O braço circulou em sua cintura e, naquele momento, ela soube que as coisas estavam voltando ao normal.
Não seriam como antes.
Mas poderiam se reconstruir.
Decidiu, no instante do abraço, que não comentaria nada no dia seguinte.
As coisas simplesmente fluiriam no ritmo que deveria ser.
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Ele também tomou uma decisão.
Semelhante, aliás.
Os dois iriam mudando suas ações com a naturalidade que voltariam a manter. Sem preocupar-se com falas longas e intermináveis de como seu relacionamento estava desmoronando.
Depois da mão percorrendo seu ombro, acariciando sua tatuagem que marcava sua fé, a suástica budista, ele sabia que tudo ficaria bem.
Afinal, somente ela sabia quais pontos do corpo o acalmavam. E os dedos percorrendo do ombro até o cotovelo, pousando inestimável no antebraço e permanecendo ali até cair no sono, simbolizavam que ambos conheciam cada detalhe um do outro.
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No dia seguinte, o café da manhã foi contemplado com um ‘bom dia’ há tempos não pronunciado. E um sorriso, diga-se de passagem, com a esperança sendo despertada.
O convite de carona, que há muito não se ouvia, surpreendeu-a. Mesmo assim, aceito de imediato. Era uma oportunidade para ambos descobrirem um pouco mais sobre essa nova (e inusitada) mudança de comportamento.
Embora o trânsito tenha prolongado o percurso, poucas palavras foram pronunciadas. Nenhuma sobre o casamento. Melhor assim, os dois concordavam em pensamento. Aos poucos, se resolveriam e o fluxo natural voltaria para o relacionamento.
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À noite, o pedido por tailandesa foi feito em comum acordo. Em comum silêncio.
Alguma palavra de carinho poderia ser trocada, além da polidez quanto ao dia de trabalho. Contudo, a comida foi digerida sem muitas sentenças de dor ou amor. E bastavam se olharem para entenderem secretamente que o curso natural seria imposto na cama. Ou mais abraços envolvidos, ou o vazio. Mas, ele aguardava ela agir dessa vez? Ela queria sentir hoje seu aperto de segurança? Manter as ações da noite anterior à procura de respostas. Perguntas nunca pronunciadas.
Na cama, o “boa noite” com intensidade. Alheio ao silêncio habitual. Alheio ao amargo usual. Veio com a proposta de repetir semelhantes sensações da noite anterior, como sugestão a repetir de tal maneira.
A resposta, nos lados da cama, no jeito de dormir.
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Não demorou muito para os braços rondarem os corpos novamente. Mas dessa vez, ela decidiu que não iria simplesmente deixar a respiração e os batimentos falarem por si.
“Obrigada por me fazer segura de novo.”
Ele não entendeu. Mas ousou responder: “Obrigada a ti por me trazer a tranquilidade que eu precisava.”
A confusão flutuou entre os dois. Não importava. Tudo voltaria ao normal. A noite seguinte seria a retomada da paixão de fato. Na noite seguinte, tudo seria esclarecido entre os corações dos recém-casados.
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O sono tranquilo perpetuou noite adentro.
Não comentaram sobre os abraços, afinal o amor sempre esteve presente. Não havia palavras para isso.
Na noite seguinte, se alinharam como nunca antes, pronunciando profecias eternas sobre o amor. Conjurando, sob os corpos nus, promessas para o Universo.
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Jamais comentaram sobre os braços das duas noites.
Sabrine Amalia Antunes Schneider, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo