Sintaxe e Pandemia: uma experiência de afeto é um livro de memórias organizado por mim (Dra. Marlete Sandra Diedrich) com os graduandos da disciplina de Sintaxe I. A obra apresenta textos dos graduandos, de alguns bolsistas, das professoras Gabriela Prym, então coordenadora do Curso de Letras, e professora Patrícia Valério, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. A experiência foi muito importante para todos os envolvidos, porque representou um trabalho conjunto, com repercussões muito singulares na vida de cada um dos autores. Somos muito afortunados no Curso de Letras por termos graduandos tão sensíveis, humanos e afetuosos. O livro como realidade material é apenas parte desta vivência tão significativa. Muito mais importante do que o livro em si estão os momentos que perpassaram esta publicação: o nascimento da ideia, a leitura emocionada dos textos em aula, as lágrimas contidas e as não contidas, o projeto de capa, a entrega dos exemplares de cada autor, a publicação de alguns textos na Letrilhando, as edições do Sarau de lançamento, e tantos outros.
Não temos a intenção de comercializar a obra, mas queremos poder compartilhar nossas memórias com aqueles de quem mais gostamos: nossa família, nossos amigos, nossos colegas, nossos professores. Por isso realizamos as ações de publicação nesta revista e também os Saraus de lançamento. Temos certeza de que, como diz o título da obra, vivenciamos, durante o distanciamento físico provocado pela pandemia, uma verdadeira experiência de afeto, e poder reviver esta experiência com mais pessoas é muito gratificante.
Gleisson, um dos autores, expressa os sentimentos envolvidos ao produzir um dos textos do livro:
Me chamo Gleisson Pedroso França, sou estudante do curso de Letras na Universidade de Passo Fundo e, busco aqui, relatar a experiência da qual fiz parte durante o semestre de sintaxe I: articular uma memória marcante para mim juntamente com a sombra que a pandemia do Coronavírus instaurou sobre nós. A ideia da produção do pequeno livro-memória, trabalhada com o auxílio da professora Marlete Sandra Diedrich, e que leva o título de Sintaxe e Pandemia: uma experiência de afeto, nasceu do delicado momento que todos nós, alunos e professores vivemos. Cada texto traz consigo um pedaço marcante da vida de quem o escreveu, assim, minha história narrada marca uma lembrança carinhosa e que compartilharei aqui com vocês…
Da vida sempre seremos alunos
Acredito que algumas memórias por mais distantes do hoje possam um dia perder a sua cor original. A tonalidade das imagens e o corpo como prova de que certas sensações vividas não se conjugam como uma forma restrita ao passado, mas sim, transpassando as barreiras simbólicas das marcações do tempo longínquo. E nesse arquivo tão pessoal, da memória, uma cena aos requintes de filmagem se reproduz para mim: minha mãe saindo do hospital para casa depois de um mês internada.
Há seis anos, eu acreditava que mães não ficavam doentes e que pandemias eram coisas de outro planeta, não do nosso. Até em meados de 2014 uma pancreatite acometer minha figura de homem de ferro maternal e desconstruir algumas verdades tão sólidas para um jovem filho. A casa, acostumada com o movimento dos seus integrantes, agora assistia calada, a mim, minhas indagações, e do porquê de uma falha sistemática no organismo ser capaz, talvez, de desligar uma vida.
Um mês alternando entre a linha tênue que dividia a esperança da incerteza, do que virá, do que será dali a poucos minutos, horas ou semanas… distribuídos no decorrer das três fases do dia. Por certo, o destino reservava entre essas incógnitas o que viria a ser o meu melhor presente futuramente, a recuperação de minha mãe e consequentemente a alta hospitalar. E, naquele dia, a cidade não era a mesma, as pessoas não eram as mesmas e todos os detalhes estavam redimensionados a uma outra órbita, todos, mesmo sem saber, eram meus telespectadores efervescidos pelo final feliz, naquelas escadas do hospital em direção à casa, com minha mãe.
Outra verdade cai por terra, aquela de que pandemias não fariam parte da nossa rotina em algum dia de nossas vidas. Aqui estamos, situados no meio dela. E, nessa forma de viver distanciados, de reinventar o cotidiano, o recado metafórico que o vírus quer nos dizer, pois talvez, ele mesmo nem saiba que existe, se configura em nos advertir que nossa espécie não é detentora do controle de todas as coisas. Mais um período de nebulosidade se instaura, mas, dessa vez, para todos nós em uma onda conjunta de questionamentos, sobre, como será o futuro. De uma coisa tenho certeza, todos nós temos memórias que nos acalentam em tais épocas, essas mesmas que nos permitem sonhar com um final feliz, seja da saída de um ente querido do hospital, ou do dia em que estaremos novamente nos abraçando, ao vivo e em cores, sem a preocupação de isso ser motivo de perigo. Seguimos confiantes.


Texto por Dra. Marlete Sandra Diedrich, professora da graduação e pós-graduação do curso de Letras-UPF .
Memória produzida por Gleisson Pedroso França, graduando em Letras.