Escrita Sem Segredos: qualificando a produção escrita dos acadêmicos

Muitas pesquisas apontam para a importância do trabalho com a produção textual no ensino fundamental e médio. Contudo, será que, ao sair desses níveis de ensino e ingressar em uma universidade, os alunos estão, de fato, preparados para os desafios, em termos de escrita, que enfrentarão? 

De acordo com Marinho (2010), o simples fato de o aluno ter sido aprovado no vestibular, por exemplo, não garante que ele tenha familiaridade com os gêneros que lhe serão apresentados no contexto acadêmico. Um indivíduo pode ter um bom domínio da língua em diversas práticas discursivas, mas não, necessariamente, de todos os gêneros textuais (MARINHO, 2010).

Uma queixa bastante frequente nas universidades, principalmente nos primeiros níveis de ensino dos cursos de graduação, é a de que, normalmente, o professor universitário apenas solicita que os estudantes produzam determinado gênero, como uma resenha, um fichamento, um artigo científico, um ensaio, etc., supondo que eles já possuam os conhecimentos necessários para isso e que estão suficientemente preparados para a realização de tal tarefa.

 

Isso significa que os alunos, na maioria das vezes, não recebem orientação suficiente para a elaboração dos gêneros textuais exigidos em âmbito acadêmico.

 

Essa falta de familiaridade com os gêneros acadêmicos se dá pelo fato de que eles não fazem parte das práticas de escritas do ensino básico. Logo, é normal que o aluno sofra um estranhamento e se sinta despreparado ao deparar-se com esses gêneros na universidade. Por isso, neste nível de ensino é preciso levar em conta que apenas falar sobre a estrutura básica do gênero ou solicitar a sua produção não é o suficiente para produzir. É primordial que, antes do processo de redação propriamente dito, sejam estudados diversos textos do gênero em questão e que o estudante receba orientações a respeito da sua própria produção, podendo aprimorar seu texto, posteriormente, em um processo de reescritura.

Considerando todos esses aspectos, o projeto Escrita Sem Segredos, coordenado pela professora do curso de Letras Elisane Regina Cayser, em parceria com o Setor de Atendimento ao Estudante (SAES), da Universidade de Passo Fundo (UPF), proporciona oficinas semanais para os alunos oriundos de diferentes cursos da universidade, a fim de oportunizar esse contato sistemático com os gêneros acadêmicos. 

Nas oficinas, executadas pela aluna extensionista Daniela Ribas Nunes, do curso de Letras, os estudantes têm a oportunidade de se familiarizar com esses gêneros e de perceber que os textos acadêmicos não são extremamente complicados, como se imagina. Isso faz com que o processo de produção seja simplificado e permite que os alunos se sintam inseridos na cadeia discursiva do mundo acadêmico. 

 

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Em cada encontro semanal são apresentadas, de maneira simples e acessível, as principais características dos gêneros acadêmicos, além de ser proposta a análise dos textos para identificar as características estruturais de cada gênero. Após isso, os alunos procedem à redação dos textos, com auxílio da mediadora, seguida pela reescrita, que qualifica os textos. O espaço fica permanentemente aberto espaço para os alunos exporem suas dúvidas sobre a escrita em geral, e não apenas sobre a escrita acadêmica e, além disso, também são apresentadas algumas normas básicas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

O progresso dos participantes em termos de competência de escrita torna-se evidente ao longo da oficina: muitos alunos que iniciam sem sequer saber o que é uma resenha, por exemplo, encerram a oficina suficientemente qualificados para produzir um texto deste gênero. 

Diante dos fatos, fica claro que somente com o trabalho sistematizado com os gêneros acadêmicos os alunos romperão a inexperiência na redação científica, o que, se não resolvido, poderia resultar em alguns problemas no desempenho no âmbito universitário. 

 


 

Referências bibliográficas

BAKHTIN, Mikhail; Os gêneros do discurso. In: BEZERRA, Paulo. (Org.). Os gêneros do discurso. São Paulo: Editora 34, 2016. p. 11-69.

CAYSER, Elisane Regina; MORAES, Gisele Benck de. O letramento na universidade e a sua relação com a questão da escrita. In: Congresso Ibero-Americano de Docência Universitária. Porto Alegre. Anais do X Congresso Ibero-Americano de Docência Universitária. Porto Alegre: EDIPUCRS, v.1, 2018. Disponível em: <http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/acessolivre/anais/cidu/assets/edicoes/2018/arquivos/417.pdf&gt;. Acesso em: 01 de jun. de 2019. 

MARINHO, Marildes. A escrita nas práticas de letramento acadêmico. RBLA, Belo Horizonte, v. 10, n. 2, p. 363-386, 2010. Disponível em: <https://www.redalyc.org/html/3398/339829613005/&gt;. Acesso em: 13 de jun. de 2019.

NUNES, P. A.; SILVA, Carmem Luci da Costa. Cursos organizados por módulos: uma proposta para o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita em nível superior. Desenredo: Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras. Universidade de Passo Fundo, vol. 9, n.1, p. 42-58, jan./jun. 2013.

 


 

AUTORAS

Daniela Ribas Nunes é estudante do 7º nível de Letras da UPF
e bolsista de Extensão (PAIDEX-UPF) no projeto Escrita sem Segredos.

Elisane Regina Cayser é professora do curso de Letras
e coordenadora do projeto Escrita sem Segredos. 

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