Escrever, para mim, sempre foi um refúgio, um desabafo. […] Nesse período da pandemia não poderia ser diferente, tal prática serviu para lidar com o medo do futuro, os fantasmas do passado e as mais distintas reflexões que se apropriaram do pensamento nos momentos a sós, que de repente foram tantos.
(Relato do autor sobre seu processo criativo)

Tudo o que vai acontecer agora é água
Que escorre pelos medos
Que se esvai pelas mãos
Em sedento desapego
O momento efêmero
Vai virando passado
E o presente é ação
Tudo que vai acontecer agora
Será depois um estado de ausência
A vida em movimento se ancora
Na fração de cada segundo
Que não pede licença
Tudo que vai acontecer agora
Será engolido pelo tempo
Irmão primogênito da história
Gênio do acontecimento
Baú de restos da memória
Pai do rígido relógio
Implacavelmente atento
Tudo o que vai acontecer agora
É vento
Onde a alma em desalento
Procura um significado
E a chama do viver instantâneo arde
Como se o futuro brotasse
De um sorriso ensolarado
Tudo o que vai acontecer agora
Gera um estado de espírito
A fauna dos nervos à flor da pele
Impele a vida a florescer no gesto infinito
Tudo o que vai acontecer agora
Não pertence a mim nem a você
É um ciclo que se renova
Para além dos planos que se pode fazer.

Texto escrito por Paula Rios da Cunha, formada em Letras pela Universidade de Passo fundo e mestranda em Letras pela mesma instituição. Professora na Rede Estadual de Ensino.