Texto de Camila Toledo Docena, acadêmica do curso de Letras da UPF
Introdução
Segundo Maria de Fátima Barros da Silva, “O preconceito linguístico conceitua-se na discriminação sofrida por um indivíduo por causa do seu modo de falar” (2010, p. 23). Esse preconceito se manifesta entre falantes da mesma língua e também entre falantes de diferentes línguas, quando um deles adquiriu a língua do outro por meio do estudo ou experiência vivida em outro país. Esse projeto de pesquisa propõe-se a analisar o segundo tipo de preconceito, a partir da observação de uma interação do personagem “Fez”, da série “That 70’s show”, em que a discriminação da sua forma de falar o inglês é um dos gatilhos de criação de humor. Através dos estudos reunidos para essa pesquisa, busca-se elucidar as razões por trás do preconceito linguístico com falantes não-nativos do inglês.
- Relações de língua e poder
Diversos fatores fizeram com que a língua inglesa ganhasse notoriedade e o status de língua franca, entre eles, segundo Crystal (2003), o crescimento do poder colonial britânico e o surgimento dos Estados Unidos como principal potência econômica mundial. Ainda conforme Crystal (2010), diferentes poderes se relacionam com a língua inglesa: o poder político/militar (o Império Britânico), o poder tecnológico e científico (Revolução Industrial), o poder econômico (libras, e depois dólares) e o poder cultural (transmissões televisivas, viagens, filmes, músicas pop, internet…). Junto a esses poderes está intrínseco o poder das pessoas que falam essa língua, como concorda Maurizzio Gnerre em sua publicação Linguagem, escrita e poder (1987), ao dizer que “Uma variedade linguística ‘vale’ o que ‘valem’ na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais” (2003, p. 6).
Hoje, segundo Grigoletto (2016), a língua inglesa tem estatuto de língua oficial em mais de 70 países. Em virtude da globalização, a proficiência no idioma passou a ser exigida em diversos cargos de trabalho ao redor do mundo. Segundo o British Council, organização internacional do Reino Unido para relações culturais e oportunidades educacionais, o inglês é a língua dominante da comunicação do século XXI. Também, segundo a organização, a língua é falada com um bom nível de proficiência por 1,75 bilhões de pessoas, o que equivale a um quarto da população mundial.
Entretanto, segundo Clarissa Menezes Jordão, “apesar do reconhecimento de que existem variedades do inglês pelo mundo, a língua inglesa continua sendo defendida, em muitas instâncias, como língua internacional padrão, única e soberana”, (2004, p. 4). Essa defesa vem de uma comunidade que ainda idealiza a língua inglesa como uma monocultura e que não considera a existência e o uso da língua como língua internacional. Ainda conforme Jordão:
As relações de poder que se estabelecem em diferentes níveis de proficiência lingüística dentre os usuários da língua inglesa, ou mesmo a legitimação e o reconhecimento da autoridade linguística na distinção entre “falantes-nativos” e “não-nativos”, ainda são categorias muito pouco discutidas pelos lingüistas, sociólogos ou usuários da língua inglesa (Kachru, 1998:24). A articulação entre diferentes identidades lingüísticas, culturais, globais e locais, com o consequente estabelecimento de múltiplas variedades da língua inglesa, é percebida por muitos como uma ameaça à posição hegemônica dos falantes nativos e à concepção binária de mundo que não tolera a pluralidade cultural e divide o mundo em “civilização” ou “barbárie”, entre “o bem” ou “o mal” (JORDÃO, 2004, p.4).
- Humor e preconceito em “That 70’s Show”
O contexto do objeto de análise deste projeto se passa nos anos 70. A história da série televisiva de humor “That 70’s show”, da emissora FOX, se passa entre os anos de 1976 e 1979 e relata o dia a dia de um grupo de adolescentes. A série acontece na cidade fictícia de Point Place, subúrbio de Green Bay, em Wisconsin, nos Estados Unidos. Em sua trama, a sitcom aborda acontecimentos da década, e trata de temas como feminismo, atitudes sexuais, conflitos de gerações, dificuldades econômicas, recessão, uso de drogas e problemas sócio-políticos.
