Algo lá fora

Parou de chover lá fora. Sei disso porque o barulho no telhado se reduziu ao som das goteiras. Também porque consigo ver parte do jardim pela janela da cozinha, com o morro e o céu noturno ao fundo. Só alguns pingos aqui e ali. Estava chovendo quando cheguei do trabalho e li o bilhete sobre a mesa. Continuou a chover enquanto eu pedia algo para comer e depois, enquanto eu jantava. Só agora o céu se abriu, enquanto lavo a louça acumulada de uns dois… ou três dias atrás. 

“Saí com os rapazes. Não precisa esperar acordada. Beijo, Jonatan”, dizia o papel amarelo, sobre a mesa. Não seria a primeira vez e estava tudo bem. A noite serviria como minha companhia. Me desfiz dos sapatos, da bolsa e do lenço enquanto atravessava a sala, jogando-os no chão, pronta para desabar no meu grande sofá verde que me recebeu de braços abertos. Três cigarros solitários me encararam de dentro da carteira vermelha ao lado do abajur; eles deveriam durar até o intervalo do almoço de amanhã. “Se eu me controlar, se eu realmente me esforçar, consigo sobreviver até o almoço… agora, se eu perder a linha, posso comprar um maço no posto de gasolina do outro lado da rua, onde tem aquele aviso engraçado”. INFLAMÁVEL. “Proibido fumar neste local”, saem da minha boca as palavras envolvidas em fumaça, gentilmente carregadas para o alto, para o alto, até o teto, de onde despencam e não existem mais. Morrem na queda. 

Descalça e de cabelo solto, procuro um disco para ouvir enquanto penso no que vou pedir para o jantar. Encontrei um álbum caído atrás da mesinha da sala, entregue às sombras, e o coloco para tocar na vitrola. Segundos após o estalo que quebra esse hiato de som na casa, a voz de Virginia Astley emerge, como um espírito que se materializa na poltrona do outro lado do recinto. A poltrona do meu pai, onde, na infância, eu me sentava ao colo dele e ouvia suas histórias, suas piadas. Ele a ganhara do meu avô e a deu para mim quando me mudei para cá, como um presente de inauguração, como se dissesse “seja feliz neste lugar”, o que minha mãe traduzia como “tenha muitos filhos aqui, amamente-os nessa cadeira, sente-se nela e observe seu marido sair de casa e voltar com uma marca de batom na bochecha, como um carimbo dizendo ‘estive aqui’. Sente-se e fique observando seus filhos crescendo até o dia em que você se tornará filha deles”. A velha poltrona de histórias de papai, com fissuras no couro, de dentro para fora.

 “O tempo vai passar e os amigos vão te deixar”, canto, ecoando Virginia, com suas pequenas esperanças. Ao tragar o cigarro novamente, penso nos tantos laços desfeitos nesses últimos meses e anos; aqueles que permanecem apenas fingem gostar de mim, como Vera, quando reclamou com nosso chefe sobre “todos aqueles dias em casa, afastada. Ela tem filhos pra criar? Ou um marido que se preze? O que ela tem é falta de vontade. Mesmo com algum esforço, ela não chegaria à metade do que eu faço por essa empresa”. Quando entrei no restaurante para almoçar, naquele dia, Vera me viu de longe e me chamou para lhe fazer companhia. Dividi uma fatia de torta de nozes com ela, mas guardei o chantilly e as mágoas para o final e somente para mim.

Acabei escolhendo comida japonesa. Como levaria um tempo até o pedido chegar nesse canto do mundo, decidi tomar um banho quente para limpar as lembranças do dia, enquanto o espírito de Astley rondava o meu quarto. No banheiro, a luz da sinaleira que fica no cruzamento ferroviário, oposto à casa, pintava de duas cores os azulejos brancos tão sem graça com seus floreios em tons de sépia. Azulejos de hospital, sem necessidade de uma fria lâmpada fluorescente que lhes diminua a pouca felicidade que transmitem, por isso não acendo a luz e me entrego à semi escuridão debaixo do chuveiro. Podia passar horas ali, com as luzes que atravessam a janela me banhando em dois estados de atenção. Amarelo. Vermelho. Amarelo. Cuidado, algo está vindo na sua direção. Vermelho. Pare e observe. Amarelo. É um trem que está chegando. Eles nunca partem, sempre estão chegando… em algum lugar. Vermelho. Você fica imóvel perante a mobilidade ágil do trem. Você fica parada no carro, observando indefesa os vagões passando, um após o outro, mas não totalmente imobilizada. As pessoas acreditam que nesses momentos só existe uma coisa a fazer: esperar, quando ir em frente é o melhor caminho a seguir. Deixo a água quente enternecer minha pele enquanto observo os trilhos e o jardim. A chuva escorregando pelo telhado ajuda a me desfazer do que não precisa ser lembrado. As árvores feitas de sombra se agitam com o vento. Algumas sombras se desprendem e voam sobre a casa.

