Como o curso de Letras tem reagido à pandemia?

“Partindo do conceito de experiência de Jorge Larossa, como aquilo que me passa, que me toca, posso afirmar que esta experiência de docência que estamos vivendo em tempos de isolamento social não é apenas mais uma situação, entre tantas que um professor vive ao longo de sua carreira, no meu, caso, ao longo de 30 anos em sala de aula. Tem sido bem mais do que isso, tem sido um momento singular, com características muito particulares, as quais envolvem, principalmente, nossos sentimentos.” Professora Dra. Marlete Diedrich, do curso de Letras

Desde o dia 16 de março a FUPF (Fundação Universidade de Passo Fundo) cancelou atividades que envolvem aglomerações em toda sua estrutura multicampi. Era o primeiro passo em uma batalha intensa e custosa na luta contra a propagação da COVID-19. Depois desse, muitos outros foram dados, e muitos ainda estão por vir.

No meio da confusão, alunos e professores, do dia para a noite, se viram com um desafio individual na frente de batalha: como tornar as aulas tão proveitosas a partir de ferramentas tão pouco exploradas?

De repente todos experienciavam uma espécie de período de estágio da faculdade, onde técnicas e métodos deveriam ser adaptados, repensados e explorados, e as formas da docência mais uma vez foram postas em discussão.

A resposta foi rápida, porém, e, aos poucos, alunos e professores entram no clima dessa nova roupagem que a docência temporariamente tomou: o ensino à distância. “A interação com os professores está muita boa, sendo que esses estão até compartilhando seu contatos particulares”, conta a aluna Fabiane Pitt, do VII nível. Para ela, a experiência “está sendo agradável, na medida do possível.” Acontece que Fabiane, assim como muitos outros estudantes, não pode concluir sua experiência de estágio. “Com relação a isso, foi possível observação e a camaradagem de colegas e supervisores em busca de uma solução que nos permita a concluirmos a disciplina”, conta a aluna.

Aqruivo UPF - 2014
Arquivo UPF – 2014

O curso de Letras da UPF teve de achar alternativas para as atividades práticas, como os estágios, e, ainda sem uma resposta oficial, alunos não conseguem esconder a preocupação. Maico Battisti, também aluno do curso de Letras e professor de filosofia e sociologia há anos, conta que “embora eu dê aula, não dou aula de português”, reafirmando a falta que a experiência prática de estágio faria em uma possível não retomada das aulas. De maneira geral, a expectativa é de que as aulas voltem ao normal logo, mas todos sabem que esta não é uma decisão simples.

E o ensino a distância, pela primeira vez experimentado por muitos estudantes, não deixa de levantar questões quanto a efetividade de seu método. Muitos alunos alunos relatam a dificuldade de interação entre os colegas e com o professor, ainda que os docentes se mostrem prestativos e atenciosos. Maico, que já teve uma experiência com aulas à distância conta que “da mesma forma que aconteceu com minha outra experiência, acontece agora com a UPF. As aulas remotas são boas, acrescentam, mas de longe perdem em questão de sentido e produtividade em relação às aulas presenciais.”

Questões como motivação e aproveitamento também têm sido levantadas pelos calouros no curso. Gabriele Pedon, do primeiro nível e em sua primeira experiência numa universidade, relata que a concentração tem sido um problema no cotidiano das aulas. “Você fica ouvindo o professor falar, falar, falar… e você está em casa, mas mesmo estando em casa é mais cansativo que ir para a universidade.”

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Foto por Sharon McCutcheon em Pexels.com

Tais problemas podem ser explicados por motivos como as formas limitadas e incomuns que o diálogo virtual oferece. “O diálogo acontece”, conta Maico, “mas aquela proximidade necessária entre professor e aluno não acontece. Você não sente a energia do professor, você não consegue dialogar de igual para igual.”

Apesar de tudo, é possível encontrar um otimismo aconchegante entre os alunos e professores. “É muito importante nesse momento em que estamos vivendo, dentro de nossas casas, poder ver os colegas, poder ver os professores, conversar, trocar ideias… E eu acho que isso serve como um conforto”, conta Gabriela Golembieski, do V nível do curso de Letras, reconhecendo o privilégio de poder ter acesso ao ensino em um período de calamidade. Sem dúvidas o afastamento afetou as relações, mas o contato com a educação e a possibilidade de continuar estudando já é um ponto positivo que grande parte da população não consegue aproveitar. Ao refletir sobre o ensino, muitos concluem o que Maico sintetizou: “se não de maneira presencial, pelo menos EAD.”

E a Universidade tem feito esforços para facilitar a vida dos alunos. Como anunciado pelo portal de notícias da instituição, a upf disponibiliza, a partir do dia 6 de maio, notebooks emprestados aos alunos. Além disso, a biblioteca atenderá em horário de plantão, sem contar a disponibilidade, para alunos da UPF, o acesso a acervos virtuais. Nem tudo está perdido.

Muito pelo contrário. Há um desejo por aprender que não foi foi liquidado pelo isolamento, e os esforços dos docentes para adaptação à nova realidade tem sido reconhecido. “Um ponto positivo é a grande dedicação por parte dos professor em adequar seus planos de ensino para que pudéssemos continuar o andamento do semestre aprendendo e desenvolvendo os conteúdos que estavam programados”, conta Gabriela.

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Foto por Anna Shvets em Pexels.com

E apesar das dificuldades, o compromisso com o ensino fica evidente nas palavras de Marlete, professora Dra. da graduação e pós-graduação da UPF: “há uma ética na relação professor-aluno que, na minha opinião, não pode ser completamente vivenciada por meio de tecnologias de informação e comunicação, uma ética que exige um toque, uma proximidade que não se basta  com uma boa câmera e um bom áudio. Mas essa mesma ética exige que sigamos em frente, procurando trazer um pouco de normalidade às vidas envolvidas”, conta. “Eu acredito que não seremos mais os mesmos, que voltaremos melhores, mais humanos, ressignificando a vida e seus valores”, acrescenta a professora.

Muitas dúvidas surgem a respeito do próximo semestre, que, se chegar com aulas presenciais, trará consigo severas medidas de proteção. Muitas também são as possibilidades e suas implicações, ao ensino e à vida. “Perdeu a vida, acabou pra ti. Perdeu o semestre, a gente recupera depois…”, reflete Gabriele.

Por enquanto nos cabe o agora, enquanto alunos e professores, e a responsabilidade de fazer o que melhor que pudermos com o arsenal disponível. Derrotas serão inevitáveis, mas para isso Marlete tem uma resposta

“Somos humanos e também nos alegramos e nos entristecemos. Mas temos a certeza de que somos privilegiados, porque trabalhamos com duas realidades fantásticas: linguagem e gente. Não poderia haver trabalho melhor. E que bom que nossos alunos estão aí, prontos para seguirem em frente com a gente, alguns com dificuldades de acesso, internet limitada, mas acreditando que é possível seguir em frente.  É um verdadeiro privilégio trabalhar com pessoas que acreditam e fazem um grande esforço para estar em nossas aulas. E isso não nos deixa desanimar nem pensar em desistir. Eu agradeço a cada um, a cada uma de nossos/as alunos/as pela presença poderosa em cada aula, em cada atividade.”


Guilherme Alexandre da Silva e Edemilson Brambilla

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