A mesa redonda, realizada na Semana Acadêmica do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UPF, tratou do preconceito sofrido pelos membros da comunidade LGBT+ na Universidade e na sociedade em geral. O tema foi abordado do ponto de vista linguístico a partir da teoria de Émile Benveniste, além de troca de informações sobre nomenclaturas e conceitos pouco conhecidos pela maioria das pessoas além de dados sobre violência contra o grupo em questão.
No primeiro momento um aluno de Pós-graduação em Letras trouxe ao evento o fato de o preconceito estar na sociedade, ou seja, o preconceito está na língua. Depois de situar o lugar de fala, iniciou uma comparação entre os campos de concentração nazistas, mais precisamente dos muçulmanos que estavam nessas prisões, com a sociedade brasileira no atual momento político, colocando a comunidade LGBT+ como os prisioneiros. Baseado no livro O que restou de Auschwitz onde o autor mostra como os muçulmanos eram considerados não homens, pois eram os últimos das filas de prisioneiros e eram tão fortemente violentados que não conseguiam falar, não conseguiam apropriar-se da língua, consequentemente não podiam colocar-se na posição de sujeito de um discurso e, portanto, não “existiam” naquela sociedade, sendo tratados como inexistentes. Se não produz discurso não existe. Então, traça-se a linha que une os dois momentos citados, os muçulmanos eram os últimos da hierarquia, na atual sociedade brasileira, a comunidade LGBT+ é a última da hierarquia e a violência contra eles é uma forma de tirá-los da sociedade, de calar, de impedir o uso da língua.
Marcas linguísticas negam a existência da comunidade. Palavras usadas de forma pejorativa em discursos de ódio feitos por pessoas politicamente importantes, poderosas e influentes aumentam a violência. Após o discurso não podem mais voltar atrás, o que foi dito foi dito, não adianta justificar, o discurso já influenciou os seguidores. Por isso, podemos dizer que a língua revela a cultura e a sociedade, nesse caso, uma sociedade intolerante, em que a maior autoridade política incentiva a dor como forma de “cura” do que não é patológico. A violência é a forma de tirar a comunidade LGBT+ da condição humana. No entanto, lança-se uma luz de esperança em meio ao furacão da intolerância, a língua, que é capaz de libertar, por isso é tão importante que aconteçam protestos e mobilizações de resistência aos discursos de ódio que permeiam a sociedade. E, apenas a língua permite essa resistência.
No segundo momento do evento foram explicados, por um aluno transgênero do curso de Psicologia, diversos conceitos que geram dúvida em pessoas que estão fora da comunidade LGBT+. Entre eles foram: Identidade de Gênero (engloba quatro especificidades – binário– identifica-se como masculino ou feminino/ não binário– identificam-se com ambos, com nenhum ou flui entre os dois/ cis-gênero– nasce e identifica-se com o gênero correspondente ao sexo biológico/ transgênero– não se identifica com o sexo biológico); Expressão de Gênero (pode ser – feminina, masculina ou andrógena– esta se relaciona com uma “mistura” das duas anteriores); Orientação Sexual (trata-se de por quem cada indivíduo se atrai, não é uma escolha); Bissexualidade (o grupo com menor visibilidade dentro da comunidade, luta pelas mesmas causas que os pansexuais, liberdade de atrair-se por pessoas sem a distinção de identidades de gêneros); Transexualidade (era considerada doença – tratada pelo nome de transexualismo até então – mas permanece no Código Internacional de Doenças porque precisam de políticas públicas de saúde devido às questões hormonais e cirúrgicas, no entanto, não é necessária a cirurgia para ser considerado “plenamente” transexual, as cirurgias só são realizadas em casos de disforia – trata-se do desconforto com o órgão biológico); Transgênero (engloba tudo que foge do “normal”, ou seja, exceto os binários); Drag Queen (está relacionado com expressão artística.
É errada a visão que temos de que são apenas homens que se vestem de mulher. Está somente ligado com arte. Traveste-se de algo para fazer um show, por exemplo); Travestis (são as mulheres trans que não conseguem uma mudança plena por não terem acesso às mudanças no corpo e ao mercado de trabalho, por isso, muitas torna-se prostitutas); Passabilidade (o fato de, após a mudança de gênero, os problemas sociais diminuírem. Isso não muda quanto aos problemas burocráticos de acesso à cidadania). Diante de tantos rótulos lembram que não rotular é o caminho para uma utopia, porém, nesse momento político é necessário para que a comunidade LGBT+ tenha visibilidade.
A última fala do evento foi de uma estudante de Física que representou e falou sobre a comunidade lésbica. Primeiramente mostrou porque a comunidade LGBT+ incomoda tanto a sociedade, pelo fato de bater de frente com o topo da hierarquia social (homens cis brancos, ricos, religiosos e heterossexuais). Após, passou a falar sobre como o uso de termos como sapatão pode ser pejorativo ou empoderador. Mais uma vez nos aproximamos da linguística para tratar do sentido dos termos usados por cada pessoa em cada momento do discurso e como essas funções se alteram. Na questão do empoderamento lésbico, lembrou que normalmente não é considerado, pois já existe um estereótipo de mulher empoderada (mulher rica que usa salto alto).
Outro ponto importante foi o fato de a sociedade acreditar que numa relação amorosa é necessário que exista um homem, o que só aumenta o preconceito. Também lembrou que enfrentam problemas em consultas médicas, principalmente nos ginecologistas, que não têm instrução para atendê-las. Quanto à violência contra lésbicas, apresentou que os dados não são contabilizados separadamente, ou seja, as estatísticas aparecem juntamente com os casos de feminicídio e violência contra mulher. Apenas as Universidades trabalham para o levantamento desses dados, entre esses, o mais alarmante é o crescente número de estupros corretivos, que se trata de violência sexual contra lésbicas como punição pela sua orientação sexual e que, muitas vezes, acaba na morte das vítimas. Trouxe ainda, duas novas nomenclaturas: Heteronormatividade Forçada (o fato de a sociedade impor a heterossexualidade como norma); Performance (está relacionada com parâmetros sociais, nos quais uma mulher lésbica pode performar ou não como mulher cis, ou seja, uma mulher lésbica pode usar vestido e cabelo longo (imagem social feminina) ou calças e cabelo curto (imagem social masculina).
Enfim, foi uma noite de grandes discussões e aprendizado para quem não conhecia tão a fundo a comunidade LGBT+. Para finalizar destaco uma fala interessante da noite: é muito importante que esse assunto seja tratado na Universidade, principalmente com os cursos de Licenciatura, isso porque são os futuros professores que apoiarão e auxiliarão os alunos que podem ter inconformidade de gênero quando estiverem em sala de aula.