Por que é difícil escrever sobre o que mais te inspira?
O sentimento em relação à arte com as palavras é tão puro que para aqueles que a reconhecem verdadeiramente como parte de si, ao se depararem com a missão de descrevê-la, sentem o mesmo efeito de confrontar a si próprio, mergulhar na imensidão chamada alma e conhecer todos os detalhes que a compõem, pois a arte, seja sua realização nas telas ou pela escrita, na música ou na dança, visa conduzir o indivíduo à catarse, considerando o significado atribuído por Aristóteles. De fato, a ideia causa desconforto, enfrentar o “eu” pode ser extremamente perturbador, nesse processo podemos trazer à tona certos aspectos que deveriam permanecer esquecidos, mas é também um dos atos mais corajosos que alguém ousa cometer.
Esse é um dos principais fins da literatura: instigar a refletir sobre tudo aquilo que até então se tinha como irrefutável, desde o âmago de suas emoções até as mais complexas questões envolvendo o sentido da vida. Se não exigisse mudanças, para que serviria? O sujeito, ao permitir o contato com os livros e todos os fatores englobados pela arte literária, sente-se inundado por questionamentos e sentimentos difíceis de serem controlados, entra em um novo estado de consciência que pode parecer subversiva aos outros seres que acreditam na ideia de que ser submisso a tudo aquilo proferido pelas autoridades é o certo a fazer.
A história “sujeito x literatura” inicia-se de modo imperceptível. Uma criança aprende a ler com os gibis do Maurício de Sousa e fica maravilhada pelos fantásticos enredos presentes nos contos de fadas, por enquanto, o adequado é confortá-la com a falsa sensação de que a felicidade é real e tão permanente quanto aquela conquistada pelas mocinhas. Os anos passam e a criança levemente ingênua torna-se adolescente, agora com um conhecimento mais amplo e curioso, possui noção de que o mundo que conhecia era apenas um plano de fundo perfeitamente organizado para a distrair do verídico, esqueceu-se das aventuras da Turma da Mônica por um tempo e se deixou levar pelos best-sellers clichês, o mais importante nisso tudo é que, possuindo uma temática ou outra, o livro nunca chegou perto de abandoná-la. No entanto, a epifania ocorre quando ela é apresentada ao verdadeiro conceito de literatura, e aos poucos percebe que sua vida mudou por completo, ela foi introduzida à sutileza da alma, ao singelo ato de derramar o subjetivo em palavras para transformá-lo em algo que, com um pouco de sorte, tocará alguém.
Somos seres singulares conectados, por alguma razão, passamos por situações semelhantes e experimentamos reações parecidas em determinados momentos, ao ler um livro, observar uma tela ou escutar uma música, nos indagamos como é possível alguém que não nos conhece ser capaz de exteriorizar e traduzir nossos sentimentos de forma tão precisa, o que causa a errônea impressão de que o autor esteve o tempo todo lhe acompanhando de longe e fazendo anotações para em seguida o converter em uma espécie de arte. A literatura não pode ser definida, e ao contrário do que muitos podem pensar, dizer que ela é composta somente por livros é um pensamento muito limitado segundo Marisa Lajolo, ela fala de vários mundos, logo, está presente nas mais diversas manifestações do interior.
Relaciona-se às outras de maneira extraordinária, e essa conexão é digna de ser o foco dos mais variados estudos e análises. No entanto, a partir desse instante, uma perfeita tríade assume o centro do palco, constituída pela literatura, a arte plástica e a música. O que estabelece a ligação entre elas é unicamente a expressão, a ação de se tornar vulnerável a ponto de deixar que o mundo veja o que lhe conforta ou desconcerta com a intenção de manter sua própria sanidade, através de frases, tintas ou melodias. Inúmeros artistas que fazem parte de cada vertente poderiam ser citados, mas aqueles que conseguiram, de uma forma ou de outra, reunir as três com excelência merecem completa atenção.
