Bases para uma Pedagogia da variação linguística
Dentre as várias conferências de grandes nomes na Abralin desse ano, minha escolha para a produção da memória foi a do professor Carlos Alberto Faraco, um excelente linguista, professor aposentado de Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, autor de um dos manuais mais conhecidos de Linguística Histórica e considerado um grande especialista na obra de Mikhail Bakhtin. O tema proposto por ele na conferência: Bases para uma pedagogia da variação linguística, é um tema muito atual e importante de ser debatido e mostrado para todos nós, estudantes de Letras, professores e/ou pessoas que veem importância no tema em questão.
Faraco relata que a Pedagogia da variação linguística vem para agregar produtivamente o fenômeno da variação linguística em todas as esferas do ensino do português, enfatizando a não existência de uma língua homogênea, mas sim heterogênea, como a sociedade em que estamos inseridos. Quando encaramos uma sala de aula, podemos nitidamente perceber essa grande heterogeneidade da língua, a qual se dá por diversos fatores, como: o território, história demográfica, hierarquias socioeconômicas e seus efeitos sobre a educação, cultura, as diferentes faixas- etárias dos falantes, gêneros, atividades e o contexto da interação do falante.
Infelizmente, como é citado, podemos perceber que inúmeros fatos negativos cercam esse fenômeno da variação em uma sociedade como a nossa, é de extrema importância que como futuros professores/ professores de português possamos desenvolver uma pedagogia da variação que leve em conta a realidade heterogênea da língua, acrescentando-a no conjunto das demais pedagogias da língua, como a da oralidade, escrita, produção de textos, leitura e também da gramática.
O professor nos mostra que existem três objetivos dessa pedagogia da variação linguística, apresentada por ele. O primeiro objetivo é retratado da seguinte maneira:
- Conhecer e entender a variação linguística.
Esse objetivo é sem dúvida muito importante, o aluno deve conhecer a heterogeneidade da língua e perceber que assim é também a sociedade, heterogênea, pois quando de fato compreendemos essa variação da língua, compreendemos também nossa sociedade. O professor considera que seria muito proveitoso o desenvolvimento de projetos transdisciplinares na escola, envolvendo a língua portuguesa, história, sociologia… permitindo que os alunos entendam que uma sociedade que ainda não venceu os traços de escravidão e desigualdades é uma sociedade partida em diversos aspectos, assim como o linguístico. Esses projetos transdisciplinares mostram aos alunos que a educação brasileira nunca foi um grande projeto sociopolítico nacional e é partindo disso que o analfabetismo e o alfabetismo funcional têm grandes impactos em nossa realidade linguística ainda nos dias de hoje.
O segundo objetivo é descrito da seguinte forma:
- Entender e respeitar a variação linguística.
Esse objetivo requer muita ênfase, pois é de extrema importância desenvolver práticas pedagógicas que propiciem que os alunos tenham consciência para uma atitude de respeito e aceitação linguística, percebendo a grande variação contida na nossa sociedade e principalmente no contato com os colegas em sala de aula, sendo capazes de compreender que o modo como cada indivíduo fala transmite um pouco de sua história, sua cultura, suas vivências e, até mesmo, diz respeito à classe social que a pessoa está inserida. Lembrando que os falantes não têm apenas uma história individual, essa individualidade e história individual se fundem no interior da sociedade, no interior de uma classe social e em um momento histórico determinado, pois quando falamos, revelamos o local onde vivemos e crescemos.
Os estigmas que aplicamos às outras pessoas, e aos quais sofremos, têm base sociocultural e histórica. Se tivermos uma compreensão dessas variedades usadas pelas pessoas, podemos compreender a história e até mesmo a organização da nossa sociedade, nos permitindo desenvolver uma atitude crítica perante aos estigmas, pois ainda sonhamos em superá-los em todas as dimensões, acolhendo todas as diversidades e incluindo a todos, econômica, social, cultural e linguisticamente, combatendo os estigmas e formas de violência linguística.
O terceiro objetivo é colocado assim:
- Entender e transitar com segurança pela variação linguística.
Faraco afirma que nossos cursos de Letras não nos fazem despertar uma crítica sistemática, mas sim reforçam o pior do senso comum. Relata, ainda, que alguns gramáticos consideram que o estudo variação não deveria sair das portas das universidades para as escolas, as quais deveriam apenas ensinar a norma padrão. É neste momento que nos indagamos com a questão de como lidar com a variação trazida até a escola, pelos alunos que a frequentam, se o estudo da variação linguística não entra na escola. É esta estigmatização das variedades linguísticas que circulam na sociedade, afirmando que apenas uma linguagem – a padrão – é correta e as outras são consideradas erradas, más influências, inferiores. Por isso, muitas vezes a pedagogia da variação linguística é abolida da escola, pela direção, professores, pais e até pelos alunos, por acharem que estão negando a forma culta, o que não é verdade, o aluno deve aprender a transitar nesse mundo da variação, desde em uma conversa em casa ou em uma conversa mais formalizada, dando conta de ambos.
Sem dúvidas este é um objetivo muito duro de ser realizado totalmente, pelas inúmeras dificuldades encontradas no momento de compreender de fato a variação linguística. A linguagem comum e a padrão devem estar interligadas, os alunos devem ter o desejo de dominar as duas, cada qual, no momento correto e local adequado para isso. Sendo assim, a escola deve propiciar essa interação, sempre partindo da linguagem padrão, mas não deixando de lado as especificidades que cada indivíduo tem com a sua linguagem mais voltada às suas vivências, ao seu senso comum.
“A língua é um conjunto de variedades e nenhuma é mais que a outra”, todas as variações possíveis presentes em nossa língua são belezas adquiridas por vivências e culturas trazidas, cabe a todos nós, respeitá-las.
Texto por: Emili Cristina Pedon aluna do nível III do curso de Letras – UPF