Variação linguística e ensino de língua materna

                                                                         Ensaio apresentado pela estudante Eliange Peres Pacheco,
do 7º nível de Letras – UPF, para a disciplina de Sociolinguística.

Durante as aulas de Sociolinguística, tivemos contato com diferentes leituras, em especial sobre variação linguística, as quais propiciaram discussões e questionamentos sobre as variantes linguísticas encontradas em todas as línguas. No centro de tais conversas, o assunto foi direcionado para suas implicações em sala de aula, no ensino de língua materna. A partir disso, percebemos o quanto a discussão sobre a variação linguística é deixada de lado nas aulas de língua portuguesa, embora seja relevante no processo de ensino. Em decorrência de tais estudos, será feita, no presente ensaio, uma reflexão sobre a importância de se abordar a variação linguística no ensino de língua materna a fim de promover a competência linguística dos aprendizes.

Porém, antes de passarmos para a discussão sobre a relevância do ensino das variantes, é importante relembrar o conceito de variação linguística e quais os tipos de variações que existem. Para Tânia Maria Alkmim (2012), as variedades linguísticas são as diferentes formas de falar de uma comunidade linguística e, de modo geral, classificam-se em diatópicas, diastráticas e diafásicas. As primeiras dizem respeito aos falares das diferentes regiões geográficas. As segundas estão relacionadas aos aspectos socioculturais de uma sociedade e também com a identidade social dos falantes. Concorrem para este tipo de variação fatores como a idade, o sexo dos falantes, a classe social e a situação ou contexto de fala (ALKMIM, 2012). As últimas, as diafásicas, referem-se à adequação da linguagem, de informal para formal e vice-e-versa, de acordo com o tipo de situação e interlocutor.

Além dos três tipos gerais de variação apresentados acima, há a variação diacrônica, a qual é englobada pela variação diastrática. A variação diacrônica está associada às mudanças que vão sendo operadas na língua no decorrer do tempo. Dessa forma, esse tipo de variação relaciona-se, de certo modo, ao fator da faixa etária, pois é na comparação entre diferentes gerações que percebemos mais facilmente o uso de novas expressões e de novas formas linguísticas.  

As variantes podem ocorrer no nível fonético, morfológico, sintático e lexical e sofrem a influência de fatores linguísticos e extralinguísticos (BELINE, 2015). Assim, por exemplo, dentro da variação diatópica, pode-se ter variantes em qualquer um dos níveis de análise linguística, de acordo com cada região. Já na variação diastrática, é possível encontrar variações em decorrência dos fatores extralinguísticos, como classe social, a qual influencia no nível de escolaridade do falante e, consequentemente, no uso que ele faz da língua. Vejamos alguns exemplos de variação diatópica e diastrática:

[…] percebemos claramente que existem diferenças, por exemplo, entre os falares gaúcho, paulista, carioca, baiano, etc; assim como também percebemos diferenças entre a fala de indivíduos provenientes de zona rural e a de indivíduos urbanos nas diferentes regiões […]: (i) no plano fonético-fonológico – as vogais /e/ e /o/ pretônicas, como nas palavras “serrado” e “novela”, são pronunciadas como vogais abertas (é, ó) no nordeste e como vogais fechadas (ê, ô) no sudeste e no sul; (ii) no plano morfológico – o sufixo derivacional –(z)inho agregado à palavra pai resulta em painho na Bahia e paizinho nas demais regiões do Brasil; (iii) no plano sintático – a posposição da negação como em vou não é típica do nordeste, a dupla negação como em não vou, não é comum no sudeste (especialmente no Rio de Janeiro), e a anteposição da negação como em não vou é preferida no sul; (iv) no plano lexical – as palavras pandorga, papagaio e pipa marcam diferenças regionais entre os falantes; (v) no plano discursivo – facilmente associamos o bah ao gaúcho, o não tem ao florianopolitano, o ôrra meu ao paulista, o me’rmão ao carioca, o pronto ao nordestino, e assim por diante. […] São exemplos típicos de variação social: a vocalização do -lh- > -i- como em mulher/muié; a rotacização do -l- > -r- em encontros consonantais como em blusa/brusa; a assimilação do –nd- > -n> como em cantando/cantano; a concordância nominal e verbal como em os meninos saíram cedo/ os menino saiu cedo
(COELHO, I. L.; GÖRSKI, E. M., 2009, p. 77).

