As relações de contiguidade e similaridade no emprego da ironia

Em seu estudo acerca do conceito de ironia de Søren Kierkegaard, Jacqueline Oliveira Leão (2013, p. 9) afirma que “a ironia é arte sedutora, encerrando algo de enigmático, paradoxalmente revelador”. Ao estudar Sócrates, Kierkegaard (1991) apresenta a ironia não somente como uma figura de retórica mas como um método, como uma certa maneira de perceber e interpretar a verdade e a realidade. Mais que simplesmente dizer o contrário do que se pensa, a ironia é uma figura de linguagem que mobiliza complexos procedimentos linguísticos e está associada à poesia, à literatura e à filosofia. Desse modo é que tencionamos, neste trabalho, lançar o foco científico da linguística sobre esta “arte enigmática”.

No trabalho clássico de Roman Jakobson (2010) Dois Aspectos da Linguagem e Dois Tipos de Afasia, o linguista russo nos apresenta o problema das relações de contiguidade e semelhança. Partindo do pressuposto de que a afasia é a perda das capacidades de similaridade (metáfora) e contiguidade (metonímia), o autor nos mostra que toda operação de linguagem é estabelecida entre essas duas relações. Ou seja, para todo ato de linguagem se estabelecem relações de metáfora ou metonímia, dependendo da intenção ou produto final semiológico que se tenha em mente. Nas palavras de Jakobson (2010, p. 61), “a competição entre os dois procedimentos, metonímico e metafórico, se torna manifesta em todo processo simbólico, quer seja subjetivo, quer social”. Essa constatação possui especial implicação para a linguística – e para a semiologia em geral.

Sabemos que a metáfora é a figura de linguagem de produzir sentidos figurados. Em outras palavras, é a associação (por similaridade) de uma determinada descrição a uma figura. Essa figura pode ser de natureza visual, sensorial ou auditiva. Abre-se, nessa interpretação, uma gama de possibilidades tão grande como a experiência humana pode proporcionar. Por exemplo, no verso clássico de Luís de Camões “Amor é fogo que arde sem se ver”, ao tentar definir o (indefinível) amor, o eu lírico afirma que “é” fogo que arde sem se ver. Diz o que o amor é, e não ao que se assemelha, nem como se define e, portanto, o associa diretamente com a figura sensorial do fogo que arde na pele, sem que se saiba onde está, “sem se ver”. Amor é, assim, a sensação de fogo ardente cuja origem se desconhece. Ao dizer que uma coisa “é” a outra, o poeta faz uma operação de substituição – isto é, uma coisa pode substituir a outra sem prejuízo do sentido. “A capacidade que têm duas palavras de se substituírem uma à outra é um exemplo de similaridade posicional” (JAKOBSON, 2010, p. 56).

É possível abrir aqui a discussão de que, deste ponto de vista, a classificação da figura de linguagem mais correta seria a sinestesia, uma vez que se associa um sentimento a uma sensação tátil (fogo que arde sem se ver). Pode-se também defender que metáfora é a mais adequada classificação, uma vez que “amor” é um conceito abstrato e o “fogo que arde” uma sensação tátil, ora a sinestesia se dê entre dois planos sensoriais diferentes. Temos, porém, certeza de que não se trata da figura da comparação, uma vez que o poeta não escolheu dizer “amor é ‘como’ o fogo que arde sem se ver”.

De qualquer maneira, o foco da discussão que apresentamos não é a classificação teórica da figura de linguagem “metáfora”, mas sim o fato de que toda figura de linguagem é metafórica ou metonímica, necessariamente. Na sinestesia, a mistura de duas figuras sensoriais se dá pelo mesmo processo mental de similaridade. Na comparação, a mera adição da conjunção “como” não muda em nada a relação que se estabelece entre o conceito e a sensação que se deseja exprimir. Em todos os casos o procedimento da metáfora produz uma relação de semelhança ou de analogia entre os enunciados e suas figuras.

Do mesmo modo, a metonímia, como relação de contiguidade, é aqui apresentada como operação realizada pelo usuário da linguagem, mais que classificação teórica das figuras de linguagem. Trata-se do emprego de uma unidade lexical fora do seu contexto semântico convencional tendo em vista a contiguidade com o contexto original. Pode-se aqui entrar na mesma discussão feita acima acerca do conceito de sinédoque, mas o que queremos exprimir é que toda operação sinedóquica é, em si, metonímica, uma vez que a relação parte-todo não deixa de ser de contiguidade.

Assim, toda produção da língua baseia-se nessas duas operações apresentadas por Jakobson (2010). Desse modo, o alcance e a importância desses conceitos linguísticos é maior do que parece à primeira vista.

