
Ao fim de mais um ano chega aquele (in)conveniente momento em que nos colocamos diante de toda sorte de reflexões. E refletir, num ano em que vivemos uma pandemia que ceifou milhares de vidas mundo afora, é essencial. Diante disso, eu poderia pensar e escrever, simplesmente, sobre o que eu deveria ter feito mais em minha vida, mas, no meu atual momento, não vislumbro falar sobre isso sem pensar no que eu não devia ter feito, mas fiz.
Ora, se não direcionei energia fazendo o que, hoje, creio que devia ter feito é porque estava investindo meu tempo em outras coisas. Coisas que, atualmente, eu sei que não deveria ter feito. Ou, no mínimo, devia ter feito menos.
Em quase quatro décadas muito bem vividas de vida, inclusive quando erroneamente experimentadas, sei que eu deveria ter julgado menos, criticado menos e, consequentemente, projetado com menos frequência meus recalques nas outras mulheres. Afinal, quando julgamos, não falamos sobre o outro, falamos sobre nós: projetamos nele os nossos defeitos e fraquezas, talvez para não encarar nossa pequenez.
Logo, chego à conclusão que eu devia ter percebido melhor o que eu sentia e queria e, ao invés de me adequar ao ideal alheio- forjado no machismo patriarcal- a meu respeito, eu deveria ter sido inadequada a ele mais vezes.
Eu não devia ter tentado ser perfeita com tanta frequência para poder experimentar mais vezes a liberdade de não buscar uma vida calcada em cartilhas: nasça, cresça, estude, se forme, ‘ganhe dinheiro’, case, tenha filhos e etc.. Assim eu poderia ter gozado (mais) plenamente da minha liberdade, mas, infelizmente, durante muito tempo eu me resumi ao ideal de mulher que o mundo dizia que eu deveria ser. E uma mulher assim não é livre, pelo contrário, recalca seus desejos e julga as que são libertas!
Eu não devia ter sido uma mulher que reproduz o machismo, no entanto em boa parte da minha vida fui adequada ao mainstream que hoje abomino. Ocorre que segui-lo era o que eu sabia, o que me foi ensinado e, claro, o que via acontecer ao meu redor.
Hoje, eu creio que não deveria ter agido como agi, pensado como pensei e escrito o que já escrevi como se eu fosse a senhora dona da verdade universal. Ah, quanto asco eu tenho da minha arrogância juvenil! Mas hoje eu sou mulher, antes eu apenas achava que era uma. (Porque sim, numa sociedade machista nós não nascemos mulheres, nos tornamos mulheres!).
A vida é feita de escolhas, este é um fato. Se soubermos lidar com o resultado das nossas, talvez não tenhamos um fim pensando no que deveríamos ou não ter feito e, quiçá estaremos em paz conosco, pois cientes de que, dentro de cada fase e período, agimos da (melhor) forma que poderíamos agir diante de quem éramos e do que sabíamos em tal momento.
E o que é a vida se não um eterno desconstruir para construir? Que graça teria a nossa existência sem nosso aprendizado constante e, consequentemente, sem nossa mudança e evolução? Logo, não quero chegar ao fim pensando no que eu devia ou não ter feito.
Quero terminar essa trajetória contente sabendo que, em cada momento que vivi, eu fiz o que podia conforme o que sabia. E irei me perdoar por não ter sido sempre plausível, equilibrada e justa. Fiz o que pude e sempre fui leal às minhas verdades, por mais inverídicas que elas tenham se mostrado posteriormente. No final, acho que este será um fim libertador!
Crônica escrita por Cláudia De Marchi, graduanda do nível II do curso de História, na disciplina Leitura e Produção de Textos ministrada pela Prof.ª Me. Mariane R. Silveira