Deixar o conforto do lar para atravessar o globo, encarar dezenas de testes, presenciar um dos maiores conflitos civis da Era Moderna e servir a uma pátria construída por milhares de refugiados e pela ruptura constante de direitos humanos pode até parecer loucura para algumas pessoas, mas não para o policial militar passo-fundense, Laudemir da Rosa Gomes.
Estudante do II nível do curso de Letras da UPF e comandante do 3º Batalhão Ambiental da Brigada Militar de Passo Fundo, é ele o entrevistado especial nesta edição da Revista Letrilhando e nos conta sobre o ano em que deixou o Brasil para viver uma experiência transformadora: de fevereiro de 2013 a fevereiro de 2014, foi protagonista em uma das missões de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), no Sudão do Sul.
Letrilhando: Tem uma história em particular que nos motiva a entrevistá-lo: a sua experiência no Sudão do Sul, em apoio à ONU. Sobre isso, gostaríamos de saber: como foi que você chegou até lá? Era um plano antigo? O que aconteceu para que tivesse essa experiência?
A ideia inicial era mandar meu currículo para uma empresa de “security contractors” por uma questão de ganhar um bom salário para atuar no Oriente Médio, mas um colega que voltara de uma missão da ONU no Haiti me informou dessas missões, que seriam tão ou mais interessantes no sentido de experiência e, assim, eu dei os primeiros passos. A primeira vez que tentei foi em 2007, mas fui reprovado na prova de língua inglesa. Já em 2010, quando estava trabalhando em Uruguaiana, abriu um novo edital e resolvi fazer a prova novamente. Desta vez, como estava estudando inglês com mais dedicação, fui aprovado.
O processo de qualificação e ida para as missões de paz da ONU é todo regulado pelo Exército Brasileiro através do Comando de Operações Terrestres (Coter). Na época em que eu participei do processo seletivo, eram realizadas duas provas por ano, normalmente divididas em duas capitais do Brasil. Além disso, o processo é dividido em três etapas: há a prova de língua inglesa e/ou francesa; a direção de veículo off road e on road; e prova de tiro. Depois de ser aprovado nesta etapa, ele recebe acesso a um curso de Educação a Distância (EAD) na língua em que está habilitado para, então, frequentar um estágio de preparação para as missões de paz no Rio de Janeiro, em Deodoro, por um período de 30 dias. Depois de indicado para a missão, o currículo é aprovado para o Departamento de Missões de Paz (DPKO) em Nova Iorque e, só então, é realizada uma entrevista por telefone com alguém do staff da equipe e é aí que o voluntário é designado para a missão.

Letrilhando: Conte-nos mais sobre as atividades desempenhadas lá: o que você fazia? Quanto tempo ficou?
A chegada na missão foi na capital de Uganda, Kampala, mais propriamente no distrito de Entebbe, onde se localiza a base de apoio logístico da ONU para missões no continente africano. Lá chegando fomos recepcionados por uma equipe de policias que já se encontram na missão (a missão da ONU é dividida em três pilares, o militar, o policial e o civil). Eu e um grupo de outros quatro policiais militares de Brasília, Rio de Janeiro e Paraná fomos encaminhados para um hotel, onde ficamos hospedados durante uma semana para os procedimentos de chegada, fazendo identidades e demais procedimentos, entre os quais um pré-treinamento inicial que serve para explicar aos recém-chegados o cenário da área de missão e suas características, e também orientações referentes aos costumes do país anfitrião. Nesse treinamento fizemos parte junto com policiais australianos, ucranianos e americanos – e toda semana chegam novos contingentes policiais, de diversas partes do mundo.
Depois de concluída essa semana inicial, somos designados para o nosso país de atuação – no meu caso, o Sudão do Sul. Ao chegarmos na capital, Juba, fomos acomodados em containers de transição, que servem de moradia para pessoas que estão em treinamento ou apenas passando pela capital. Após uma semana com treinamento específico para aquele país (com provas de língua inglesa e direção), recebemos a nossa habilitação para conduzir veículos na área da missão e fomos, então, designados para as cidades onde iríamos prestar nossos serviços.
Nossa primeira designação foi em Aweil, uma cidade localizada ao norte do Sudão do Sul, algo em torno de 140 km da fronteira com o Sudão. Lá chegando, após algumas horas sobrevoando uma paisagem incrível a qual eu nunca tinha imaginado na vida, chegamos ao nosso destino. Claro que estas horas foram divididas entre um avião bimotor e um helicóptero russo – e a viagem não se realizou no mesmo dia.
A paisagem de Aweil era um tanto quanto pitoresca: fazia entre 45ºC e 50ºC, estação das secas, uma pista de chão batido e um local chamado Aeroporto com uma casa de barro com palha como recepção. Um pouco atordoados da viagem, fomos recepcionados por um microônibus que nos conduziu até a base da ONU, localizada no centro da cidade. A base da ONU era conhecida por todos como “Mangoes Base” – ou Base das Mangas, pela enorme quantidade de árvores dessa fruta lá existentes.

