
I. princípio
Carrego agora no pulso
As horas redondas,
Como homem feito.
E entre os outros defeitos que tenho,
Designo a solidão que amontoa-se nos lençóis
Brancos e feios de minha cama pequena.
Não vejo lampejo algum lá fora,
Nem de riso, nem de alegria; talvez só de medo.
Designo a solidão que demora-se,
Um ou cem quilômetros
Para passar.
Rio, assim, desencantado.
As ondas falsas mergulham como um raio.
Não lembro com clareza;
Como eram as noites antes dessa que passo aqui trancado?
A esquina sombria e deserta,
Um banco e alguma melancolia.
Uma sombra espia, alerta.
Mesmo com as horas ali marcadas,
Cravo no pulso outra coisa.
Coisa antiga, coisa amarga.
Coisa que lê-se e que joga-se fora.
Um grau alto de solitude rodeia-me.
Esta é minha realidade agora.
II. meio
E mesmo que a realidade
Assemelhe-se a um poema de bêbado,
Trata-se da única parte perfeita da criação.
Ela escorrega pela mão e desenha
Um sorriso envergonhado e escondido na máscara pelo piso estreito;
É o suficiente; é assim que eu saio.
Lágrima salgada, lágrima contida.
Lágrima que desencaixota-se
E que joga-se no chão.
Volto: aprumo-me no canto, na metade da parede
Pelo guiar de uma mão pequena.
Como cheguei neste estado?
Quantos graus de febre atingi?
Queimei os sorrisos, até a última centelha;
De mãos lisas e alcoólicas aos incontáveis incêndios dentro de mim.
Entretanto, com a simplicidade amarela da flor,
As veias que doam seu sangue sem dor
Vêm ao meu encontro.
Há traços infantis no homem de branco e vermelho afetado
Pela poesia cristalina do mundo em quarentena;
A relutância da doçura opõe-se à ganância esguia.
Um cheiro mais soturno
Invade-me com jeito e deixa toda a vida e toda a morte
Sem nuances inteiros, o corpo todo desmontado.
III. fim
Por dentro estão todas
As euforias;
As efemeridades.
As abstratas, das que trato,
As concretas, das que me omito.
No fundo,
Um labirinto submarino, um vírus;
Palavras nuas em confinamento.
Presas sem escapatória;
Enjauladas com meu último suspiro.
Após, há um momento de escuridão.
Um buraco abre-se no chão frio.
Banco, flor, lençóis, máscaras e solidão
Caem todos dentro dele.
Sinto palpitar meu peito inteiro, enfim, sem ar: nosso estertor.
A sombra fita, curiosa.
Alguém senta-se ao lado.
Água escorre pela boca sem paladar; temo que os metros sejam pequenos demais.
Ouço o silêncio berrar, intocado,
Já não sei mais como agir, já não sei mais como se faz.
Um momento de atenção,
Há um estrondo baixo antes da cura da criação,
A poesia escorre de mão em mão, uma coroa sem reis e cheio de escravos,
Uma forma cruel no singular ato da resistência.
O tempo para.
Eu todo desfaço-me,
Em versos, em sorrisos, em abraços.
Soluço berros à janela, corro todos os passos,
E meu peito chora enquanto aproximo-me e já não afasto-me.
IV. recomeço
No mundo frágil,
As coisas menores têm grande importância.
Penso, leve, que há algo que, em pouco, hei de esquecer sem querer.
A nuvem queima a garganta,
Que antes enjaulada, rugia como um leão; acordo não mais em combustão.
Pele, osso, sangue em ardência: nunca haverá um fim para esta tragédia?
O sopro é o rio onde deságuam as mágoas,
As palavras tecem um fio invisível entre a vida e a morte,
Entre o fim, o começo e o meio que principia-se.
E eu, que do nosso estertor forjei poema,
Reato os atos primeiros,
Um novo tipo de recomeço depois da pandemia.
Texto por Denny Cezar, aluno do 8º nível do Curso de Letras, outubro de 2020.