Escrevo estas linhas de Coimbra, em Portugal, onde estudo e moro há cerca de dois meses e onde também estou vivendo uma das melhores, mais gratificantes e significativas experiências da minha vida: o intercâmbio acadêmico.
Chegar até aqui foi difícil e extremamente desafiador; não há motivos para não dizer a verdade. De minha parte foi preciso muito foco, determinação, coragem e, principalmente, perseverança para continuar seguindo em frente na realização dos meus sonhos mesmo perante as adversidades. De igual modo, foi preciso contar com a ajuda de muitas outras pessoas a quem devo a minha eterna gratidão.
Especialmente, foi fundamental ter escolhido para realizar minha graduação uma instituição de qualidade como a Universidade de Passo Fundo, mais especificamente no que diz respeito às áreas de ensino, pesquisa, extensão e internacionalização. A possibilidade de realizar um intercâmbio acadêmico no curso de Letras da UPF foi um dos motivos para ter entrado no curso e o tempo e as circunstâncias atestaram quão inteligente foi a minha decisão.
Para chegar até aqui, tive que percorrer um longo caminho na UPF, que envolveu sobretudo a minha candidatura, em 2018, a uma bolsa de estudos do programa de Bolsas Ibero-Americanas Santander Universidades, fruto de uma parceria entre o Banco Santander e universidades nacionais e internacionais. Para a minha maior felicidade, fui um dos dois selecionados do edital 02/2018. Assim, graças à UPF e ao Banco Santander, meu sonho de ser um intercambista virou realidade.

Foto: Arquivo pessoal
Tive a liberdade de escolher a universidade em que gostaria de realizar o intercâmbio a partir de uma lista de instituições de ensino ibero-americanas associadas ao programa Santander Universidades e à UPF. Curiosamente, o nome “Coimbra” atraiu o meu olhar e, após uma breve pesquisa, me pareceu uma ótima opção. Alguns meses depois, minha candidatura à Universidade de Coimbra, uma das melhores de Portugal e do mundo, foi aceita. Eu iria estudar em Coimbra.
Eu já sabia que ser um estudante em Coimbra era algo especial, mas não poderia realmente imaginar o quão seria até estar aqui. Por isso escrevo este relato para descrever brevemente os encantos e alguns “segredos desta cidade” (que “levo comigo para vida”, como cantam os fadistas na Balada de Despedida do 5º Ano Jurídico), de Portugal e do intercâmbio. Entretanto, só saberá verdadeiramente o que é ser um estudante em Coimbra aquele que para cá vier (e como bem sabem, a UPF lhes oferece esta e outras excelentes oportunidades).
A Universidade de Coimbra foi criada por D. Dinis em 1290, motivo pelo qual é reconhecida como uma das universidades mais antigas do mundo e de Portugal, tendo iniciado suas atividades em Lisboa até ser definitivamente instalada em Coimbra, em 1537, por ordem do Rei D. João III (UC, 2018). Tantos séculos de história, tradição e conhecimento modificaram todo o cenário cultural português e a paisagem coimbrã, propiciando o nascimento de uma verdadeira cidade universitária, cuja alma e coração são os próprios estudantes. Como afirmou o professor Fernando Taveira da Fonseca, “Coimbra não é uma cidade com uma Universidade, é uma cidade tipicamente universitária” (UC, 2011).
Outrora residência da realeza portuguesa, o antigo Palácio Real é agora parte da Universidade e é facilmente reconhecível como um dos cenários mais famosos de Coimbra e de Portugal. Localizado no topo de uma colina, na Alta da cidade, o Paço das Escolas permite admirar lugares históricos e mundialmente conhecidos. Por falar em colinas, a cidade é um desafio para aqueles que pouco praticam exercícios físicos: Coimbra é repleta de escadarias e ladeiras por todos os lugares, o que me faz pensar nas escadas como uma paixão dos portugueses, que as constroem onde conseguem.
Uma das mais famosas é a que subo e desço todos os dias para ir às aulas, as Escadas Monumentais (o que acaba por ser um nome muito apropriado). Com cento e vinte e cinco degraus, sendo alguns deles soltos e outros tortos, as Monumentais são um desafio diário para todas e todos, principalmente para estudantes, que chegam ofegantes ao seu topo. Corre a lenda que o número de vezes que tropeças em cada um dos cinco lances das Monumentais equivale ao número de vezes que reprovas em cada ano do teu curso. Eu (ainda) não tropecei, mas quase caí várias vezes!

