Este trabalho tem como objetivos agregar e aprofundar conhecimento sobre a língua como identidade em grupos queer. Como fundamentação teórica, nos baseamos em Émile Benveniste e no artigo “Linguística Queer: uma pesquisa pós identitária para os estudos da linguagem” de Rodrigo Borba.
Partindo do princípio de que a linguagem é um meio para o homem atingir outro homem, de lhe transmitir e de receber uma mensagem (BENVENISTE, 2006, p. 93), a língua é o principal e mais importante meio de comunicação do homem. Quando se fala em língua, automaticamente nos remetemos à sociedade, pois uma implica à outra. Ou seja, não existe sociedade sem língua e nem língua sem um meio social. A língua engloba a sociedade, é a reveladora da cultura e dos valores sociais. Foi através da língua que se formou uma estrutura social opressora e pela língua que comunidades queers se rebelaram e libertaram. Afinal, se a língua pode oprimir, ela pode libertar.
A estrutura social que serviu de molde julgador foi a heteronormativa, que segundo a pesquisadora da teoria queer Judith Butler, é uma sociedade que descreve como homens e mulheres heterossexuais devem agir (BUTLER, 1999).
A expressão queer surgiu como uma forma pejorativa para se dirigir a grupos homossexuais, era usado como adjetivo para pessoas “estranhas, esquisitas…”. Mais tarde, esses grupos apropriaram-se do termo, ressignificando-o e transformando-o em um símbolo de luta. Atualmente também é usado como forma de estudos de homens e mulheres não heterossexuais.
Além de a linguagem ser o único meio do homem atingir outro homem (BENVENISTE, 2006, p. 93), ela também age como constituidora de sua personalidade. Uma comunidade não pode se expressar com uma língua que não reconhece suas identidades, que foi constituída sob um padrão que marginaliza e abjeta quem se opõe a ele. Os primeiros estudos sobre a linguística queer se deram com as drag queens americanas, que usavam expressões de comum significado entre elas para se expressar e construir suas identidades na sociedade. Isso pode ser visto atualmente com Rupaul, famosa drag queen americana, que por meio da língua construiu grande personalidade, dela e dos fãs, com expressões como “Sashay away e Shantay you stay” que não tem tradução literal, mas pode ser compreendida respectivamente como “você foi eliminada” e você fica”. Esses códigos têm como objetivo expressar suas vivências e identidade.
A linguística queer estuda além da comunicação de um para o outro. Ela torna inteligível a forma com que são construídas e compostas as identidades homossexuais no meio heteronormativo. Trazer a perspectiva queer para os estudos da linguagem ajuda a criar uma visão de como aqueles que quebram os padrões de gênero utilizam da linguagem para existir e construir-se no meio heteronormativo. A linguagem vem como um ato identitário, somos porque falamos, e assim, a linguagem queer vem como uma luz para essa comunidade marginalizada que quebra padrões binários de gênero e se constrói em cima disso.
Referências
BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral II. In:___. Estrutura da língua e estrutura da fala. 2. Ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2006, p. 93-104.
BORBA, Rodrigo. Linguística Queer: Uma perspectiva pós-identitária para os estudos da linguagem. Revista Entrelinhas, São Leopoldo, vol.9, 2015, n.1, p. 91-104.
BUTLER, Judith. Corpos que pensam: sobre os limites discursivos do sexo. In. G. Louro (org), O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Auntêntica, pp. 151-172.
REVISTA lado A. Curitiba: As gírias de Rupaul’s Drag Race que você precisa saber, [2016]. Disponível em: https://revistaladoa.com.br/2016/09/noticias/rupaul-ganha-seu-primeiro-emmy-por-seu-reality-show/. Acesso em: 03 de junho de 2019.
Ensaio escrito pelo acadêmico do curso de Letras da UPF, João César Grando Manera, para a disciplina de Introdução à Linguística, ministrada pela
profa. Dra. Marlete Sandra Diedrich.