A carreira no exterior e o curso de Letras: como o exemplo de Sidriana pode nos inspirar

Quem nunca pensou, pelo menos uma vez, em explorar novos horizontes e sair do país? Seja por medo, falta de informação ou por motivos financeiros, a maioria é levada a deixar esta ideia de lado e segue sua vida normalmente por aqui. Contrariando as expectativas, Sidriana Scheffer Rattova, egressa do curso de Letras, decidiu se aventurar na Inglaterra e, por sua coragem de desbravar o continente europeu, foi escolhida para ser a entrevistada desta edição da Letrilhando.

Formada em Letras pela UPF em 1994, começou a dar aulas antes mesmo de concluir a graduação, na rede pública municipal de Serafina Corrêa. Trabalhou muito tempo com a disciplina de Língua Portuguesa, assumindo posteriormente as aulas de Língua Inglesa. Em 2004, abriu a própria escola de idiomas, no mesmo município. Algum tempo depois, mudou-se para a Inglaterra, onde reside atualmente e trabalha como professora de inglês para estrangeiros. Sua trajetória acabou gerando um convite para que participasse da abertura do ano letivo de 2021 do curso de Letras e, pela grande pertinência de sua fala e a curiosidade em aprofundarmos os assuntos debatidos nessa oportunidade, decidimos ouvir mais uma vez seu relato. 

Foto Sidriana

Letrilhando entrevista:  Sidriana Scheffer Rattova

Letrilhando: Há um momento em especial da sua vida que nos deixa cheios de curiosidades: sua ida à Inglaterra. Por isso, gostaríamos de saber: era um sonho ou plano sair do país? Como surgiu essa oportunidade? O que motivou a escolha pela Inglaterra? 

Sidriana Scheffer Rattova: Eu acredito que quase todo mundo deseja em algum momento viver no exterior. Porém muitos não fazem disso um projeto de vida. Na verdade, eu também não tinha isso como minha principal meta. Eu já morei por algum tempo nos Estados Unidos, estudei inglês no Canadá, porém sempre retornei à minha cidade natal. Em 2008, eu organizei uma viagem à Inglaterra com os alunos da minha escola de idiomas de Serafina Corrêa. Quando chegamos em Londres, eu simplesmente me encantei com a cidade e o país em geral, foi então que decidi que, se houvesse alguma oportunidade, eu iria morar na Inglaterra.

Passado algum tempo, uma grande amiga que morava na Itália mudou-se para a Inglaterra e eu vi a oportunidade da minha filha, com 18 anos na época, poder estudar no Reino Unido. Todos sabemos que não é tão simples conseguir visto para residir, não apenas no Reino Unido, mas em qualquer outro país, e que estudar no exterior pode ser muito caro. No entanto, para quem tem passaporte europeu (e não é raro encontrar pessoas na nossa região que tenham cidadania europeia, principalmente a italiana) fica muito mais fácil.

Assim, a convite da minha amiga, minha filha mudou-se para Doncaster, uma cidade localizada no norte da Inglaterra. Conseguiu um trabalho e, dois anos depois, começou a cursar Psicologia. Durante este período, fui conhecendo melhor o sistema educacional do país, as oportunidades de trabalho para estrangeiros e descobri que as minhas qualificações obtidas no Brasil seriam reconhecidas aqui. Além disso, havia (e ainda há) uma grande demanda por professores de inglês como segunda língua; logo vi uma oportunidade de conseguir um trabalho na minha área de atuação.

Então, decidi proporcionar ao meu filho caçula a oportunidade de cursar o ensino médio na Inglaterra e dar a mim mesma a chance de poder trabalhar como professora no exterior. Consegui meu primeiro trabalho em um “college” dois meses depois de ter me mudado, como professora horista de ESOL (English for Speakers of Other Languages/ Inglês para Falantes de Outras Línguas). Depois disso, outras oportunidades começaram a surgir, e agora faço parte do corpo docente, com contrato permanente no maior college da cidade.

