
Estava no ônibus Juca Batista em Porto Alegre saindo da Av. Salgado Filho bem no centro da cidade (fim da linha). Isso aconteceu provavelmente em 2013 quando eu tinha 19 anos de idade, cursava o terceiro ano do ensino médio no turno da noite e trabalhava durante o dia em uma empresa do outro lado da cidade, o que me dava tempo de ir na academia no tempo entre o trabalho e a escola.
Desta forma eu pegava o ônibus na direção da minha casa mais ou menos às quinze horas, que é um momento bom por não ter trânsito e mais ainda pelo fato de o ônibus estar vazio. Em contrapartida, a desvantagem é que neste horário aconteciam muitos assaltos, mesmo eu, que costumava afirmar que não tinha sentido correr este risco, e que em POA acontecem assaltos em qualquer horário do dia.
Logo ao entrar no bus percebi que ele estava praticamente vazio. Fui procurar um assento para me sentar e decidir se continuaria lendo meu livro (o que eu fazia antes dentro do trem), se escreveria algo nas últimas páginas do meu caderno ou apenas olharia pela janela e observaria a cidade que eu tanto admiro. Logo ao passar a catraca percebi que os assentos do fundo estavam ocupados, os próximos a frente também, os assentos próximos às portas também estavam ocupados. Parecia que os outros passageiros haviam escolhido exatamente onde eu gosto de sentar, pois, todos os outros bancos estavam vagos. Me equilibrando caminhei até aqueles bancos mais altos no meio do veículo, onde também gosto de me sentar.
Estava eu sentado com minha mochila no colo, abri meu livro e comecei a ler, não lembro exatamente o que estava lendo, mas na época costumava andar com algo do L. F. Veríssimo ou C. D. Andrade. Enfim tentando fazer com que o ritmo da leitura entre no ritmo do balanço do ônibus, antes mesmo de ele sair do centro da cidade eu fui interrompido pela presença de um pequeno homem, magro e veloz que sentou-se ao meu lado. Me chamando de “cupincha” ele me deu um pequeno cutucão com o cotovelo e se ajeitou no banco com as pernas esticadas, eu olhei para ele mostrando estar incomodado.
Usava grandes óculos escuros e um boné de aba tão desproporcional quanto e era em suma bastante estiloso, tanto na vestimenta quanto em seus gestos ao falar e se movimentar. Agora já me chamava de “Patrão” ou “Playboy” não tenho certeza, mas não tenho dúvida de que fiquei completamente ofendido. Continuou ao meu lado depois que eu falei “Qual é?” e então ele anunciou o assalto, pedindo que eu entregasse tudo, pois estava armado (fazendo um gesto de arma com o indicador e o polegar, enquanto a outra mão agarrou um volume na cintura). Ele falava “Agiliza com as notas e o celular” dando ênfase “celular de tela grande” (lembrando que na época os smartphones eram objetos raros).
Fiquei um pouco nervoso e procurei os olhos do cobrador do bus, que não me encontraram, então falei pro cara que eu não tinha nada de valor, que acabara de perder um celular há poucas semanas e não tinha muito dinheiro na carteira. Ele perguntou sobre o conteúdo da mochila e eu falei que havia apenas um moletom, caderno, livros, canetas, nada de valor. Fui obrigado a abrir a mochila e ele viu que o moletom não era de marca, mas foi quando abri o bolso pequeno da minha mochila que ele deu um salto de felicidade e um bote com sua mão direita para dentro de minha mochila, falando “E o que é isso aqui, então?”. Sim, ele viu aquele material de plástico fosco, retangular, com os cantos levemente ondulados e com a tela virada para baixo, tão grande que sobra se for pego com uma só mão. Então, num ato veloz, trouxe rápido para frente de seu rosto onde no espelho negro refletiu seu sorriso de felicidade e disse em alto e bom som “É uma calculadora!!”. Devolveu o objeto com o maior desdém e saiu do banco resmungando revoltado. Creio que nunca na vida fui alvo de tantos insultos por alguém que acabara de conhecer.
Enquanto guardava meus objetos novamente na mochila, pude ver que o homem ainda em pé na porta do meio do bus, às vezes ainda me olhava com certa desorientação, gostaria de saber o que se passava na cabeça dele. Eu nunca fui rico, sou filho de operários de classe média baixa, nunca tive dinheiro, cresci no subúrbio, sempre dependi de transporte público, compro em brechó e trabalho em qualquer bico, tenho certeza de que aquele sujeito tinha mais dinheiro no bolso do que eu tinha no banco. De toda a história, o que mais me incomoda é andar com um all star sujo, uma calça jeans surrada e minha fiel camiseta do Pink Floyd e ainda assim ser confundido com um mauricinho, por sorte ainda dou risada desse acontecimento e costumo contar aos meus amigos, entre goles de um vinho barato. Como assim playboy? Eu também sou duro.
Texto por: Cristopher Dallo, acadêmico do 8º Nível do curso de Filosofia (Licenciatura) UPF.