Contando com o fato desta nova proposta “A arte que fica” relacionado aos sentimentos causados pela pandemia […] venho com uma nova publicação, esta identifica a angústia que este momento me causou.
(Relato do autor sobre seu processo criativo)
Estou devendo e por isso estou vivo.
Estou devendo abraços para os meus amigos
Estou devendo espaço para fazer meu abrigo
Estou devendo sobriedade para com meu vício
Estou devendo dinheiro para quem sabe que existo
Estou devendo discos para minha alma e meus ouvidos
Estou devendo exercícios para meu corpo faminto
Estou devendo sexo, para minha libido
Estou devendo vida, para conviver comigo
Estou devendo arte, para quem espera meus escritos
Estou devendo música, para quem só escuta gemidos
Estou devendo palavras, para dizer o que sinto
Estou devendo sol, para um quarto tão antigo
Estou devendo ervas, que limpam, regeneram e alucinam
Estou devendo corpo, para quem me quis consigo
Estou devendo alma, ao diabo que assinou contrato de retorno infinito
Estou devendo oxigênio, quando fumo na poltrona, desiludido
Estou devendo trabalhos a professores, que não me tem nada íntimo
Estou devendo corredores, nestas telas iluminadas de conflitos
Estou devendo sonhos, nesta realidade que me faz mais tímido
Estou devendo muito, e só por isso é que estou vivo
Estou devendo sangue, que no momento não é sacrifício
Estou devendo vida, para quem desta carne foi corrompido
Estou devendo… Não me envergonho!
E parte de mim se nega a pagar o que foi prometido
Estou devendo e isso é certo, estou devendo e não nego
Estou devendo e o gerúndio da vida é o meu sentido
Que falta me faz pagar, que falta me faz ser honesto
Mas como é bom estar em dívida, isso me impulsiona para a vida
E no tempo limitado da raça humana, em débito de essência
Eu estarei sempre angustiado com possibilidades da existência
E quando em atividade pago, aquele que estava lá foi apagado
Enquanto de fato me sinto, imponho-me ao futuro que eu ainda não existo
Texto por Cristopher Dallo, Graduando do Curso de Filosofia, UPF.