Lançando, assim, nosso olhar sobre o conceito de ironia, especialmente em Kierkegaard, encontramos um solo fértil para a análise linguística tendo por base os conceitos de similaridade e contiguidade – respectivamente as relações metafóricas e metonímicas. Não nos cumpre aprofundar a interpretação filosófica da ironia, mas sim analisar seus aspectos linguísticos e discursivos. Para isso, tomaremos como ponto de partida o conceito kierkegaardiano de que a ironia é a “figura do discurso retórico, cuja característica está em se dizer o contrário do que se pensa” (KIERKEGAARD, 1991, p. 215).

Para um simples exame da ironia verbal, a presença das relações de contiguidade e de similaridade é de fácil detecção. Ao dizermos, por exemplo, “Ana é delicada como um rinoceronte” estamos empregando uma ironia verbal. Neste enunciado, mesmo o leitor leigo pode nos dizer que o que se quer afirmar é que “Ana não é delicada”. A conexão que se estabelece entre o enunciado e seu oposto é metonímica, isto é, uma relação de contiguidade. Nesse caso, ocorre a metonímia quando se toma o oposto pelo enunciado, e isto é válido para todos os usos da ironia. A metáfora, por sua vez, está no estabelecimento de uma relação entre um referente e uma figura. Aqui, esta figura é o rinoceronte, um animal grande e desengonçado, obviamente nada delicado. Se, para a metáfora tradicional, se estabelece um sinônimo, para a ironia se estabelece um antônimo, e é neste jogo paradoxal de se criar uma relação da essência com o seu oposto que se perfectibiliza a ironia.

Tomemos porém um exemplo mais complexo, de autoria de Woody Allen, um dos senhores da ironia na cultura contemporânea, em sua obra Sem Plumas: “Não há dúvida de que o além existe. O problema é saber a quantos quilômetros fica do centro da cidade e até que horas fica aberto” (ALLEN, 2006, p. 14). Nesse enunciado fica clara a intenção do autor de demonstrar que não crê que “o além” exista.

Entretanto, examinando a construção do enunciado podemos perceber facilmente a metonímia pelo ato de tomar o enunciado por seu antônimo: “Não há dúvida de que o além existe” é o contrário do que o autor quer dizer. O que fica oculto, porém, nas marcas textuais é a relação metafórica. Ao enunciar a frase seguinte, o autor subentende que: 1º) “o além” fica distante do centro da cidade e é, portanto, um lugar na cidade; e 2º) tem um horário de funcionamento, uma vez que quer saber até que horas fica aberto.

Essas são características de locais na cidade grande, estabelecimentos comerciais urbanos. Esse conhecimento de mundo que nos leva a associar tais características com o “lugar” que é “o além” só pode ser evocado por aqueles que vivem nas cidades. O nexo de similaridade entre “lugar” e “o além” é, assim, evidente e através dele se manifesta a metáfora, a qual está aqui apresentada de maneira mais abstrata que o normal, não obstante esteja presente.

Como terceiro exemplo, a fim de aprofundar ainda mais nossa análise, examinamos um trecho da peça Júlio César de William Shakespeare. Após o assassinato de César (por Bruto), Marco Antônio discursa no seu velório dizendo: “O nobre Bruto vos contou que César era ambicioso. Se ele o foi, realmente, grave falta era a sua, tendo-a César gravemente expiado” (SHAKESPEARE, 2018, p. 80). Nesse caso, é preciso ter lido a totalidade da obra ou assistido à peça para compreender a ironia de Marco Antônio em exaltar a Bruto chamando-o “nobre Bruto” e condenar César chamando-o de “ambicioso” uma vez que Marco Antônio era seu fiel súdito e colocou-se contra seu assassinato.

Nessa situação a ironia subentende a compreensão maior do discurso previamente estabelecido e dar-se-á entre enunciados em um nível superior da linguagem. Nas marcas textuais do enunciado não é possível identificar nem a similaridade, nem a contiguidade irônicas. Esta se dará pelas falas anteriores da personagem como por exemplo em “Ai, ai da mão que fez correr tão precioso sangue!” em reiteradas adorações a César e condenações à atitude traidora de Bruto. A similaridade aqui se apresenta nos conceitos opostos de “nobre” e “ambicioso” e a contiguidade na defesa da tese oposta. No entanto, metáfora e metonímia se apresentam de maneira difusa. Os elementos aqui postos em jogo são os enunciados todos posicionados pela grande unidade do discurso.
Para Benveniste (2005), a frase é a unidade do discurso. Ainda para ele:

A frase, criação indefinida, variedade sem limite, é a própria vida da linguagem em ação. Concluímos que se deixa com a frase o domínio da língua como sistema de signos e se entra num outro universo, o da língua como instrumento de comunicação, cuja expressão é o discurso. (BENVENISTE, 2005, p. 139)

