Tem uma Traça no teto

O celular despertou: 7h22min. Desliguei o despertador. O celular despertou: 8h. Apertei o botão errado. Cara de enfado. Desbloqueei e desliguei. O celular despertou: 9h30min. Desliguei. Coloquei o celular na cama ao meu lado e ainda no escuro olhei para o teto e suspirei. Todo o dia a mesma coisa… de noite, penso em acordar cedo e ser produtiva, tomar um bom café, quem sabe fazer exercícios e, então, ao trabalho. Mas de manhã eu desligo o despertador e me desligo. Durmo. Acordo no terceiro… talvez quarto alarme. Como agora, em que estou na cama e olho o teto, penso em tudo e em nada ao mesmo tempo. O que vou fazer para comer no café da manhã? Viro para o lado e fecho os olhos um pouco, mas há uma presença ali, ao lado, e ela pesa. Mais de 20 livros para ler e eu aqui de preguiça? Repreendo a mim mesma em silêncio, me culpo por todas as vezes que fiz exatamente a mesma coisa. Então me viro e sento na cama, como se não tivesse descansado nada. Levanto.

Na mesa me espera o pão de sempre. Durante o café, me alimento de ansiedade. As mil coisas que tenho para fazer aparecem em minha mente como se fosse uma música em velocidade dobrada. Dez minutos depois, café tomado, volto para o quarto. Pego um livro. “Hoje o dia vai ser produtivo, tem que ser”. Começo a ler… anoto, anoto, leio. Hmmmm… parece interessante. Leio, anoto e lá no corpo começa a vir uma sensação de cansaço de novo. Um sono que não é de mau dormir, é de mau viver. As letras na página me fazem sentido, mas não me fazem bem. Elas me enfadam, me chateiam. Não resisto a sensação, então, marco o lugar em que parei no livro e o fecho, colocando-o junto a pilha ao lado. Ela, a pilha, olha para mim como se estivesse rindo da minha cara. A pilha de livros é maliciosa e traiçoeira, parece querer me sufocar. Fica ali, no seu canto, como que a me observar, só esperando o momento oportuno e então…

Ignoro aquele olhar sarcástico dos livros. Deito na cama, olho para cima. Tem uma traça no teto. Não. Erro. Tem uma Traça no teto. Há quanto tempo será que ela está ali? Lembro de já ter visto ela antes. Mas e por que eu não peguei uma vassoura e tirei? Encaro a Traça e ela me encara. Nossas diferenças de tamanho são óbvias. Eu, uma pessoa, que apesar de pequena tenho mais de um metro e meio. Ela, a Traça, um inseto, que não pode ter muito mais que um centímetro. Um inseto, uma minúscula praga social que é varrida sem pensar ou sufocada por venenos que matam flores. Mesmo assim, aquela Traça está acima de mim. Ela me vê de cima. Penso por algum tempo em sair da cama e pegar algo para tirá-la de seu trono. Mas não saio do lugar e continuo a encarando, como se ela fosse minha Gioconda de sorriso que não sorri. Algum tempo depois percebo a situação: estamos sozinhas, somos eu e a Traça – e o monstro pilha-de-livros. O pequenino inseto é o ser mais próximo fisicamente no momento, e, pelo que me lembre, já faz algum tempo que ela está ali, me olhando. Será a Traça um anjo que me guarda? Ou será um grande irmão que me observa secretamente? Decido considerar ela minha amiga, uma daquelas que te aconselham e dão tapinhas nas costas quando você está triste. Quero lhe escrever uma carta… Mas como começar?

Pego um caderno na cadeira ao meu lado e um lápis perto do monstro pilha-de-livros. Levanto-me apenas um pouco e começo a escrever: “Querida Traça…”. Paro. Risco tudo que escrevi. Lembro que muitas vezes a palavra “querida” é mais usada para pessoas que a gente não gosta do que para amigos de verdade. Não. A Traça é uma boa amiga. Ela merece mais que “querida”. Troco de folha. Recomeço a escrita: “Minha amável amiga Traça…”. Paro novamente. Mas o que eu deveria escrever para ela? Digo… O que eu tenho para contar? Já faz meses que não saio de casa. O único lugar que frequento é o mercado aos sábados. Não vejo filmes, não saio para passear. O que dizer quando não há nada a dizer? Bom, não é como se não tivesse nada a dizer. Muitas coisas me aconteceram e eu aconteci em muitas coisas. Mas é que faz tanto tempo… tanto tempo desde um último abraço, desde aquelas conversas de perto, desde o olho no olho e do frente a frente. Tudo mudou tão rápido e não senti o tempo passar, não vi esse tempo que se foi porque o monstro pilha-de-livros mexe com a sua mente e não deixa você perceber… Ele é manipulador e mesmo que não sufoque você realmente, vai sufocar os seus pensamentos. Então me sinto ocupada, me sinto ansiosa, me sinto cheia… mas não sinto o tempo. E só agora, olhando a amiga Traça percebo quanto tempo faz.

Quanto tempo faz desde a última vez que fizeram cafuné nos meus cabelos e aquela sensação maravilhosa de bem-estar passou pelo meu corpo todo? Não sei dizer. Resolvo começar contando o momento de agora, minha realidade. Pego o lápis e continuo: “Minha amável amiga Traça, ando cheia de palavras e vazia de amores…”. Olho para a Tracinha. A Traça está aqui, na minha frente, ou melhor, acima de mim. Cartas não são escritas para pessoas (ou insetos) que estão longe? Já faz tanto tempo assim que não falo com alguém tão de perto que agora já nem sei como fazer? Tem que tudo ser uma comunicação a distância? Com raiva me sento na cama, arranco a folha que escrevi. Amasso. Jogo no chão e a olho com raiva, como se fosse um traidor ou coisa que o valha. Suspiro longamente e fecho os olhos. 

