O MUSEU

Meus passos sobre a neve, rasa, eram leves. Assim como os pensamentos que tomavam conta de minha mente. Olhos pesados e a sensação de que mil e uma borboletas voavam em meu estômago não era o que eu gostaria de estar sentindo naquele momento. Mas, infelizmente, eram coisas que eu não conseguia evitar, principalmente quando se tratava dela. 

Em algum momento de nossas vidas todos nós iremos nos apaixonar, e não há como evitar esse fato. Todos iremos sentir aquele frio na barriga ao ver alguém e vivenciar alguma situação com esse alguém que nos deixará ansiosos; seja ele ou ela. Paixão é um sentimento forte e doloroso ao mesmo tempo. Doloroso porque você jamais sabe por quem seu coração acelerará e, também, pelo medo de não ser recíproco. No meu caso, eu não tenho como saber se é recíproco. 

Em meus vinte e três anos, é a primeira vez que visito a França. Sempre fora um sonho poder ver pessoalmente cada museu e exposição de arte e fotografia, coisas pelas quais sempre fui apaixonado. Minha viagem estava perfeitamente planejada, passaria duas semanas em Paris e voltaria à Londres em seguida, pois já havia visitado outros países antes de chegar em meu atual destino. Eu apenas não esperava que meu coração resolvesse brincar comigo no terceiro dia que eu estava aqui.  

Foi no Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris que conheci Josephine Mitchell, a guia do meu grupo no museu. Senti meu coração doer no que meus olhos a avistaram, vestida no uniforme xadrez que os guias deveriam usar. Ela era a mais bela das guias de todos os museus que eu já havia visto. Na verdade, ela era a mais bela garota que eu havia visto na vida. Seus cabelos louros cortados um pouco acima do ombro, os olhos tão esverdeados quanto as águas cristalinas do mais lindo rio e o sorriso mais lindo de toda Paris, tenho certeza disso.  

Durante o tempo que estive ali não consegui prestar atenção em nada que não fosse a forma brilhante com que Josephine explicava cada obra. Ela gostava daquilo, gostava muito… Assim como eu, que sabia a história da grande maioria dos quadros ali expostos. Eu nunca havia encontrado alguém tão apaixonado por arte como eu até conhecê-la. E aquilo não era a única coisa em comum que notei possuirmos. Embora falasse perfeitamente o francês, o sotaque britânico estava ali, da mesma forma que os tracinhos em seu rosto bronzeado. 

Eu queria tanto saber sobre ela. Conhecer seus gostos, suas paixões, saber como se tornou guia do mais famoso museu de arte moderna de Paris. Além de tudo sobre si. Eu queria conhecê-la.  

Foi por isso que dei outro rumo a minha passagem por Paris, passando a visitar o museu de arte moderna a cada dois dias. Josephine era a responsável pela recepção de estrangeiros, então eu a via na hora em que era recepcionado. Com os dias, ela se familiarizou com minha presença, passando a sorrir de forma que demonstrava sua curiosidade sobre minha ida frequente ao seu local de trabalho. Ora, não é normal que você visite o mesmo local várias vezes na mesma semana. Eu não a culpo.  

Pelo menos consegui descobrir seu nome no quinto dia e, no sétimo, que ela era uma intercambista inglesa que por ser autodidata e amante de história conseguira aquele emprego. Costumava passar pelo museu ao final do dia, já que o local não estava mais com um número grande de visitantes, então poderíamos conversar um pouco.  

Meu sorriso fascinado era inevitável, pois não havia algo nela que eu não achasse belo. Sua inteligência me encantava, suas histórias me faziam divagar, sua voz era tão delicada que parecia melodia e sua beleza era surreal. Josephine era completamente linda. Eu não queria que fosse assim, mas não consegui evitar que me apaixonasse.  