De todos os lugares podemos avistar a alta e alva Torre da Universidade, com seus sinos – ah, a velha Cabra! – a reger a rotina dos estudantes. Antigamente, o relógio da Torre era atrasado quinze minutos (o famoso quarto de hora acadêmico) em relação aos relógios da cidade, para que o ritmo da vida estudantil não se confundisse com a dos outros coimbrenses e também para que os estudantes tivessem tempo de se deslocar de suas residências na Baixa da cidade e arredores até suas faculdades na Alta (UC, 2011). Atualmente, os relógios de toda Coimbra marcam a mesma hora, mas a tradição do quarto de hora resiste à sua maneira porque os professores acabam por permitir um atraso de quinze minutos da parte dos estudantes (e até de si mesmos) até chegarem às suas faculdades para as aulas do dia.
Confesso que é adorável fazer parte de pequenas tradições como a do quarto de hora acadêmico, assim como é prazeroso ouvir os sinos da Torre e das igrejas ao redor da Faculdade de Letras tocarem a cada quinze minutos. Mais belo ainda é ir para casa após um dia inteiro na Universidade e ouvir a Cabra badalar ao final da tarde, quando faço questão de olhar para trás, já no Largo de D. Dinis, para admirar a beleza do coração da Universidade.
No mesmo lugar onde contemplamos a Torre, encontramos também a imponente Via Latina; a Capela de São Miguel, com suas paredes cobertas por pinturas em todos os cantos; a Porta Férrea, que nos convida a entrar em outras épocas toda vez que passamos por ela; a Biblioteca Joanina, considerada uma das mais lindas do mundo – com madeiras e ouro extraídos das nossas terras brasileiras, hoje abriga não somente mais de 60 mil livros dos séculos XVI ao XVIII, como também uma colônia de morcegos que ajudam na preservação desses preciosos volumes ao se alimentarem dos insetos que tentam destruí-los (UC, 2019a). Assim, todas as noites, as mesas da Biblioteca são cobertas por toalhas de couro, para evitar qualquer estrago por parte de seus notívagos residentes. Ao cair da noite, é possível ouvi-los passando por toda cidade e ainda mais vê-los a uma curta distância, se estiveres próximo ao rio Mondego ou ao Paço, por exemplo. Esses e outros lugares, em conjunto com diversos fatores, consagraram à Universidade de Coimbra – Alta e Sofia o título de Patrimônio Mundial da UNESCO, em 2013.

Tudo isso é história, tudo isso é Universidade, é Coimbra e Portugal. Portanto, é sempre agradável fazer um passeio por ali no intervalo do almoço ou após a última aula da tarde. Particularmente, adoro ver os turistas que estão chegando e tento adivinhar suas nacionalidades. Todos os dias é possível ver grupos de trinta a sessenta pessoas com seus guias turísticos a explorarem aquela que é agora minha segunda casa. Aqueles que prestam atenção ao seu redor vão perceber que o mundo inteiro está ali. Em uma caminhada do Paço à Faculdade ou à Baixa ouço risadas em alemão, comentários em japonês, perguntas em francês, respostas em espanhol, instruções em russo, brincadeiras em italiano e muito mais. Nessas andanças já encontrei com peregrinos de Santiago de Compostela, já fiz uma amiga francesa e outra italiana, já conversei com um casal de americanos da Filadélfia e já dei direções a uma garota portuguesa.
Apesar de o antigo Palácio Real ser hoje lugar para professores e estudantes, eu não tenho aulas lá onde agora é a Faculdade de Direito. Mas ainda assim, a Faculdade de Letras fica ao lado do Paço, em frente à Biblioteca Geral, rodeada por outras faculdades e pelo Museu Nacional Machado de Castro e a igreja da Sé Nova. O prédio austero e imponente é característico da reforma que ocorreu na Alta durante o Estado Novo.
Sua fachada é guardada por quatro estátuas que, da esquerda para direita de quem entra na faculdade, simbolizam a Eloquência, a Filosofia, a História e a Poesia (UC, 2019b). O prédio tem sete pisos, várias salas de aula modernas e antigas (na forma de anfiteatros), lanchonete, elevadores, institutos, departamentos e biblioteca. Os corredores são ladeados por estantes e mais estantes de livros nas línguas de muitos países, geralmente localizados próximos aos institutos onde são estudados.