O personagem Fez é um estudante estrangeiro que faz parte do grupo de amigos protagonista da série. Boa parte do humor criada em torno do personagem se relaciona ao fato de ele ser estrangeiro. Porém, em diversos aspectos é possível perceber o preconceito praticado contra a nacionalidade do personagem – a começar pelo seu nome, o qual os personagens americanos não conseguem pronunciar e por isso o chamam Fez, uma sigla criada a partir de “Foreign Exchange Student”, em português, estudante estrangeiro.
Seu sotaque marcado na pronúncia do inglês também é motivo de diversas cenas de humor, como a escolhida para esta observação. A cena se passa durante o 10º episódio da sexta temporada. Fez precisa encaminhar alguns documentos para conseguir o seu visto de permanência nos Estados Unidos e todos os personagens acham que haverá uma prova em que ele deverá responder sobre a história do país.
O personagem Red Forman, pai de um dos amigos do grupo, se propõe a ajudar Fez a estudar. Red, porém, é considerado um nacionalista e mantém fortes princípios sobre a supremacia do governo americano. Ele demonstra um claro preconceito com estrangeiros e, uma das formas desse preconceito, manifesta-se através do preconceito linguístico. Na cena escolhida, Fez não consegue pronunciar corretamente a palavra “America”, visto que troca o fonema criado pela letra “r” pela letra “d”. Sua pronúncia da palavra é feita como “Amedica”. Red demonstra-se muito irritado com o erro de pronúncia dizendo que “Não existe “d” em America”. A cena demonstra a frustração do estrangeiro e o preconceito linguístico de um falante nativo, que não reconhece a variação linguística possível de acontecer em seu idioma.
A fala de Fez, na condição de estrangeiro, é sempre carregada de sotaque. Porém, essa forma de variação linguística, não impede o processo de comunicação entre ele e outros falantes da língua inglesa. Por outro lado, personagens como Red salientam os “erros” e variações linguísticas de Fez – um recurso utilizado para produzir humor, mas que também produz preconceito.
- Variação linguística e preconceito
Tânia Maria Alkmim afirma que “Língua e variação são inseparáveis”. Ela complementa que:
“Qualquer língua, falada por qualquer comunidade, exibe sempre variações. Pode-se afirmar mesmo que nenhuma língua se apresenta como uma entidade homogênea. Isso significa dizer que qualquer língua é representada por um conjunto de variedades. (…) Nesse sentido, qualquer tentativa de buscar apreender apenas o invariável, o sistema subjacente – se valer de oposições como “língua e fala”, ou competência e performance – significa uma redução na compreensão do fenômeno linguístico. (ALKIMIM, 2012, p.35).
Essa natureza variável das línguas é o que orienta e sustenta a observação, a descrição e a interpretação do comportamento linguístico (ALKMIM, 2012). Porém, segundo a autora, “A rejeição a certas variedades linguísticas, concretizada na desqualificação de pronúncias, de construções gramaticais e de usos vocabulares, é compartilhada sem maiores conflitos pelos não especialistas em linguagem”, (2012, p.44). E a não aceitação dessas diferenças é hoje responsável pelas situações de preconceito linguístico, tanto na língua materna, quanto na língua estrangeira.
Para Luiz Carlos Cagliari (2020), muitos fenômenos acontecem quando o falante nativo de uma língua é obrigado a deixar de lado a sua para se tornar falante de uma outra língua, entre eles, o surgimento do sotaque.