Hoje é meu último dia em Paris e não sei explicar o que sinto a não ser medo. Medo de nunca mais vê-la, medo de que esse sentimento estranho de dor aumente e medo de que seja tudo um acontecimento existente apenas em minha cabeça. Eu preciso saber se pelo menos tenho chance, nem que seja a simples chance de lhe mandar mensagens de texto. É por isso que estou indo para o museu uma hora mais cedo do que todas as outras vezes e levo um buquê de rosas brancas comigo. O nervosismo toma conta de mim por completo, assim como tomou na época em que dei meu primeiro beijo.  

O que aconteceu nos minutos que se seguiram foi como um flash. Adentrei o museu como de praxe e segui até a recepção para pegar o cartão de identificação. Então, avistei Jo recebendo um beijo de um garoto na bochecha, um pouco mais baixo que ela. Naquele momento tudo o que eu pensava simplesmente sumiu, e o que ficou foi a sensação de vazio. E também a sensação de coração partido, embora eu o tenha partido sozinho, sonhando com um futuro que jamais existirá.  

Depois de alguns segundos esperando o choque passar, dei de costas e voltei pelo caminho que havia chegado. Mas antes observei o garoto que estava sentado na recepção com um semblante deprimido para depois observar o buquê em minha mão. Não havia o que fazer com ele, sendo assim, simplesmente me aproximei do garoto ruivo, que me olhou como se eu fosse um louco ao receber minhas flores. Isso talvez porque eu tenha esquecido de tirar o cartão do meio delas. Mas não que tivesse alguma importância até aquele ponto. No dia seguinte eu iria embora e levaria junto a mim a dor de ter me apaixonado pela pessoa errada.  

Eu estava quase virando a esquina, as mãos no bolso do casaco castanho que usava e o olhar baixo. Foi quando escutei uma voz me chamando e logo após o som de passos vindo em minha direção de maneira apressada. Não acreditei no que vi ao me virar, na mesma forma em que não acreditei quando senti meu corpo ser abraçado de forma forte por Josephine.  

— Ele é meu irmão. — Ela disse com a respiração acelerada devido a corrida que dera para me alcançar. — E sim, eu aceito jantar hoje à noite com você. — Devido a aproximação inesperada, sua voz saíra mais baixa e de forma abobada. A última parte, provavelmente, devido a expressão confusa e também abobada que adornava meu rosto. Então o cara ruivo entregara o buquê de flores para ela.  

— Isso é sério? — perguntei depois de um tempo observando os traços de seu rosto tão próximo do meu, mais baixo devido a sua altura. Josephine Mitchell é a garota mais linda que tive o prazer de conhecer em toda minha vida.  

— Sim. Eu só preciso que me espere até as dezenove horas, que é o horário que termino meu turno. Tudo bem? — a única coisa que consegui fazer foi sorrir apaixonadamente. O sorriso quadrado que sempre diziam ser fofo. E talvez fosse verdade, porque logo senti os lábios dela selando minha bochecha de forma tímida; as bochechas tornando-se rubras em seguida. — Acho que eu queria isso tanto quando você.  

E foi naquele momento em que eu finalmente percebi a diferença de paixão e amor. E também, concluí que nunca senti paixão por Josephine. Desde o primeiro momento em que a vi o que senti fora amor. Um amor tão forte que atiçou em mim o desejo de tê-la ao meu lado por toda minha vida. Seria isso o que chamam de almas gêmeas? Como se existisse um tipo de cordãozinho vermelho que nos ligava pelos pulsos? 

Entrelacei sua mão na minha, vendo o contraste de tamanho e temperatura. A minha fria e com um leve tremor, as dela quentinhas, mas também tremelicando. Caminhamos juntos de volta ao museu, como se fizéssemos isso todos os dias, Jo continha um sorriso estranho, como se estivesse vivendo um clichê e eu… Bem, eu estava do mesmo jeito.  


.

Texto por: Gabriele Pedon Silva – 2º nível de Letras
Universidade de Passo Fundo.

Deixe um comentário