As variações do português brasileiro observadas em “Coisas que a serra fala”

Texto de Eduardo Zapparoli, acadêmico do curso de Letras da Universidade de Passo Fundo

1 Introdução

No Rio Grande do Sul, especialmente na área rural, podemos identificar uma enorme gama de pessoas descendentes de imigrantes italianos, que se estabeleceram no Brasil a partir de 1875, ocupando primeiramente cidades como Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Garibaldi.  Segundo dados do Museu Etnográfico da Colônia Maciel, da Universidade Federal de Pelotas, instalaram-se no Rio Grande do Sul 84 mil italianos vindos sobretudo da Lombardia, Vêneto e Tirol. Essa imigração se intensificou nos anos seguintes com a decorrência das guerras, quando as populações vieram ao Brasil para fugir da crise e da destruição. 

A partir desse fenômeno de imigração, diversas famílias foram formadas nas regiões rurais do estado do Rio Grande do Sul, onde os falantes estiveram em contato com a língua materna dos seus descendentes, no caso a Língua Italiana, e também começaram a entrar em contato com a Língua Portuguesa. Com isso, se estabeleceu uma grande diversidade linguística e uma pluralidade cultural nessas comunidades. 

Essa diversidade linguística pode ser observada ainda hoje na população rural, predominantemente idosa, nas cidades interioranas do Estado do Rio Grande do Sul. Muitas vezes um sotaque carregado e a pronúncia de palavras que fogem da “norma culta” são taxados como algo engraçado, motivo de piada e discriminação pela população dos grandes centros urbanos. Nesse sentido nos perguntamos: a variação linguística observada nessa população pode ser taxada como uma variação inferior da Língua Portuguesa? 

Discutiremos essa e outras questões no próximo tópico usando as teorias apresentadas por Stella Maris Bortoni-Ricardo em sua obra Educação em língua materna.

2 Variações linguísticas em “Coisas que a serra fala”

Para melhor ilustrar e ampliar a nossa discussão, tomemos como objeto de estudo o vídeo intitulado Coisas que a serra fala, publicado na plataforma online Youtube, no ano de 2012, pelo canal homônimo. Na descrição do vídeo, fornecida pelo próprio canal, observamos o intuito do vídeo: “Vídeo produzido com o objetivo de exaltar humoristicamente a cultura italiana da Serra Gaúcha”. O vídeo já tem mais de um milhão de visualizações até a presente data. 

O vídeo consiste em um casal de idosos, Expedito Copelli e Natália Copelli, descendentes da cultura italiana e residentes da Serra Gaúcha, encenando as falas mais comuns nas comunidades rurais dessa região. 

As principais variações linguísticas observadas no vídeo são: “tchuco”, representando “bêbado”, “pom” representando “pão”, “dereita” representando “direita”, “morinho” representando “morrinho”, “ligerro” representando “ligeiro”, “neno” como representação do equivalente a “menino”, “véio” e “vetcho” representando “velho”, além de diversas expressões da cultura italiana como “porco cane”, “sacramenha”, entre outras.

Para entendermos a variação no português brasileiro, a Sociolinguística utiliza três linhas, também chamadas de contínuos, que são: o contínuo de urbanização, o contínuo de oralidade-letramento e o contínuo de monitoração estilística. 

Bortoni-Ricardo (2008, p. 52) explica como é desenvolvido o conceito do contínuo de urbanização:

Em uma das pontas dessa linha, nós imaginamos que estão situados os falares rurais mais isolados; na outra ponta, estão os falares urbanos que, ao longo do processo sócio-histórico, foram sofrendo a influência da codificação linguística, tais como a definição do padrão correto de escrita, também chamado de ortografia do padrão correto de pronúncia, também chamado ortoépia, da composição de dicionários e gramáticas.

No meio dessa linha imaginária, também podemos localizar os falantes da “área rurbana”, formados 

[…] pelos migrantes de origem rural que preservam muito de seus antecedentes culturais, principalmente no seu repertório linguístico, e as comunidades interioranas residentes em distritos ou núcleos semi-rurais, que estão submetidas à influência urbana, seja pela mídia, seja pela absorção de tecnologia agropecuária. (ibidem)

Podemos então observar que os falantes do vídeo estão localizados nessa área rurbana, visto que eles preservam o repertório linguístico de seus antecedentes, mas também tem contato com elementos ligados à área urbana. Podemos identificar que esses falantes estão mais próximos do pólo rural contínuo do que nós, falantes residentes do polo urbano padronizado. 

