Rotina

Há três meses, a minha rotina era um tanto quanto agitada, com dois empregos diferentes e um intervalo de almoço de 45 minutos. O último expediente terminava às 19h, hora de passar em casa correndo pegar um lanchinho, colocar um casaco a mais e ir para a faculdade. Nessa rotina ainda era possível encontrar um tempo para o lazer, para os estudos e para o namorado. Parece não ser fácil, e não é, mas sempre amei tudo isso. A minha correria, o meu trabalho, o trabalho com as crianças, a loucura na escola, afinal o que está por trás da cortina em um espetáculo ninguém vê e é fascinante! Os abraços e encontros de corredores, os agradecimentos, as conversas “de pé de orelha” na sala de coordenação de turno, local em que trabalho, oficialmente, e as conversas fiadas nos finais de tarde quando o corpo já demonstrava o cansaço e a satisfação pela missão de mais um dia concluído. Aí, vinha o horário da aula, por mais cansada que eu estivesse, era impossível não participar daquele momento, daquela troca de conhecimento, ao ver os professores apaixonados por seus conteúdos, era a certeza de que eu voltaria para casa com a cabeça borbulhando em pensamentos e novos aprendizados. Sempre foi fácil trazer os conteúdos para a minha realidade.

Até que um dia tudo mudou, um vírus invisível aos olhos chegou domindando o mundo, fazendo com que todos ficássemos em casa na intenção de pará-lo. Veio limitando beijos, abraços, presença, enfim tudo o que é relacionado ao contato humano. E quem não obedece às suas regras e não respeita as suas indicações, acaba prejudicando a si e aos outros. Minha rotina mudou, por um tempo não houve horários, os dias terminavam entre as 3h e às 5h da manhã e iniciavam entre as 14h e às 15h da tard. Nessa desordem, a ansiedade tomou conta, começaram as enxaquecas, a falta de sono, as compulsões. Era hora de procurar ajuda,o neurologista tratou as enxaquecas e o psiquiatra cuidou do resto. Criei uma rotina melhor, voltei a acordar de manhã, tento manter minhas coisas em ordem, as aulas passaram a ser virtuais, com tempo reduzido, mas ainda assim é muito boa a troca de conhecimento. Acostumar um corpo agitado a não tanto não é uma tarefa simples, aos poucos ele vai se adaptando e eu vou encontrando melhores formas de liberar minha energia.

No decorrer dos anos, adaptações foram necessárias conforme as Revoluções foram acontecendo. A Covid-19 exigirá novos cuidados, novas adaptações a determinadas funções que normalmente fazíamos e que envolviam maior contato humano, por ser um vírus altamente contagioso. Nosso normal terá de ser modificado. Como somos um país que fica um pouco para trás nas evoluções tecnológicas, esse processo levará mais tempo, no entanto será necessário. E nós, professores, dependentes do contato humano, aguardamos ansiosos pela vacina contra o novo coronavírus para que possamos, enfim, abraçar nossos alunos.


Texto publicado originalmente no livro Sintaxe e Pandemia: uma experiência de afeto.


Texto por Natália Louzada, ex-aluna do curso de Letras UPF.

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