Existe uma expectativa natural de que falantes que passam a usar uma língua estrangeira apresentem algum tipo de sotaque, o qual, como foi dito antes, se fundamenta no substrato lingüístico dos falantes e, por esta razão, mostra traços comuns às línguas que formam esse substrato, de tal forma que não é difícil predizer qual é a língua de origem dos falantes, pela simples observação dos traços que definem um determinado sotaque. Muitas vezes, os elementos prosódicos, como o ritmo e a entonação, são muito evidentes, bem como a presença muito constante de certas qualidades vocálicas ou consonantais (CAGLIARI, 2020, p.17).
A interferência do idioma materno na pronúncia de uma língua estrangeira é chamada pelos linguistas ingleses de foreign accent (sotaque estrangeiro) e ocorre em mais de um aspecto da pronúncia: no ritmo, na produção dos fonemas e na acentuação. Cagliari ressalta que a “perfeição do sistema é algo que se adquire como falante nativo, não sendo um ideal para o falante estrangeiro” (2020, p.17). Concordando com Marcos Bagno, que “O preconceito linguístico está ligado, em boa medida, à confusão que foi criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa” (2002, p.19), Cagliari destaca que:
O preconceito marca primeiro o interlocutor e, depois, busca nas peculiaridades de seu falar os traços distintivos que o tornam vulnerável à discriminação. Se alguém não gosta de pobre, é só ver em sua fala as variantes que apresenta, julgá-las fruto da ignorância e não de um uso diferenciado das estruturas lingüísticas e, em seguida, passar tal julgamento dos elementos lingüísticos para a pessoa do falante. A pobreza que não tinha nada a ver com a ignorância, através desse jogo preconceituoso de manipulação dos valores lingüísticos, acaba sendo sinônimo de falta de cultura, de conhecimentos, de capacidade para seguir as regras do pensar lógico, enfim, da gramática (CAGLIARI, 2020, p.19).
Esse preconceito atinge o falante, que acaba se convencendo de que fala errado e não sabe pensar ou falar (CAGLIARI), como acontece com o personagem de “That 70’s show”.
Considerações finais
Segundo Eduardo Murano (2009), o entendimento de uma língua não necessariamente passa pela pronúncia correta. “Num contexto de globalização, dizem os especialistas, a exigência da pronúncia inglesa ou americana do inglês pode estar perdendo espaço, já que se trata de uma língua usada em contextos profissionais de diversos países”. O autor destaca que comunicar-se de forma compreensível internacionalmente tem uma relevância muito maior do que a pronúncia perfeita.
Logo, assim como se deve agir para superar o preconceito linguístico em língua materna, outras alternativas também devem ser pensadas para afastar o preconceito linguístico no processo de socialização de uma segunda língua. A pessoa que propõe-se a aprender um novo sistema, a dominar uma gramática, muitas vezes, completamente diferente da sua, e a tentar pronunciar fonemas nunca antes usados em sua língua materna merece o respeito e a compreensão dos falantes nativos. Tanto porque, como afirma Jordão,
O sujeito que aprende uma LE [língua estrangeira] aprende também que sua identidade nacional não é a única possível, nem a melhor, mas sim uma dentre várias construções convencionalizadas produzidas por diferentes comunidades mundo à fora; ele aprende que o mundo se encontra repleto de identidades diferentes da sua, que essas outras identidades também precisam ser respeitadas em suas singularidades, que elas podem contribuir muito para uma melhor compreensão dos processos que posicionam os indivíduos e as comunidades em relações de poder, e que tais posições não são revelações da essência dos indivíduos, não são a expressão da verdade sobre eles, mas sim representações simbólicas das pessoas, construções discursivas que rotulam e tentam apagar a individualidade e a heterogeneidade das comunidades nacionais (JORDÃO, 2004, p.3).
Da mesma forma que Fez, representando todos aqueles que escolhem a língua inglesa como sua segunda língua, possui a consciência do sujeito descrito por Jordão (2004), aqueles que pensam como Red e se valem do preconceito linguístico para afirmar a supremacia de sua língua e identidade, podem também abrir-se a conhecer outras culturas e a abraçar aqueles que encontram na sua uma nova maneira de viver.
Referências
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