Ensaio elaborado para a disciplina de Sociolinguística pelas alunas Paola Biavatti e Chaiane Peruzzo
O presente ensaio tem como objetivo refletir sobre o conceito de Sociolinguística e o que ele envolve, bem como sobre a importância de se considerar os estudos desse campo nas práticas de sala de aula, em especial no ensino e aprendizagem de língua materna. Para tanto, inicialmente retomamos alguns preceitos teóricos e, num segundo momento, analisamos uma tirinha envolvendo variação linguística e ensino de língua.
A Sociolinguística é uma área dentro da Linguística que estuda as relações entre linguagem e sociedade. Este termo surgiu em um congresso promovido por William Bright, em Los Angeles, no ano de 1964, e tem como objeto, “o estudo da língua falada, observada, descrita e analisada em seu contexto social, isto é, em situações reais de uso” (ALKMIM, 2006, p. 31). Esse estudo, portanto, se volta aos modos de falar de uma certa comunidade linguística, entendida esta como um grupo de pessoas que compartilham de uma mesma regra de uso da língua. É preciso considerar, porém, que mesmo dentro de uma comunidade que utiliza a mesma língua, existem diferentes formas de falar desencadeadas por diferentes fatores, como grau de escolaridade, faixa etária, etc. A essas diferenças entre os falares denominamos variações linguísticas.
Existem três tipos de variação linguística: diastrática, estilística e diatópica. A primeira, também conhecida como variação social, “está relacionada a fatores concernentes à organização socioeconômica e cultural da comunidade” (GÖRSKI, COELHO, 2009, p. 77). Ela envolve fatores como classe social, idade, sexo, profissão e grau de escolaridade. A segunda, “também chamada de variação contextual ou de registro, […] se manifesta nas diferentes situações comunicativas no nosso dia-a-dia” (GÖRSKI, COELHO, 2009, p. 78). Ou seja, de acordo com a situação de comunicação e a finalidade desta, o falante modifica sua fala. Isso pode se dar em função do lugar onde o falante se encontra, por exemplo, casa, escola ou trabalho; do papel que ele exerce no momento da fala, por exemplo, empregador-empregado, mãe-filha; e do tópico a ser abordado, por exemplo, religião, futebol, anedotas. Por fim, o terceiro tipo de variação, “também chamada de variação regional ou […] variação geográfica, tem a ver com as diferenças linguísticas observáveis entre falantes oriundos de regiões distintas de um mesmo país ou oriundos de diferentes países” (GÖRSKI, COELHO, 2009, p. 76). Como forma de exemplificar essa última, observemos a tirinha abaixo:

A variação relacionada a fatores regionais pode ser percebida por meio da maneira como as falas das crianças estão transcritas nos balões, onde podemos vislumbrar elementos típicos dos falares da região nordeste e sul, como as expressões “oxente”, “bah”, “guri” – variações de ordem lexical – bem como a semivocalização da vogal /e/ em final de palavras, como “finalment[i]” , “d[i]” e “mont[i]”, e do /o/ em “p[u]dê”, “c[u]ntá” – marcando a variação no nível fonético, além do apagamento do morfema {r} em “contá”, por exemplo.
Podemos observar, por meio da expressão dos dois estudantes, que a proposta de estudar as diferentes regiões lhes agrada, uma vez que, pressupõem, seria o momento de compartilhar aspectos atrelados ao local onde vivem/viveram e que constituem suas identidades. Contudo, há uma total quebra de tal expectativa por parte da professora. Esta, ao invés de incentivar a participação dos alunos e aproveitar suas contribuições como forma de contextualizar o ensino, partindo, inclusive, das diferenças entre os falares de região para região, desconsidera por completo a subjetividade dos alunos e tolhe qualquer iniciativa de manifestação verbal destes ao dizer que suas contribuições são “bobagens” e ao pedir que falem o “português corretamente”.
Essa reação da professora mostra claramente que ela não valoriza e não pensa as variedades regionais ou dialetos como sendo partes integrantes da língua portuguesa, constituída como um fenômeno heterogêneo. Para ela, saber o português seria falar a norma padrão, que visa a neutralização ou exclusão de marcas regionais de fala. Infelizmente, essa reação não fica só no plano das tirinhas. Nas salas de aula da vida real, não é raro encontrar professores que defendem “o bom e velho português” como aquele descrito nas gramáticas e o consideram único e incorruptível.
Nesse contexto, é papel dos futuros professores repensar as práticas pedagógicas nas aulas de língua materna, primeiramente conhecendo a realidade dos alunos e as possíveis variações linguísticas nela existentes, para, a partir disso, explorar fatores relacionados aos diferentes falares que constituem a Língua Portuguesa. Para que isso aconteça, a Sociolinguística tem papel importante, pois põe em evidência a relação entre sociedade e linguagem, enfatizando o respeito pelas diferentes formas de falar, algo que deve ser eternamente compartilhado com os alunos e colocado em prática.
Referências
ALKMIM, Tânia. Sociolinguística. In.: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Orgs.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. 6 ed. São Paulo: Cortez, 2006. p. 21-48.
GÖRSKI, Edair Maria; COELHO, Izete Lehmkuhl. Variação linguística e ensino de gramática. Working Papers em Linguística, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 73-91, fev. 2010.. Disponível em: http://www.uel.br/pos/ppgel/pages/arquivos/10749-39705-1-PB.pdf. Acesso em: 28 set. 2019.