É frequente e aceso o debate sobre as formas de ensino que demonstram maior eficácia e possibilitam a utilização dos conhecimentos adquiridos em atividades cotidianas e práticas pelos alunos. O uso desses saberes tem reflexo direto na vida das pessoas, sendo inclusive medido pelo INAF, indicador que verifica a destreza no uso da linguagem (leitura e interpretação) e da matemática pela população do país.
O Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF), é uma iniciativa da ONG Ação Educativa e do Instituto Paulo Montenegro, com apoio do IBOPE Inteligência, que visa a medir as habilidades da população referentes à leitura, escrita e matemática, aplicadas ao cotidiano. Essa pesquisa engloba sempre 2002 pessoas de 15 a 64 anos, das diversas regiões do país, sejam elas residentes da zona urbana ou rural, estudantes ou não, por meio de entrevistas domiciliares. A pesquisa respeita a distribuição populacional no país em termos de quantidade e localização populacional.
Esse indicador teve sua primeira edição em 2001 e, até 2005, era feito anualmente, de modo que alternava-se entre leitura e escrita e matemática. A partir de 2007, a pesquisa passa a ser feita utilizando-se a Teoria de Resposta ao Item (TRI), um modelo estatístico que possibilita a avaliação das respostas de cada pessoa de acordo com o nível de dificuldade das questões (definido previamente) e a quantidade de acertos dentro de cada nível. Ainda, nesse mesmo ano, a entrevista passa a integrar os conhecimentos de cunho linguístico e matemático no mesmo questionário, além de alterar-se a periodicidade da aplicação, que passou a ter períodos maiores (edições em 2007, 2009, 2011, 2015 e 2018).
Por meio dessa pesquisa, a população é separada de acordo com o grau de domínio das habilidades de leitura, escrita e matemática, sendo identificadas em dois grupos. O primeiro deles é o dos Analfabetos Funcionais, onde há duas subdivisões: a dos Analfabetos, que são as pessoas que não conseguem realizar tarefas simples envolvendo leitura ou números (ainda que saibam reconhecer preços ou números de telefone) e a dos Alfabetizados em grau Rudimentar, que são os que conseguem encontrar informações explícitas em textos curtos (recados ou anúncios) e realizar pequenas operações matemáticas (contar dinheiro e fazer medições usando fitas métricas). Segundos os dados de 2018 do INAF, 29% dos entrevistados estão nesse segmento, o que significa que 1 a cada 3 indivíduos brasileiros são considerados Analfabetos Funcionais.
No segundo grupo, o dos Alfabetizados Funcionalmente, encontram-se três divisões – mesmo que até a edição de 2011 houvessem apenas duas: Básico e Pleno – que são os Alfabetizados em grau Elementar, que leem textos médios, interpretam tabelas a gráficos simples e realizam operações matemáticas mais complexas; os Alfabetizados em grau Intermediário, que conseguem realizar cálculos de porcentagem e proporção, além de realizar a síntese de textos diversos e a interpretação de figuras de linguagem; por fim, o
Alfabetizados em grau Proficiente, que compreendem e interpretam textos longos e complexos, interpretando gráficos e tabelas com variáveis e projeções. Esse conjunto soma 71% dos entrevistados.
Um dado interessante apontado pela pesquisa de 2018 é referente à porcentagem de analfabetos funcionais e funcionalmente alfabetizados dentro de cada faixa etária. Entre os jovens de 15 a 24 anos, o número de analfabetos funcionais chega a 12% dos entrevistados; enquanto entre a parcela com idade mais avançada (entre 50 e 64 anos) a soma chega a 53%, valor mais de quatro vezes maior que na população mais jovem. Todavia, quando se fala dos funcionalmente alfabetizados, o cenário se inverte, visto que a porcentagem de jovens de 15 a 24 anos que se enquadram nessa classificação chega a 88%; já o valor entre as pessoas de 50 a 64 anos é de apenas 47%. Esses dados são reflexos das novas políticas que obrigam a frequência de crianças e adolescentes na escola, fato que não ocorria há quarenta anos, mostrando que, apesar dos avanços que se fazem necessários, a escola ainda é o local onde os indivíduos conseguem um domínio significativo de habilidades de cunho linguístico e matemático que lhes proporcionem uma vida cotidiana mais plena e a inserção em diversos domínios sociais.
Nesse sentido, percebe-se que o propósito da pesquisa vai ao encontro do conceito amplamente difundido de Letramento dentro das áreas das Letras e da Educação, pois a análise dos dados sempre visa a interpretar como as pessoas conseguem fazer uso, na prática, de habilidades de leitura e escrita, por exemplo. Assim, é perceptível e necessário o estudo e a difusão de práticas de letramento, de modo a permitir o uso pleno da leitura e da escrita no dia a dia.
Francismar Furlanetto é formado em Letras – Português / Espanhol e acadêmico do curso de Letras– Português/Inglês.
Texto desenvolvido na disciplina de Multiletramentos e Práticas Sociais

REFERÊNCIAS
AÇÃO EDUCATIVA; INSTITUTO PAULO MONTENEGRO. INAF Brasil 2018: resultados preliminares. São Paulo: Ação Educativa; IPM, 2018. Disponível em: https://ipm.org.br/inaf Acesso em 18 mar. 2020.
CAMPOS JR., LÁZARO. 3 em cada 10 brasileiros não conseguem entender este texto. Todos pela educação, 12 nov. 2018. Disponível em: https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/inaf-3-em-cada-10-brasileirosnao-conseguiriam-entender-este-texto Acesso em: 18 mar. 2020.