Por um momento, lembro de todas as vezes que andei de ônibus pela cidade. Atravessava toda a cidade, todos os dias, só para ir à aula. Quase uma hora e meia sentada no banco de um ônibus – se tivesse sorte, na janela. Às vezes com um livro na mão. A maioria das vezes sem livro nenhum e a observar os lugares e as pessoas que passavam pela janela. De vez em quando, com fones de ouvido e a escutar Bach, enquanto finas gostas de chuva desciam pelo vidro como se mostrando um mundo úmido. Molhado, mas não menos bonito. Na chuva, as luzes brilham com mais força na noite. E assim, às vezes observando a janela, fechava os olhos ao som da música e agora chovia em mim. Uma chuva calma, como um refresco em um dia de verão. Como um banho de chuva em que você só se importa de sentir a água invadir o seu corpo e não se preocupa com os olhares das pessoas que acham que você é louca. E assim, por uma ou duas vezes, adormecia e esquecia de descer no ponto certo. Outras vezes, sentava em um banco e esperava o ônibus encher. E então, fingindo olhar a janela, escutava as conversas entre amigos, entre casais… E tentava imaginar quem eram aquelas pessoas e como seriam as suas histórias. Tentava adivinhar um final ou outro para o tal “causo” que estavam contando. Me divertia muito conhecendo pessoas que nunca conheceria. Imaginando pessoas que existiam de outras formas. Eu sempre gostei de andar de ônibus, mas nunca senti falta disso. Acho que só sentimos falta de alguma coisa quando não podemos mais ter ou fazer. Passei a sentir falta da volta de ônibus e do visitar pela janela a alma dos outros, pois também isso me foi tirado.

Sinto-me triste. “Talvez o dia não seja tão produtivo, e tudo bem”. Lá do lado o monstro pilha-de-livros me atira palavras secas: “Tudo bem, quero só ver quando chegar a hora, e aí? Você vai ter lido? Cadê sua produção? Você não faz nada o dia todo e ainda acha que está tudo bem!” Tranco os olhos e fecho os ouvidos. Finjo que o monstro pilha-de-livros é o inseto, daqueles bem irritantes que zunem na sua cabeça. Ignoro. Volto a deitar e a encarar minha amiga, que continua me olhando tão de perto e de cima. Sorrio para a Traça:

– Sabia que um dia eu andava de ônibus e gostava disso? Que boba eu era.

A Traça me sorria complacente, um sorriso de alguns milímetros. Era como se ela dissesse “Deixa de drama, pelo menos você ainda pode viver pra lembrar das voltas de ônibus. Não se preocupe, estou aqui.” Eu sorrio para ela novamente e ficamos assim por alguns instantes. Então me lembro das coisas que imaginei fazer quando acordei e pergunto:

– Será que um dia isso vai acabar? Será que as coisas vão voltar ao normal? Eu tenho tanto para fazer e, por mais que faça, parece que nunca acaba. Todo dia esse monstro aqui do lado cresce e não dá nem tempo de pegar pó… 

Ela me olha pensativa, mas não diz nada. Continuo:

– Nunca pensei que uma doença pudesse parar o mundo. Não da forma como acontece. De repente tudo muda, e para sobreviver é preciso parar, isolar e esperar. Mas esperar o quê? Às vezes me pergunto, se já começo a me esquecer do como era antes, o que tenho para esperar? Também… às vezes… penso… que falta faz um abraço…

Minha amiga Traça com o coração pesado, deixa algumas milimétricas lágrimas saltarem. E como que para não a deixar sozinha, deixo meus olhos lhe fazerem companhia. Já minha boca quer participar e não sabe como, se abre num leve sorriso. Se é possível sol e chuva, por que não um sorriso com lágrimas? Às vezes parece até que ela quer sair de lá de cima e vir até mim. Me dar o tão esperado abraço. Mas se eu abraçasse um ser tão pequenino, o que seria dele? Limpo as lágrimas:

– Tudo bem. Pelo menos você está aqui comigo.

E é como se a pequenina me olhasse com um olhar amoroso e ao mesmo tempo brincalhão: “Eu sempre estive aqui, sua boba”. E sim. Ela já estava ali há algum tempo. Lembrava vagamente na memória de outras vezes que havia olhado para o teto e a visto ali, como que esperando por minha companhia. Sempre no mesmo lugar, ela cuidava de mim quando nem eu cuidava. Um ser tão humano quanto outras pessoas que conheci. Um ser mais humano que o terrível monstro pilha-de-livros. E então eu soube. Eu olhei para minha amiga e soube que eu ainda teria o que esperar. Descobri, naquele momento, que algumas coisas são esquecidas, porém há sempre algo que fica e resiste a prova do tempo e da distância. Minha amiga Traça resistia, ao tempo e ao momento. Muitas outras coisas iriam resistir. Então, com um sorriso verdadeiro de amor agradeci ao pequeno inseto por conversar comigo, e, mais do que isso, por me ouvir. Por simplesmente estar ali e me fazer ver que há um depois. Num lapso momentâneo todas as minhas tarefas passaram na minha mente, mas eu me perdoei. Me perdoei por ficar deitada a passar um tempo com uma amiga querida. E assim, aos olhos da Traça me cuidando com carinho, acabei por adormecer. E tudo bem. Mas que falta faz um abraço…


Texto por: Marina de Oliveira – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo (UPF).

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