Para que o grande sistema – a língua – funcione, seja em forma de discurso oral, seja em forma de escrita, há duas engrenagens principais que precisam rodar juntas. Essas engrenagens correspondem aos eixos sintagmáticos e associativos das palavras, ou seja, cada signo é escolhido em vista do discurso e pensado, mesmo que inconscientemente, a partir de outros signos e do próprio sistema. De maneira prática, cada peça desse projeto sabe para qual lado precisa girar pela observação de peças anteriores que giram neste ou naquele sentido. Sendo assim, a engrenagem sintagmática serve ao caráter linear da língua, mostrando aos signos onde eles devem ficar e como devem se comportar. Se “verde” pode ser substantivo em “o verde das matas” e adjetivo em “um caderno verde”, é graças ao mecanismo do sintagma. Dessa mesma maneira, a construção de um enunciado segue formas predefinidas, sendo possível a composição “o menino foi para casa” e nunca “casa menino foi o para”, e essas combinações resultam tanto do entendimento de língua como sistema coletivo quanto do conhecimento prévio individual. Contudo, essa engrenagem não roda sozinha, ela precisa que a peça das relações associativas funcione, fazendo com que cada signo seja relacionado a outros pela sua forma, seu significado e até seu som. Nesse mecanismo de associações, “Ensinamento” é relacionado com “enfraquecimento” e “acasalamento” pela sua terminação, assim como é relacionado com “ensinar” e “ensino” pelo seu radical, e, mais uma vez, relacionado com “instrução” e “aprendizagem” pelo seu significado. Assim como no eixo do sintagma, as relações associativas entre signos ocorrem por meio do uso coletivo do sistema e pelo entendimento e memória de cada indivíduo.
Tendo em vista o funcionamento supracitado da língua, pode-se assumir que cada idioma, entendido como uma versão independente do mesmo conjunto de mecanismos, tem suas peças específicas e seu funcionamento diferenciado. Dessa maneira, a tradução, seja ela entre dois idiomas quaisquer, é um desafio constante. É preciso ter em mente que uma palavra não é usada no discurso somente pelo seu significado. Há outras conexões que precisam ser observadas, como as relações que o signo estabelece com outros associados e o seu papel diante do sintagma. Como o próprio CLG diz:
[…] não basta dizer, colocando-se num ponto de vista positivo, que se toma vamos! porque significa o que se quer exprimir. Na realidade, a ideia invoca não uma forma, mas todo um sistema latente, graças ao qual se obtêm as oposições necessárias à constituição do signo. (SAUSSURE, 2012, p. 179)
Dessa maneira, é possível tomar os estudos de Saussure de exemplo, uma vez que é de conhecimento geral a distinção que ele faz entre “língua” e “linguagem”. No inglês, essas duas palavras normalmente são traduzidas para “language”. Da mesma maneira, a palavra “saudade” não possui um correspondente direto no inglês, sendo traduzida, numa tentativa de descrição do sentimento, para a expressão “miss” (sentir falta).
A língua se mostra um sistema de mecanismos ainda mais complexos ao observar-se que os desafios não estão apenas na falta de correspondência entre os signos de dois idiomas, mas também na própria estrutura e formação dos discursos que envolvem esses signos. Tendo o inglês como exemplo novamente, a linearidade do sistema é apresentada como em qualquer outro idioma, mas a ordem dos signos é invertida se compararmos ao português. Por exemplo, para falar “casa amarela” é usada a forma “yellow house”, ou seja, substantivo e adjetivo apresentam-se na ordem inversa. Diante do demonstrado, o tradutor não pode realizar a passagem de uma língua para a outra somente olhando para o significado do signo, é preciso conhecer os dois sistemas e os mecanismos próprios de cada idioma. Indo ainda mais além, é possível dizer que um determinado texto em inglês jamais corresponderá perfeitamente a sua tradução no português, mesmo que esta seja feita da forma mais fiel possível, pois uma vez que o discurso é traduzido, mesmo que se busque reter o mesmo significado em seus signos, já houve alterações nos mecanismos.
Conclui-se, portanto, que o sistema linguístico não só apresenta mecanismos próprios em cada idioma como também um funcionamento diferente. Contudo, as peças que permitem a ação desse sistema continuarão regidas sobre o eixo sintagmático e associativo. Tendo em vista que um signo é aquilo que todos os outros não são e que a união dos signos resulta em um sistema, pode-se dizer que cada idioma é único e intraduzível graças às alterações em seus mecanismos e à incorrespondência de seus signos.
BIBLIOGRAFIA:
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 2012. 312 p.
Ensaio de Eduarda Vitória Geremia, acadêmica do 3º semestre do curso de Letras/Inglês – UPF
Produzido a partir de proposta de trabalho da docente Marlete Sandra Diedrich, na disciplina de Linguística I