Essa constatação é de suma importância para as reflexões até aqui tecidas, uma vez que ela e o nosso terceiro exemplo demonstram que a ironia, especialmente, pode se estabelecer entre esses signos de nível linguístico mais alto que compõe o discurso: os enunciados. Isso confere à ironia um caráter de maior amplitude que as simples figuras de estilo – um caráter poético. Ela visa produzir um efeito de sentido além do contrário do que se diz e se manifesta no nível do discurso. Se, para fins de argumentação, quiséssemos apenas dizer o contrário do que dissemos, simplesmente o faríamos. Se Marco Antônio quisesse apenas dizer que Bruto não é nobre diria “Bruto não é nobre”. Porém, se quiser imbuir nesta sua crítica um juízo de valor que cause um efeito maior do que simplesmente dizê-lo, então ironiza Bruto e os traidores de César, assim como fez, colocando-se em um patamar superior de discurso em relação àqueles que deseja criticar. Assim, Marco Antônio quer com a ironia dizer muito mais que o contrário do que de fato diz.

Para Kierkegaard (1991, p. 215), “O fenômeno não é a essência, e sim o contrário da essência”, ou seja, o enunciado não significa o que ele é, mas sim o contrário e, com esta antítese, atinge um nível de significação superior. A ironia faz querer dizer mais do que simplesmente o oposto do que diz. É por isso que para Leão (2013) a ironia “configura-se no mal-entendido, na dualidade entre o fenômeno e o conceito”.

É desse modo que a ironia “viaja na carruagem de um incógnito e desta posição elevada olha com desdém para o discurso de um pedestre comum” (KIERKEGAARD, 1991, p. 216), transcendendo o limiar do texto e da fala para a esfera do discurso, a fim de cumprir com a função principal da linguagem: a função poética. A partir do momento em que o enunciador decide pender o foco da comunicação para a mensagem, segundo Jakobson (2010), estará ele utilizando esta função. Para ele “o estudo linguístico da função poética deve ultrapassar os limites da poesia” e

a poética, no sentido mais lato da palavra, se ocupa da função poética não apenas na poesia, onde tal função se sobrepõe às outras funções da linguagem, mas também fora da poesia, quando alguma outra função se sobreponha à função poética. (JAKOBSON, 2010)

Dissemos, anteriormente, que não nos cumpre aqui investigar a natureza filosófica da ironia. No entanto, seria irresponsável negar o aspecto de profundidade que se nos apresenta tão valioso recurso da linguagem. A figura irônica se apresenta em nosso dia a dia em mais que expressões verbais e textuais, e seu uso na poesia vai para além de significar o contrário, ela nos impõe a lição valiosa de que mais que querer dizer, ser o contrário pode nos aproximar da virtude e da verdade. Intelectualmente, por exemplo, a posição de um nada saber perante o conhecimento infinito do universo é o que compele o filósofo e o cientista a cada vez buscá-lo mais e mais – haja vista a lição clássica de Sócrates extensamente estudada por Kierkegaard.

O que nos cumpre verificar aqui, porém, é que começamos a compreender essa atitude pelo falar, para só depois atingir a esfera das ações. O irônico, assim como o poeta, parte da linguagem como subjetividade, para só depois atingir o mundo, transpondo o fenômeno da metáfora de dentro da linguagem para fora dela.

Portanto, esta simples operação da linguagem pode transportar-se para o âmbito dos pensamentos mais profundos e nos aproximar da verdade de uma maneira bela e inusitada, papel primordial da função poética da linguagem. O poder da linguística e da poética demonstra-nos, assim, ultrapassar o domínio da língua para adentrar o campo da filosofia, da arte e da ciência.

Para Benveniste (2005), “bem antes de servir para comunicar, a linguagem serve para viver […], precisamente porque o próprio da linguagem é, antes de tudo, significar” e é através da significação que nos defrontamos com os maiores mistérios da vida.

 

Referências Bibliográficas

BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral. Campinas: Pontes, 2005.

JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 2010.

KIERKEGAARD, Søren. A. O Conceito de Ironia: Constantemente referido a Sócrates. Petrópolis: Vozes Ltda., 1991.

LEÃO, Jacqueline Oliveira. Breves Considerações Sobre o Conceito de Ironia de Søren Kierkegaard. Revista Espaço Acadêmico, Maringá, v. 14, p.6-11, maio 2013. Mensal.

ALLEN, Woody. Sem plumas. Porto Alegre: L&pm Editores, 2006.

SHAKESPEARE, William. Júlio César. Versão Para Ebook: Ebooksbrasil.com, 2018. Edição Ridendo Castigat Mores. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/cesar.pdf&gt;. Acesso em: 27 nov. 2018.

 


 

Ensaio elaborado por Felipe Quevedo Giovanoni, acadêmico do 5º semestre do Curso de Letras da UPF e professor de Inglês na escola CCAA Paissandu – Passo Fundo, para a disciplina de Linguística I, ministrada pela Profa. Dra. Marlete Diedrich.

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