O gênero literário dramático teve suas origens na Grécia Antiga, possivelmente numa manifestação das festas em homenagem a Dionísio, o deus dos vinhos e das festas. O termo “dramático” quer dizer drama, ou seja, ação. Esse gênero representa ações tomadas pelos personagens num determinado espaço-tempo. Um enredo teatral não possui narrador e a história é dita e compreendida através de ações, falas e gestos dos personagens. Ou seja, tudo é limitado ao palco.
Em cena, esses recursos básicos são complementados com outros como, por exemplo, iluminação, sonorização e notações cênicas, que também são chamadas de rubricas, e que servem para orientar os atores. São detalhes anotados pelo autor para conseguir os efeitos desejados durante a interpretação e apresentação no palco pelos atores.
O teatro elisabetano surgiu no século XVI, na Inglaterra, durante o reinado da rainha Elizabeth, quando um determinado grupo de jovens autores começou a escrever peças. Em 1591, William Shakespeare se mudou para Londres onde, observando o que já havia sido feito no teatro, fortaleceu sua criação. Na capital inglesa, tornou-se ator, escreveu peças e obteve o lugar de diretor do Teatro Globe, o de maior relevância na sociedade da época. Seu grupo teatral era considerado como a principal atração artística da cidade e se apresentava para todo tipo de plateia, conseguindo entreter ao mesmo tempo os nobres e o povo.
Shakespeare nasceu em abril de 1564 e morreu aos 52 anos de idade. Durante sua vida, escreveu 38 peças, como Hamlet, Romeu e Julieta, Otelo, Macbeth, Sonho de Uma Noite de Verão, Ricardo III, Rei Lear, A Megera Domada, A Tempestade, 154 sonetos e uma variedade de outros poemas. O autor se tornou o dramaturgo mais conhecido de todos os tempos, tendo influenciado toda a produção teatral que viria depois dele.
A comédia Sonho de uma Noite de Verão é uma das peças mais populares de Shakespeare. Os principais temas abordados nela são o real e o fantástico, o desejo e a razão, a sensatez e a loucura, em um universo o qual o dramaturgo molda para criar um mundo de sonho, infantil e lúdico, que dá vida ao contraste entre imaginação e realidade.
Trata-se de uma das comédias clássicas mais lidas e encenadas em todo o mundo, podendo ser considerada como uma das obras mais famosas do dramaturgo inglês.
A peça é dividida em 5 atos, os quais se passam na cidade de Atenas e em suas florestas, na Antiga Grécia. Como trata-se de uma comédia de cunho romântico, gira em torno de vários casais (ou quase casais, como será visto a seguir). O primeiro deles é Teseu e Hipólita. Teseu é Duque de Atenas e sua futura esposa, Hipólita, é a Rainha das Amazonas, que fora sequestrada segundo os mitos gregos. Hérmia e Lisandro formam o segundo casal; são jovens profundamente apaixonados. Entretanto, Egeu, pai de Hérmia e amigo de Teseu, prometera a mão da moça para Demétrio, o qual possui ternos sentimentos de paixão por ela, e lhe impõe que se case com ele e não com Lisandro seguindo as tradições gregas de que a bênção do casamento só é confirmada pelo pai da noiva. Completando o círculo amoroso, há Helena, moça da qual Hérmia é amiga desde tenra idade e a qual é apaixonada por Demétrio, mesmo não tendo seu amor correspondido pelo moço.
Fugindo da lei grega, Hérmia e Lisandro vão para a floresta, local onde existem criaturas mágicas e onde boa parte dos atos acontecem. Shakespeare mistura, na peça, a cultura grega com personagens celtas, fato que propicia todas as reviravoltas presentes na história. Helena, porém, acaba sabendo da fuga dos amantes e conta tudo para Demétrio, com o intuito de ganhar a atenção de seu amado. Nesse meio tempo, na floresta, são apresentados os demais personagens, Oberon e Titânia, além de uma trupe de teatro. Os primeiros, os quais são Rei e Rainha das fadas, discutem pela posse de um menino vindo da índia, um pajem, o qual Titânia consegue manter para si. Quando os casais atenienses chegam à floresta, Hérmia e Lisandro fugindo por seu amor e Demétrio e Helena atrás dos dois, Oberon pede para que Puck, um duende que lhe serve, faça com que Demétrio apaixone-se pela sua jovem tiete. Todavia, o Rei das fadas fala somente que as vestimentas do jovem são de um ateniense nobre comum, e Puck acaba cometendo um erro que trará todas as reviravoltas da história: faz com que Lisandro se apaixone por Helena e, posteriormente, ao ver o seu descuido, Demétrio também morra de amores por ela.
Além dessa inversão de paixões, Shakespeare traz à peça, dentro dela mesma, um grupo de atores amadores que tentam encenar a tragédia de Píramo e Tisbe, de Ovídio, a qual será encenada no fim da história durante o casamento do Duque e da Rainha das Amazonas. A introdução de uma peça dentro de outra é um dos fatores dos quais realça a singularidade da criação do autor. Esses atores não possuem habilidade alguma e, por isso, Puck decide fazer outra travessura: transforma a cabeça de um deles, Bottom, na de um burro. Feito isso, Titânia, que acaba por ser vítima do encantamento da mesma flor pelas mãos de Oberon, apaixona-se pelo homem e lhe faz juras de amor e declarações extremamente exageradas. O humor da peça, aliás, detém-se principalmente nas falas relacionadas ao amor. Os personagens, por estarem fora de si, constroem um conceito de paixão tão exacerbado que o público, ao ouvi-lo, cai no riso. Um dos pontos que também se destacam na obra é a forma como os personagens falam; há rimas, palavras pomposas e ritmo por toda a peça, sendo uma das características originais de Shakespeare.
Sonho de uma Noite de Verão introduz o metateatro e a construção de uma mistura cultural a qual é usada até hoje nas peças e literaturas contemporâneas. A transformação das personagens em virtude do amor traz a dúvida sobre a qual a peça gira em torno: quão real é o amor? A floresta, cenário onde os personagens sofrem todas as ações, traz a sensação de magia, de sonho realmente, e a presença da lei e da ordem, representada por Egeu e, por conseguinte, Teseu, mantém a trama sob uma tensão moderada e que faz o leitor/espectador manter seu foco em todas cenas e ações das personagens. Shakespeare deixa uma metáfora a ser interpretada: a imaginação, assim como as loucuras da floresta mágica, é necessária para a criação de um ideal de paixão, senão a vida se resume na ordem e nas regras, deixando todos os seus acontecimentos sem graça e sabotados pela própria falta de habilidade que os seres humanos têm em perpetuar o amor, assim como a caravana de teatro sem talento no fim do espetáculo ao tentar atuar sem saber fazê-lo com criatividade.
Resenha escrita por Denny Gabriel de Freitas Cezar e Helen Giovana Ramos Dias ²**
1* Resenha crítica da obra: SHAKESPEARE, William: Sonho de uma noite de verão. 1 ed. Florianópolis: editora da UFCS, 2016. 200p.,solicitada para a disciplina de Literatura em Língua Inglesa, ministrada pelo professor Me. Ricardo da Rosa Kirinus.
²** Graduandos do 7° nível do curso de Letras da Universidade de Passo Fundo.