Além das variações vistas acima, há a mudança linguística como resultado da própria variação. Nenhuma língua é estática ou homogênea, assim, sempre haverá mudanças. Porém, nenhuma alteração no padrão de uso de uma língua se dá sem que primeiro tenham existido diferentes formas de significar o mesmo objeto em dado momento. Esse aspecto pode ser percebido na variação diacrônica, com as diferentes gerações. É o que se evidencia no exemplo a seguir:

[…] No percurso de Vossa Mercê para você, a forma de tratamento vai se gramaticalizando →vansuncê→vassucê→vacê→você até chegar ao pronome pessoal de segunda pessoa. A forma pronominal você mantém o traço formal originário de 3ª. pessoa, criando uma situação de conflito entre as regras normativas de concordância. Persiste a especificação original de 3ª. pessoa, embora a interpretação semântico-discursiva passe a ser de 2ª. pessoa. E você começa a concorrer com o tu. […] No percurso de gente (nome genérico) para a gente (pronome) a forma pronominal a gente mantém o traço formal originário de 3ª. pessoa. A interpretação semântico-discursiva se altera para +EU, passando a incluir o falante (1ª. pessoa do plural). […] E a gente começa a concorrer com o nós (GÖRSKI; COELHO, 2009, p. 85).

Levando-se em consideração o fato de que nenhuma língua está pronta e que cada geração a recria, “qualquer desequilíbrio desencadeado por motivos unicamente linguísticos ou por motivos externos à língua pode dar origem a variação. E toda variação pode em princípio pode vir a ocasionar a mudança” (CHAGAS, 2015, p. 151). Dessa forma, o uso generalizado de uma das variantes pela grande maioria da comunidade linguística desencadeia a mudança e, como passar do tempo, a gramaticalização da forma. A aceitação de uma ou outra modalidade linguística é dependente do poder socioeconômico do grupo social que faz uso de determinada variante. Assim, a forma utilizada pelo grupo de maior ascensão na escala social é a que se tornará a variante prestigiada.

Em uma comunidade de fala será sempre possível observar-se a coexistência de um conjunto de variantes linguísticas, que se dá no contexto social e cultural de cada comunidade, e tem “ordenação valorativa” refletindo a hierarquia dos grupos sociais (ALKMIM, 2012, p. 41). Ou seja, dentro de uma sociedade haverá sempre uma variante que é considerada a de maior valor em detrimento das demais. E, ainda, há um contínuo na valoração das variações, sendo que algumas formas são mais prestigiadas do que outras a depender do ponto de vista de determinado grupo. Por exemplo, do ponto de vista da gramática normativa, a variante utilizada pelos sujeitos cultos nem sempre está de acordo com o que os manuais de gramática estabelecem como forma correta, ou como “padrão gramatical”.  Já para esses grupos (sujeitos cultos), a linguagem utilizada por classes sociais mais baixas é desprestigiada.

Nesse sentido, a língua marca posições sociais e é um instrumento de poder. Portanto, escolher uma variante é excluir todas as outras. Assim, “uma variedade linguística “vale” o que “valem” na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo de poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais” (GNERRE, 2017, p. 7). Desta forma, tanto a variação diatópica quanto a diastrática revelam a identidade social do falante, a qual grupo ele pertence, e isso mostrará o valor do falante socialmente. E, além do mais, as

Características linguísticas da fala de pessoas de classes sociais menos prestigiadas e de pessoas menos escolarizadas são, em geral, estigmatizadas e desvalorizadas. Isso porque muitas pessoas acham que falar uma variedade diferente da variedade padrão é um problema sério para a sociedade, uma manifestação de inferioridade. Sempre que isso acontece a língua se torna um veículo de preconceitos e exclusões. Ao apontar o “erro” da fala do outro estamos reforçando a desigualdade social, marcando a variação usada pelo outro como um estereótipo, um problema que deve ser resolvido (melhor dizendo, extirpado) pela escola (GÖRSKI; COELHO, 2009, p. 82).

