmia, sendo dita de forma fonologicamente diferente, altera seu valor?
Começo a introdução considerando um aspecto sociocultural interessante destas comunidades: as famílias de descendentes, principalmente de italianos, são muito religiosos, contudo, eles têm muitas formas de “bestemar”, não ficando apenas no nome de Deus mas também no da virgem Maria “madonna”.
As Relações Sintagmáticas se dão no discurso, isto é, quando a língua é mobilizada pelo falante. Nela os signos se estabelecem de forma linear, onde cada signo adquire seu valor se relacionando com as diversas partes que o acompanham, pois um signo é o que o outro não é, mas o valor de um signo não está nele, e sim, no que ele representa para nós. Os sintagmas são expressões prontas, nas quais o uso proíbe qualquer alteração, onde o valor do sintagma é ganho se opondo ao signo que o precede ou ao que o segue.
As Relações Associativas, não ocorrem no discurso, portanto, não são lineares. Estas relações se dão na memória do falante e qualquer palavra pode lhe evocar uma ou quantas associações lhe for possível, baseadas em analogias, outros elementos comuns ou nas imagens acústicas.
As pessoas que vivem nas comunidades citadas acima, utilizam do dialeto Talian para se expressar, seja em momentos de raiva, de alegria ou de surpresa. Destacarei nos momentos de raiva, onde, para aliviar ou demonstrar o que estão sentindo, eles introduzem no discurso expressões de outro idioma, como “porco dio”. Mas falar essas blasfêmias é considerado algo errado, sendo um pecado imperdoável, de acordo com Marcos 3:29, então desenvolveu-se uma forma de “amenizar” estes sintagmas com o objetivo de torná-los menos ofensivos, mudando a pronúncia para “porco due”.
Estas expressões não comunicam e não transmitem mensagem, apenas expressam uma sensação. Portanto a blasfêmia pode ser dita em situações diferentes e expressam apenas a intensidade de um sentimento. Quando o falante as utilizam no discurso, é em uma situação sob pressão de um sentimento brusco e violento onde se “deixa escapar” a expressão e quando isto acontece, quem pronunciou é logo reprimido, pois acredita-se que este acontecimento é acompanhado de consequências extremamente negativas, como se Deus castigasse quem as pronunciou.
Creio que o motivo para estes grupos utilizarem tanto a blasfêmia, é a necessidade de culpar alguém quando algo não dá certo, já que quando algo sai como o previsto, agradecem a Deus, mas quando sai errado precisam culpar ou xingar este Deus, porque, acreditam ser o responsável pelas coisas que acontecem. Este pensamento ocorre principalmente nas pessoas mais velhas.
Porém, no momento que o falante utiliza da eufemia, inconscientemente está fazendo uma relação associativa, pois este, antes de tudo, pensou na forma original do sintagma mas ele não entrou no discurso, mas somente a forma modificada. Contudo, quem o ouve falar, de imediato faz uma relação lembrando da forma original e do valor que ele carrega. Se colocados no mesmo contexto de fala, apresentam o mesmo valor de sentido.
Concluo este ensaio respondendo o questionamento realizado inicialmente, a pronúncia diferente da blasfêmia não altera seu valor, pois o seu sentido ou valor se mantém na memória de quem fala e de quem escuta, portanto, pouco resolve mudar a pronúncia quando o falante já pensou e teve a intenção de pronunciá-la, isto se tornou tão comum e convencional que podemos substituir os signos “dio” e “due” e o seu valor praticamente não será alterado no momento da comunicação.
Referências bibliográficas
BENVENISTE, Émile. Eufemismos antigos e modernos. Problemas de Linguística Geral I. Tradução de Maria da Glória Novak e Maria Luisa Neri. 5. ed. São Paulo: Pontes, 2005.
SAUSSURE, Ferdinand de. Relações Sintagmáticas e Relações Associativas. Curso de Linguística Geral. 28º. ed. São Paulo: Cultrix, 2012.