BTS, um grupo sul-coreano composto por sete garotos. Sete jovens que depois de tantas provações e dificuldades, finalmente alcançaram o topo e confortam outras pessoas através de sua música. Pertencem à categoria “kpop”, porém, quanto mais visibilidade ganhavam, era perceptível que essa definição era rasa demais para eles, nenhum outro grupo é capaz do que eles são. Diferenciam-se por tratar de assuntos de cunho social, psicológico, literário e histórico em suas músicas e videoclipes, representando cenários e enredos que referenciam à Teoria Junguiana com enfoque no complexo “Mapa da alma” escrito por Murray Stein, Ursula K. Le Guin e o dilema ético tratado em “Os que se afastam de Omelas”, Hermann Hesse e o questionamento existencial em “Demian”, contando também com esculturas como a “Pietá” de Michelângelo e quadros como “O lamento por Ícaro” de Herbert Draper.
Um trecho escrito por um renomado autor ou melodicamente entoado por um talentoso cantor causa as mesmas lágrimas que escorrem dos olhos daquele que admira uma pintura em um museu.
A arte nas telas possui como um dos artistas mais representativos, Vincent Van Gogh. Quem admira seus quadros no presente, sem pesquisar um pouco, nem sequer imagina que ele teve êxito em vender apenas um quadro em vida. O pintor é outro resultado da perfeita tríade, que além de marcar períodos literários como o Impressionismo e o Expressionismo, recebeu o reconhecimento que perpetuará pela eternidade, o qual ele não pôde presenciar. Sua história cativa pessoas como Don McLean, um cantor que, ao ler a biografia do pintor, compôs a música “Vincent” em forma de homenagem ao solitário e incompreendido homem. Nos versos, McLean dialoga com Van Gogh como se lhe oferecesse um conforto dizendo que ele entende o sofrimento do artista e admira sua genialidade com seus girassóis e sua noite estrelada. Como demonstrado no filme “Com amor, Vincent” e no livro “Cartas à Theo”, seu único objetivo era tocar as pessoas com sua arte, porém, infelizmente, as pessoas que de fato o conheceram, não foram capazes de compreender o incrível ser humano que tinham por perto.
Ele transformava a dor da vida tempestuosa em uma beleza extasiante, em uma de suas cartas ao irmão mais novo, Vincent disse que o amor pela arte faz perdermos o verdadeiro amor, mas mesmo sendo vítima de sua própria mente, continuou pintando, expondo o que sentia em suas turbulentas espirais. E um dos trechos cantados por McLean define com exatidão a dolorosa, porém linda verdade sobre a vida de Van Gogh:
“Eles não puderam te amar, mas ainda assim seu amor era verdadeiro. E quando não havia mais esperanças naquela noite estrelada, você tirou sua vida como amantes geralmente fazem, mas eu poderia ter lhe dito, Vincent, esse mundo nunca foi feito para alguém tão lindo quanto você”.
Depois de uma profunda imersão na essência, é tempo de questionarmos outra vez. Traços dessa tríade estão presentes tanto no passado quanto no presente, mas como as pessoas inseridas no “século da informação” estão lidando com esses fatores? Elas se importam em ler um livro, escutar uma boa e reflexiva música ou ir à galeria de arte? Não, o que mais parece importar são as redes sociais que lhe apresentam conteúdos duvidosos e as fazem reproduzir conhecimento falso, baseado em meras opiniões. Optam por defender ideias sem sentido do que se abrir para diferentes interpretações de mundo. Ao contrário do que se esperava, com os avanços tecnológicos, a sociedade regrediu.
Entretanto, não são todos que são afetados por essa estupidez coletiva, ainda há esperança, uma espécie de luz no fim do túnel. Cabe àqueles que se negam a renunciar sua bagagem artística continuar a produzir arte, escrever livros que mudarão vidas, compor e cantar músicas que salvarão pessoas de seus conflitos internos e a pintar quadros que servirão de espelho para o admirador. Eles devem mostrar que pertencem sim a esse mundo, embora ele possa parecer hostil para os que ousam ultrapassar os limites.
A literatura é um modo que o ser encontrou de sentir-se compreendido e aceito. Aqueles que a negligenciam assemelham-se às pessoas que permitiram a partida precoce de um brilhante artista que perambulava por Auvers-sur-Oise, “eles não queriam ouvir, ainda não estão ouvindo, talvez nunca vão ouvir…”.
Escrito por Ritchely Ávila da Rosa, aluna do curso de Letras da UPF
Tudo para mim essa menina!
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