Bases para uma Pedagogia da variação linguística

Segundo Carlos Alberto Faraco, linguista brasileiro, durante a sua videoconferência no site da Abralin que ocorreu no dia 08/05/2020, a pedagogia da língua portuguesa seria subdividida em outras pedagogias que tratariam de específicos aspectos que compõem o Português, ou seja, pedagogias acerca da oralidade, da leitura, da produção textual e da gramática. Sendo assim, seria necessário haver o desenvolvimento de uma “pedagogia da variação linguística” para que fosse trabalhada em sala de aula com o intuito de mudar a perspectiva das pessoas acerca dos inúmeros componentes variáveis de uma língua e assim, diminuir o preconceito linguístico presente no nosso contexto social.

Em primeiro lugar, Faraco faz um retrato sobre a língua como algo heterogêneo, isto é, múltipla e suscetível a sofrer variações internas. Partindo desse pressuposto, é necessário compreender de onde advêm tais variações, assim é possível notar que são dependentes dos componentes da sociedade da qual um indivíduo pertence, como gênero, classe social e consequentemente o acesso à educação – pública ou privada – entre outros fatores. A partir disso, enfatiza-se que a língua de uma determinada sociedade seria o reflexo dela, por isso faz-se de suma importância compreender os componentes de um sistema linguístico, uma vez que para ele “entender a língua que falamos é consequentemente entender a sociedade em que estamos.” (FARACO, 2020).

Dessa forma, visto que ainda vivemos em uma sociedade onde o preconceito linguístico se faz presente, o desenvolvimento de uma pedagogia que trabalhasse especificamente com a variação linguística seria uma das formas de desmistificar tal discriminação acerca das variantes que compõem o universo de uma língua. Com isso, Faraco buscou listar as três bases principais para a criação de uma pedagogia da variação linguística a ser trabalhada dentro dos âmbitos escolares, estas seriam: “conhecer e entender, entender e respeitar, e entender e transitar com segurança” no meio da variação. De modo que a resolução desses objetivos se daria em expor os alunos a essas variantes por meio de projetos de ensino acerca do tripé língua-história-sociedade, mostrando o passado histórico de um determinado país assim como os processos de imigração que o compuseram e hoje formam determinada sociedade.

Seguindo essa perspectiva, reitera-se que integrar ao método de ensino do Português nas escolas um trabalho com enfoque nas variações linguísticas desde cedo poderia ser um dos possíveis caminhos de fazer as pessoas conhecerem, entenderem e respeitarem o modo que cada um se expressa e normalizar as peculiaridades falantes, uma vez que, de acordo com os princípios saussurianos acerca das faces da linguística da fala, cada indivíduo tem sua própria maneira de se comunicar, mesmo que utilize da mesma língua que os demais falantes e que consequentemente esta seja considerada uma convenção. Ademais, quando um determinado sujeito coloca sua língua em uso ao estabelecer um diálogo com outrem, isto é, ao proferir um discurso, o mesmo permite ao outro conhecer sua origem, o que não é  motivo para discriminar as individualidades expostas durante essa comunicação.

 Entretanto, um dos grandes obstáculos para a realização de uma pedagogia da variação linguística seriam os estereótipos enraizados no meio social acerca da língua, que a ditam como homogênea ao restringi-la à norma culta e perpetuam o preconceito com as demais variantes. Contudo, o projeto da pedagogia da variação não iria somente focar nas múltiplas variações e excluir ou desqualificar o estudo do domínio da norma culta, pelo contrário, a importância que o aluno conheça-a e saiba a utilizar em momentos de fala e escrita monitoradas – como em ambientes de trabalho ou dentro do âmbito escolar/universitário quando lhe for solicitado escrever determinados textos utilizando da linguagem padrão – faz parte desse projeto, porém a dificuldade em saber qual norma de referência deveria ser ensinada aos alunos é outro empecilho na condução dessa pedagogia. 

Sendo assim, embora haja a necessidade de uma pedagogia que trate das variantes de uma língua, uma vez que a utilizamos como instrumento de comunicação, a perspectiva estereotipada da sociedade acerca disso ainda dificulta o desenvolvimento prático deste projeto. Com isso, continuar buscando medidas para fazer com que o meio social compreenda que a língua representa o enlace entre memória e identidade de determinado povo é algo que ainda deve seguir sendo feito e desenvolvido com o passar das gerações, para que assim, segundo o linguista Faraco, esse “sonho” de flexibilização e adequação ao ensino de uma língua possa continuar existindo e talvez ser realizado.

Resenha escrita por Rhaíssa Hannecker Barbosa, acadêmica do curso de Letras da UPF, tendo como base a conferência transmitida pela Abralin ao vivo “Bases para uma Pedagogia da variação linguística” do linguista Carlos Alberto Faraco.

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