Fomos acolhidos por um policial do Nepal, com quem tivemos alguns problemas de comunicação, pois até sintonizar o ouvido e começar a entender a miscelânea de sotaques do inglês que existem, precisa de algum tempo. Depois do primeiro contato, fomos acomodados em nosso container, que seria nossa moradia pelo próximo ano.
No dia seguinte, nos deslocamos por volta das 8h, junto da UNPOL (polícia da ONU), para a instrução diária das missões. Lá, com policiais do Nepal, Fillipinas, Kênia, Gâmbia e Suécia, recebemos a designação para trabalhar com “collocation” ou seja, um tipo de instrução informal realizada para os policiais locais, sendo que cada semana é estabelecido um assunto e as equipes normalmente de dois a três UNPOL vão até um posto de polícia e tratam aquela semana tal assunto, como direitos humanos, policiamento comunitário, etc. Essas conversas são sempre conduzidas em inglês, mas têm auxílio de um tradutor para os policiais locais, que falam, na maioria das vezes, árabe ou algum idioma tribal entre os 43 existentes por lá.

Após quatro meses de trabalho em Aweil, tendo em vista meu currículo policial ser na maior parte na área de operações, fui designado para a Unidade de Proteção Diplomática, localizada na capital Juba. Lá a missão era similar, mas com a diferença de que trabalhávamos com os policiais de embaixadas e aeroportos, além de ministrarmos instruções formais para os policiais da unidade de proteção diplomática do Sudão do Sul.

Em 16 de dezembro de 2013, o cenário mudou totalmente: usando do argumento de uma tentativa de golpe de estado, o então presidente [Salva Kiir] depôs o vice –presidente [Riek Machar], líder oposicionista, e todas as comunicações se cortaram. Os informes extraoficiais falam em algo em torno de 10 mil pessoas mortas na capital, ou por envolvimento no suposto golpe ou por serem de tribos desafetas.
A base da ONU ficou fechada sem que qualquer pessoa saísse por 10 dias, somente recebendo refugiados que fugiam da ofensiva realizada pelo governo. Cerca de 17 mil pessoas se refugiaram em uma das bases das Nações Unidas na cidade, campos de refugiados foram criados e o mandato da missão mudou para POC (Proteção de Civis). As equipes passaram a monitoria das questões de segurança nos acampamentos, sempre contando com o apoio de ONGs de proteção de direitos humanos, como Médicos sem Fronteiras, que auxiliavam em todos os aspectos. Alguns dias depois do início da crise no país, a ONU e o governo entraram em acordo para que houvesse o monitoramento da situação do pais, sendo montada uma força-tarefa com militares, policiais, observadores civis e militares locais, que percorriam as localidades para monitorar atividades que poderiam violar direitos humanos, juntamente de revista de campo de refugiados para busca de armas, drogas e outros produtos potencialmente danosos e outros, o que se desenrolou até o fim da minha missão.

Letrilhando: De que maneira essa experiência transformou a sua vida?
A primeira coisa mais impactante na vida de qualquer pessoa que está numa situação dessas é rever conceitos sobre tudo, sobre a vida e sobre a liberdade, pois vivemos em um país em que, apesar das dificuldades, temos possibilidades. Lá no Sudão do Sul não é possível abrir a torneira e tomar água, por exemplo. Também é bom ver o quanto o brasileiro é preparado, pois conseguíamos resolver várias situações com uma flexibilidade incrível, coisa que policiais de outros países, inclusive os de primeiro mundo, não faziam. Também tem o crescimento pessoal, que é muito grande tanto nos aspectos profissionais quanto nos particulares, pois a possibilidade de um intercâmbio com novas culturas e novos idiomas é sempre muito interessante.
“Vivemos em um país em que, apesar das dificuldades, temos possibilidades. Lá no Sudão do Sul não é possível abrir a torneira e tomar água, por exemplo”
Letrilhando: Hoje você é acadêmico do curso de Letras da UPF, certo? Por que escolheu o curso? De que forma o conhecimento apreendido no “mundo das letras” pode evidenciar as experiências que você já viveu até aqui?
A Faculdade de Letras já era um projeto que vinha amadurecendo, pois, como gosto de estudar línguas, penso que o curso vem ao encontro das minhas expectativas. Quando começamos a debater assuntos como linguística, por exemplo, temos a dimensão da origem e do estudo da língua e isso faz com que os horizontes se ampliem no aspecto de entender as diferenças, principalmente no que diz respeito as diferentes formas de falar o português, por exemplo.
Na missão eu tive essa mesma experiência só que no idioma inglês, pois lá são várias pessoas de diferentes países do mundo que falam o inglês cada um com sua própria peculiaridade. Além disso, aquela ideia de que o brasileiro não fala um bom inglês ficou no passado, pois o contato diário com o idioma e o estudo fazem com que o nosso padrão se eleve, inclusive superando pessoas de países de primeiro mundo no que diz respeito a comunicação.
Ingressar na faculdade de Letras, para mim foi um enorme desafio, pois saí totalmente da minha zona de conforto tendo em vista minha profissão, que sempre atuei e continuo atuando na área do Direito. Esta experiência é totalmente nova e inovadora, pois me trouxe um novo universo totalmente diverso do qual eu estou acostumado. Ao tempo todo tenho novos aprendizados acadêmicos e de interação social, já que o universo acadêmico nos traz diferentes formas de ver o mundo e que com certeza agregam na nossa construção acadêmica e pessoal.