O que irei comentar agora é de cunho um tanto pessoal, já que a impressão que temos sobre as outras pessoas diz mais sobre nós do que sobre os outros. Eu estou gostando muito dos meus professores daqui e adorando poder aprender com eles diariamente. É interessante notar que todos são doutores e falam mais de duas ou três línguas, o que torna as aulas ainda mais proveitosas quando, por exemplo, estou estudando Semântica do Português e a professora lembra um exemplo em latim, francês, espanhol e japonês, ou quando a professora de Língua Inglesa, Significado e Discurso faz um comentário sobre casos em alemão, etc.
Meus professores são, com toda certeza, ótimos profissionais altamente qualificados, como, por exemplo, o professor de Literatura Isabelina, que leciona Shakespeare e já foi diretor do Teatro Acadêmico de Gil Vicente (o mais importante de Coimbra) e a professora de semântica de língua inglesa que realizou sua pós-graduação em Cambridge e Lancaster, no Reino Unido.
Como no Brasil, cada um tem seu modo de lecionar. As aulas são expositivas e dialogadas; os professores fazem muitas perguntas aos alunos e não prosseguem até obterem respostas que podem ajudar a dar continuidade à discussão.
Tenho apenas uma aula em português, enquanto as outras são lecionadas em inglês, com material também em inglês. A língua inglesa é fundamental aqui em Portugal, mais ainda na universidade que recebe milhares de alunos estrangeiros (europeus e não-europeus) todos os semestres. Assim, na impossibilidade de todos falarem português, russo, italiano, espanhol ou qualquer que seja a língua, as aulas são ministradas em inglês para que estudantes portugueses e estrangeiros possam compreendê-la e compreenderem-se.
Esta experiência está sendo fantástica para mim, que amo a língua inglesa e sempre desejei utilizá-la em situações reais de comunicação. Não falo mais inglês para brincar com meus amigos ou fazer exercícios de fixação do conteúdo, mas para efetivamente participar das aulas, sanar dúvidas com o professor durante a aula, ler a bibliografia obrigatória, pedir algo para meus colegas estrangeiros, etc.
Há tanto para se dizer e tanto que não conseguirei transcrever em palavras que devo encerrar aqui o meu relato, que poderá ainda se estender para outras edições desta revista, enfocando diferentes aspectos do intercâmbio. Por ora, me contento em afirmar que estou completamente e irreversivelmente apaixonado por Coimbra. Amo cada momento vivido aqui, cada conhecimento adquirido dentro e fora da universidade, cada amigo e amiga que tenho e que vêm de países tão diferentes, cada lugar que conheço, cada segredo que descubro, cada cair de folha outonal e cada pôr-do-sol sobre o Mondego, cada fado cantado e lamentado nas igrejas e nos becos, cada aspecto da vida portuguesa.

Certamente, Coimbra nos ensina uma lição que é também de amor e tradição – já cantava a nossa musa Amália Rodrigues. Também nos ensina que o mundo é do tamanho dos nossos sonhos e que eles se realizam primeiro pelas nossas mãos. Nos ensina a viver além de nossas vidas, nos corações dos outros, amigos e colegas, nas ruas da cidade antiga, nas margens do rio, no badalar dos sinos. Nos ensina a ser estudante nesta universidade que é o mundo e nesta faculdade que é a vida.
Falta ainda aprender a dizer saudade, pois todos dizem que Coimbra tem mais encanto na hora da despedida, mas, em conversa no comboio com um senhora portuguesa, após lhe dizer que vim a Coimbra para aprender a dizer saudade, como ouvimos Amália cantar, recebi dela a mais bela resposta que ainda me leva a meditar: “Dizer já sabes. Agora, sabes sentir?”.
Referências bibliográficas
UC. Biblioteca Joanina: A Casa da Livraria foi construída entre 1717 e 1728, tendo recebido os primeiros livros somente depois de 1750. 2019a. Disponível em: <http://visituc.uc.pt/biblioteca/>. Acesso em: 02 nov. 2019.
UC. História da Faculdade. 2019b. Disponível em: <https://www.uc.pt/fluc/faculdade/apresentacao/historia_faculdade>. Acesso em: 03 nov. 2019.
UC. História da Universidade. 2018. Disponível em: <https://www.uc.pt/sobrenos/historia>. Acesso em: 02 nov. 2019.
UC. Perspectivas. 2011. Disponível em: <http://www.uc.pt/noticias/02_NL_2011/03_2011/reinventar_cidade/ >. Acesso em: 02 nov. 2019.
Relato escrito por João Augusto Reich da Silva, acadêmico de Letras – Português e Inglês – da UPF, atualmente cursando um semestre de intercâmbio acadêmico institucional no curso de Línguas Modernas, Português e Inglês, na Universidade de Coimbra, em Portugal, através do programa de Bolsas Ibero-Americanas Santander Universidades.