Comi enquanto assistia a qualquer coisa que passava na televisão. Não estava pensando exatamente no que a tela azul me exibia. Ela não me diz muitas coisas e eu não me vejo nela, apenas quando a desligo e sou sugada para dentro daquela boca escura e vazia, com dentes de vidro. Após jantar e digerir o bilhete dele, fui para a cozinha, não sem antes pôr outro disco na vitrola. Era quase meia-noite quando Swing Slow começou a girar no toca-discos e eu respondi ao chamado que se acumulava sobre a pia, ainda sozinha, debruçada sobre pequeninos montes de espuma, alvos como nuvens, leves como um sonho. Volta e meia saíam bolhas do bico do detergente, explodindo como fogos de artifício em miniatura. Vejo pela janela ao meu lado que a chuva parou e não vai voltar. Amarelo. Vermelho.

E pancada. O estrondo do choque de aço contra aço empurra minha alma para dentro dos ossos e reverbera, enquanto o som de estilhaços salpica a minha mente com uma imagem: “É um carro que ficou sobre os trilhos. Ficou lá e o trem levou”. Imediatamente deixo o prato afundar dentro da cuba, seco as mãos e corro em direção à porta. Ao sair, uma sensação estranha me invade sob o céu sem estrelas. Dou a volta na casa até chegar ao lado que fica de frente para a ferrovia. “Não ouvi o trem passando. Como não ouvi? Eu sempre sei quando…”. Tropeço em uma raiz e vou de encontro ao chão. Ainda tremendo com o susto inicial, me levanto atordoada. Quando minha vista alcança a ferrovia, não há nenhum trem por perto. Amarelo. “O quê? Como…”. Sigo tropeçando até a sinaleira e não encontro nenhum vestígio do acidente que acabei de ouvir. Sou a única alma parada sobre os trilhos, onde o silêncio corre de um lado ao outro da estrada, imperturbado, das raízes ao topo das árvores. Não há marca de pneus na terra, nem vidro quebrado ou… “Sangue”. 

Há gotas de sangue ao redor dos meus pés e na minha saia. Sinto algo quente escorrer pelo rosto, passo a mão em meu nariz e ela volta tingida de rubro. Relutante, volto para casa, e, ao chegar aos fundos do quintal, me deparo com um par de balanços e um escorregador azul. Eles não estavam ali antes. O que mais me surpreende é que eles são muito semelhantes aos da escola que eu frequentava quando criança. “Isso não está certo”. O balanço desafia a razão, transfigurado no tempo. Me aproximo dele e reconheço a tinta descascada das tábuas do assento, a ferrugem corrompendo as correntes. Toco na barra também enferrujada e os brinquedos cintilam, encurvados como se vistos pelo retrovisor de um carro em uma viagem madrugada adentro.

Me afastando, de costas, sinto um filete de água fria escorrer dos meus cabelos até o tornozelo e me dou conta de que eles estão encharcados. “Mas eu os sequei bem após o banho…”. Esta noite é diferente de todas as outras: aos poucos, uma certeza vai se revelando, enquanto atravesso a porta da casa. Os estalos do disco estão em todos os cômodos e, da sala, ouço o barulho da torneira espirrando água. “Devo ter deixado aberta quando saí”. 

Ao entrar na cozinha me encontro caída em frente à pia, de costas para o chão, com os olhos pregados no teto e a boca levemente aberta. A água da cuba transbordou e agora se derrama sobre o piso, molhando meus cabelos, transformando as mechas loiras em um tom qualquer de amarelo, tal qual o de um milharal seco. Como um afluente, uma outra substância se junta à água acumulada em volta do meu corpo. Livre e intencional. Vermelha.


Conto de João Augusto Reich da Silva, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras da UPF / joaoaugusto.dv@hotmail.com

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