Concluindo, a oportunidade de meus filhos poderem estudar na Inglaterra foi o que mais me motivou a mudar para cá. Porém, confesso que a possibilidade de atuar como professora aqui também contribuiu muito para a minha mudança.

 

L: Como foi sua chegada e adaptação ao país? Já sofreu algum tipo de preconceito por ser estrangeira?

S: O início é sempre um pouco complicado. Não conhecemos o sistema e como as coisas funcionam. Mas, com calma e persistência, as coisas vão se acomodando e acontecendo. Em relação ao preconceito, não acredito que tenha sofrido algum, porém como dizem, o preconceito às vezes vem disfarçado e as pessoas não o percebem. O que eu gostaria de ressaltar é que, quando eu falo que sou do Brasil, sinto uma empatia por parte das pessoas, não apenas dos ingleses, mas dos meus alunos também, que são estrangeiros das mais diversas nacionalidades.

 

L: Como comentado na sua fala de abertura do ano letivo do curso, pouco tempo depois de chegar, você já conseguiu emprego como professora, além de perceber que a demanda por professores de línguas é grande. Em algum momento, passou pela sua cabeça que o curso de Letras (de uma forma geral, levando em conta a formação em Inglês e/ou Espanhol) possibilitaria oportunidades de trabalho tão boas na Inglaterra?

S: Eu tinha certeza de que iria arrumar algum trabalho por dominar o idioma, mas confesso que jamais imaginei que iria lecionar inglês na Inglaterra. Percebi que isso poderia ser real quando minha amiga, que também era professora de inglês no Brasil e formada na UPF, já estava lecionando inglês aqui e que é muito fácil e barato solicitar a validação dos nossos diplomas de graduação e pós graduação no Reino Unido.

 

L: A formação em Letras por si só já abre oportunidades de trabalho na área, ou é preciso ter especialização, mestrado ou doutorado?

S: Não há necessidade de mestrado ou doutorado para lecionar inglês para estrangeiros aqui. Ter formação em Letras ou área afim é essencial, pois aqui nosso diploma adquirido no Brasil é reconhecido integralmente e nos possibilita lecionar no ensino fundamental, médio e colleges. Para lecionar inglês, eu sugiro, além da graduação, uma pós-graduação em Ensino de Inglês como Língua Estrangeira (que é a que eu tenho) ou CELTA.

 

L: O professor é valorizado (profissional e financeiramente) na Inglaterra? E a educação de uma forma geral?

S: Eu acho que é como qualquer outro profissional, considerando que o salário de um professor aqui é compatível com a média nacional de outros profissionais. Porém, segundo dados do governo, a escassez de professores tem se tornado um problema muito sério no país e há muitos incentivos financeiros para quem quer se tornar professor aqui.

 

L: Pessoalmente, o que mais lhe impressionou no novo país e de que você mais sente falta da sua terra natal?

S: Fico impressionada com a organização e o planejamento. Tudo (ou quase tudo) funciona muito bem e é muito organizado. Em relação à minha terra natal, sinto falta da família e amigos.

 

L: Que mensagem você deixa aos acadêmicos recém formados ou em formação no nosso curso de Letras, que encontram um futuro desafiador na educação brasileira.

S: Qualifiquem-se e saibam que é possível seguir a carreira de professor em outros países. Aqui na Inglaterra, nossos diplomas são reconhecidos integralmente e nos capacitam a atuar como professores em qualquer disciplina. Ressalto aqui que, para quem é professor de espanhol, as oportunidades de lecionar em escolas são imensas, sempre há muita oferta.

Que essas belas palavras de Sidriana nos inspirem em nossa trajetória de acadêmico, egressos, profissionais, professores. Que seu exemplo desperte nossa curiosidade em desbravar o mundo, aproveitando todas as oportunidades que nosso curso nos proporciona. Caso tenha perdido a fala de Sidriana na abertura do ano letivo, você pode conferir a seguir: 


Autoria: Francismar Furlanetto, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo

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