No que se refere ao contínuo de oralidade-letramento, segundo Bortoni-Ricardo (2008, p. 62) “as fronteiras são fluidas e há muitas sobreposições”. O contínuo de oralidade-letramento prevê em um extremo da linha os eventos de oralidade, e em outro extremo os eventos de letramento. Os eventos de oralidade são aqueles que não são mediados pela língua escrita, ou, em outras palavras, não têm um script. Os eventos de letramento, por outro lado, são aqueles que têm influência do texto escrito. 

Nesse sentido, num primeiro momento podemos identificar que falantes do vídeo tendem a estar no eixo de oralidade, visto que estão a evidenciar as falas do dia-a-dia na serra gaúcha. Mas devemos considerar também que provavelmente os falantes estão seguindo um planejamento, para que o vídeo tenha uma sequência. A descrição do vídeo nos informa que o objetivo é exaltar humoristicamente a cultura italiana da Serra Gaúcha, por isso consideramos que, por mais que eles tenham um script para a organização do vídeo, os eventos de fala estão baseados quase que completamente nos eventos de oralidade. Acrescento que essa classificação pode ser polêmica, carecendo assim de um estudo mais aprofundado para observar todos os aspectos possíveis para determinar o seu lugar no contínuo de oralidade-letramento.

Por fim, o último contínuo das três linhas, chamado de contínuo de monitoração estilística, que diz respeito ao grau de monitoramento do falante. Nessa linha, em um extremo temos (-) monitoração e no outro extremo (+) monitoração. Bortoni-Ricardo (2008, p. 62) explica que:

[…] os falantes alternam estilos monitorados, que exigem muita atenção e planejamento, e estilos não-monitorados, realizados com um mínimo de atenção à forma da língua. Nós nos engajamos em estilos monitorados quando a situação assim exige, seja porque nosso interlocutor é poderoso ou tem ascendência sobre nós, seja porque precisamos causar uma boa impressão ou ainda porque o assunto requer um tratamento muito cerimonioso. 

Ainda, de modo geral, os fatores que levam à monitoração do estilo são: o ambiente, o interlocutor e o tópico da conversa. No vídeo, podemos identificar que as falas relatadas acontecem nos ambientes familiares e nas comunidades desses falantes, portanto são ambientes de (-) monitoração. Porém, se pensarmos que estamos diante de falas gravadas especialmente para um canal de mídia na internet, talvez haja certo nível de monitoração, no sentido de monitorar a fala para que o vídeo seja linear.

Todos esses aspectos aqui tratados nos ajudam a pensar nos falantes com mais empatia, visto que propõe um estudo do falante e do ambiente que ele está inserido, bem como a sua cultura e situação enunciativa. Grande parte das variações antes mencionadas estão relacionadas ao contínuo de urbanização, bem como o fenômeno imigratório do Estado do Rio Grande do Sul. 

3 Considerações finais

As crenças populares a respeito da superioridade de uma variedade linguística não são nada além de mitos incrustados na nossa cultura. Bortoni-Ricardo (2008) afirma que toda variedade regional é um instrumento identitário, conferindo identidade a um grupo social específico. O preconceito linguístico vem, majoritariamente, de falantes de grandes metrópoles – que são detentores de maior poder – e são vistos por grande parte da sociedade como falantes de maior prestígio, pois se aproximam da “norma culta”. Esse prestígio nada mais é do que o resultado dos fatores políticos e econômicos. Bortoni-Ricardo (2008, p. 34) ainda completa: “o dialeto (ou variedade regional) falado em uma região pobre pode vir a ser considerado um dialeto “ruim”, enquanto o dialeto falado em uma região rica e poderosa passa a ser visto como um “bom” dialeto”. 

O preconceito linguístico advindo dos fatores acima citados é perverso, não possui fundamento científico e precisa ser seriamente combatido na escola e na sociedade. É de extrema importância que a pluralidade cultural, como aquela observada no vídeo, seja respeitada na sua totalidade, afinal ela faz parte da língua. Devemos sempre nos lembrar de que a língua é viva e está em constante processo de mudança. Não sabemos ao certo por quantas gerações perdurará a variação que observamos na fala de Expedito e Natália, mas, através dela, podemos ter uma noção do quão rica é a nossa língua e da importância da carga histórica que ela traz consigo. 

REFERÊNCIAS

COISAS que a serra fala. FERRONATO, Binho et al. Youtube. 1º jul. 2012. 2min03s. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7_e6Ou9v8Ao&gt;. Acesso em 02 abr. 2020. 

IMIGRAÇÃO Italiana no Rio Grande do Sul. Museu Etnográfico da Colônia Maciel, 2020. Disponível em: <https://wp.ufpel.edu.br/museumaciel/imigracao-italiana-no-rio-grande-do-sul/&gt;. Acesso em 02 abr. 2020.
RICARDO, S. M. B. Educação em língua materna. 5. ed. São Paulo: Parábola, 2008.

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