No entanto, sabemos que todas os falares são adequados à comunidade que os utiliza, pois lhes permitem a comunicação e a interação social. Portanto, não há uma variedade “inferior” e outra “superior”, o que existem são relações de poder e dominação dentro de uma sociedade que são veiculadas através da língua. É neste ponto, que se torna fundamental o papel da escola e do professor de língua materna para a desmistificar o conceito de “certo” e “errado” entre os diferentes usos de um idioma.

É importante que o professor de língua materna apresente para os alunos a variação linguística como algo característico de todas as línguas e faça-os perceber de que um indivíduo não está falando de forma “correta” ou “errada” por fazer uso desta ou aquela variante. Além disso, é de extrema relevância que o docente ressalte o uso social da língua e as relações de poder que estão imbricadas no processo do falar. Afinal, “as pessoas falam para serem “ouvidas”, às vezes para serem respeitadas e também para exercer uma influência no ambiente em que realizam os atos linguísticos” (GNERRE, 2017, p. 5).

Nesse sentido, a escola não deve ater-se estritamente ao ensino da norma padrão, na tentativa de que o aluno abra mão de sua variante, aquela que caracteriza a sua identidade social. Mas sim, deve apontar o fato de que é importante que ele saiba utilizá-la de acordo com o contexto, e para ter acesso a outros patamares da escala social, pois

A linguagem pode ser usada para impedir a comunicação de informações para grandes setores da população. […] A linguagem usada e o quadro de referências dado como implícito constituem um verdadeiro filtro da comunicação de informações: estas podem ser entendidas somente pelos ouvintes já iniciados não só na linguagem padrão mas também nos conteúdos a ela associados (GNERRE, 2017, p. 21).

Portanto, o aluno precisa ter conhecimento da variante padrão para que ele saiba adaptar a própria linguagem a fim de ascender socialmente e ter acesso a um número maior de informações. Além disso, torna-se imprescindível salientar a variação diacrônica para que o aluno perceba as mudanças que ocorrem na língua, e possa, então, comunicar-se de forma efetiva com as gerações mais velhas e em contextos mais formais de uso linguístico. Além de que, no momento em que ele perceber a heterogeneidade linguística e as relações de poder dentro de uma língua, o preconceito linguístico passará a ser combatido dentro do próprio ambiente escolar.

É importante capacitar o público jovem a reconhecer as variantes linguísticas e compará-las com o falar ao qual estão habituados em seu dia a dia. Assim, ele saberá o momento certo de utilizar uma ou outra para se fazer “ouvir” socialmente. Também é preciso que ele compreenda todas as questões sociais, econômicas, e ideológicas que estão refletidas no ato linguístico. Em suma, a escola tem papel relevante no momento de possibilitar o contato do estudante com as variantes linguísticas com a finalidade de desenvolver sua competência linguística para que assim possa melhor comunicar-se e tornar-se sujeito do seu próprio dizer.


Referências bibliográficas

ALKMIM, T. M. Sociolinguística Parte I. In: BENTES, A. C.; MUSSALIM, F. (Org.). Introdução à linguística: domínios e fronteiras. Vol. 1. São Paulo: Cortez, 2012. p. 23-50.

BELINE, R. A variação linguística. In: FIORIN, J. L. (Org.). Introdução à linguística: objetos teóricos. São Paulo: Cortez, 2015. p. 23-50.

CHAGAS, P. A mudança linguística. In: In: FIORIN, J. L. (Org.). Introdução à linguística: objetos teóricos. São Paulo: Cortez, 2015. p. 141-163.

GÖRSKI, E. M.; COELHO, I. L. Variação linguística e ensino de gramática. Working Papers em Linguística, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 73-91, fev. 2010. ISSN 1984-8420. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/workingpapers/article/view/1984-8420.2009v10n1p73&gt;. Acesso em: 25 abr. 2019.

GNERRE, M. Linguagem, Poder e Discriminação. In: ______. Linguagem, escrita e poder. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009. p. 5-33.

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