A arte da ressignificação: um olhar para o livro “O Pequeno Príncipe”

A reflexão que se apresenta aqui é derivada de um trabalho realizado na aula de Introdução à Linguística e tem por objetivo compreender o fenômeno de ressignificar via língua. Partindo do livro “O Pequeno Príncipe”, busca-se entender o efeito que o sentido conotado trouxe para a obra, mas também como a sua tradução afetou a significação. Com base nos estudos teóricos de Ferdinand de Saussure (2012) sobre signo, com as leituras de Jakobson (2007) sobre tradução e, num viés mais contemporâneo, com base também nos estudos de José Luiz Fiorin (2002) sobre denotação e conotação, apresenta-se a discussão pautada nas relações entre significante e significado.

O signo linguístico é, para Saussure, pois, uma entidade psíquica de duas faces (2012, p.106), assim podendo ser comparada com uma moeda, na qual num dos lados temos o significado (o qual não é uma coisa, mas sim, uma representação mental dela, é o conceito) e, no outro, o significante (o elemento perceptível do signo e que constitui a imagem acústica). Imaginemos a palavra “

”. Esta não tem nenhuma relação motivada com “bebida resultante da fermentação alcoólica total ou parcial do mosto da uva”, mas é resultado de uma convenção entre os falantes da língua, sendo ela abstrata, imaterial e inteligível. Seu significante é a imagem acústica, o que resta do som. Já este conceito de “bebida resultante da fermentação…” é o significado. Para compreensão do que seja signo não pode ser considerado somente o significante, nem só o significado, mas deve-se levar em conta que se trata de uma relação indissociável entre os dois. E é justamente essa combinação que Sausurre nomeia de significação: o que une o significante com o significado, formando um signo.

Toda comunicação criada só será aceita se a ela puder ser atribuído um significado. Por exemplo, ao dizermos ou escrevermos a palavra livro imediatamente atribuímos o conceito de livro do qual temos conhecimento, quase sempre, o de “um conjunto de páginas – impressas ou não- unidas através de cola ou costura, podendo ser uma obra de caráter literário, científico, artístico, etc.” Da mesma forma, isso ocorre quando vemos ou apanhamos um livro: estes conceitos nos vêm à mente, pois a coisa em si não traz o seu significado, se faz necessário serem usados recursos linguísticos para um total entendimento. Assim como, na língua inglesa, esses significados são associados com a palavra book, na língua francesa livre e na língua espanhola libro. Este fenômeno é, segundo Jakobson (2007, p. 65), a tradução interlingual a qual fundamenta-se na “interpretação de signos verbais por meio de alguma outra língua”.

O livro “O Pequeno Príncipe”, assim como diversas obras literárias, passou por inúmeras traduções – não é à toa que é o 2º livro mais traduzido do mundo, segundo a Revista Estante (2017) – e cada uma trouxe suas particularidades. Apesar disso, os conceitos que o autor atribuiu a algumas palavras se mantiveram, ou seja, o significado se manteve, mas o significante alterou. Na versão original, Antoine de Saint – Exupéry utilizou a palavra grande personne para descrever o que na versão da editora Freeditorial foi utilizado grownup e na tradução de Frei Betto: adulto. Neste sentido, foi possível, através das particularidades de cada língua, transpor o significado a todas as versões feitas, porém através de significantes distintos.

Contudo, o conceito que foi atribuído a esses termos se deu através do sentido conotado, o qual se dá através do acréscimo de um novo sentido a um signo que está em sua forma denotada. Normalmente, a ideia que nos vem à cabeça quando lemos a palavra “adulto” é o sentido denotado – o que se faz convencional na língua em questão – dela, que é uma pessoa sábia, experiente, séria, que “atingiu o máximo de seu crescimento e plenitude das suas funções biológicas” e que, ainda,  tenha maior conhecimento do que uma criança, afinal esta fase ocorre entre adolescência e a velhice, entretanto as personagens nos fazem refletir sobre o que um adulto de fato é. Para elas, é necessário sempre estar explicando detalhadamente as coisas para eles e isto se torna cansativo para as crianças, mas também eles são estranhos, meio malucos e imprevisíveis. Com isso, podemos notar que alguns dos conceitos convencionais de “adulto” se mantiveram, porém outros foram acrescentados completando seu sentido e dando outro rumo para a mensagem que a obra quis transmitir.

Em uma das máximas saussurianas mais famosas, o teórico nos diz que “é o ponto de vista que cria o objeto” (2012, p. 39) e nesta visão podemos compreender um pouco do porquê o autor de “O Pequeno Príncipe” ter usado o sentido conotado do signo “grande personne/growup/adulto”, pois a literatura nos faz refletir sobre coisas que, por muitas vezes, passam despercebidas no cotidiano. Entretanto, apesar das variadas traduções da obra, o significado proposto se manteve o mesmo, mas os significantes variaram. Há muito o que se estudar a respeito da ressignificação dos signos linguísticos para termos melhor entendimento deste fenômeno, porém com o que os teóricos citados, e outros, já podemos ter uma boa compreensão do assunto.

Referências bibliográficas

FIORIN, José Luiz (Org.). Introdução à Linguística. São Paulo: Contexto, 2002.

JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. Tradução de: Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 19. ed. Editora Pensamento-Cultrix Ltda: São Paulo, 2003.

MATOS, Tiago. Os Livros Mais Traduzidos De Sempre. 2017. Disponível em: <http://www.revistaestante.fnac.pt/os-livros-mais-traduzidos-de-sempre/&gt;. Acesso em: 26 maio 2019.

SAINT-EXUPÉRY, Antonie de. O pequeno príncipe. Tradução de: Frei Betto. São Paulo: Geração Editorial, 2015.

___________. Le Petit Prince. Paris: Éditions Gallimard, 1943.

___________. The Little Prince. Tradução de: Irene Testot-Ferry. Hertfordshire: Wordsworth Editions, 1995.

SAUSSURE, Ferdinand de. Organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye com colaboração de Albert Riedlinger. Curso de Linguística Geral. Tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes, Izidoro Blikstein. 28. ed. São Paulo: Cultrix, 2012.


Ensaio produzido na disciplina de Introdução à Linguística pelo acadêmico do curso de Letras Lucas Danielli Marinho

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