Era uma vez um livro chamado… Na resenha de hoje falaremos sobre… E a obra escolhida… Como primeira edição da coluna… Me chamo Denny e vou… Arte é vida e vida é… A gente tem tanta coisa para conversar… Você já deve ter ouvido falar… Nessa semana o tema…Imagine você ser interrompido várias vezes enquanto tenta escrever um texto, ao ponto que isso faz você se irritar e jogar tudo fora justamente porque não consegue manter o pensamento focado nas palavras, na linha que o texto tem que seguir e nas ideias que quer expressar. É frustrante. Com certeza que é. Ninguém é um poço de paciência e nem preciso falar muito. É uma loucura sacana quando ninguém quer calar a boca e a escrita não rende. Particularmente sinto que meu cérebro entra em epifania. É caos. Em dado momento até as paredes tornam-se alvo de incômodo.
Agora imagine que essas intervenções todas pudessem, vamos dizer assim, ser registradas no papel ou nas letrinhas da tela, como em uma gravação, com tamanha semelhança temporal e tão fidedigna em relação à vida que quem quer que as lesse pudesse acompanhar, ouvir e até mesmo reagir a tudo enquanto lê, como um podcast ou uma conversa em tempo real. Os furos do roteiro tornam-se o cujo e você nem consegue lembrar qual era o foco inicial porque descobre que ele simplesmente não importa mais (e pode ser que nunca tenha importado). A verdade é que seria bem mais interessante, concorda? Eu acho que sim. Ainda mais se eu fosse leitor de um(a) escritor(a) e a sua literatura, os seus traços e as suas características culminassem, sendo o resultado algo parecido disso. Seria uma façanha de alto nível. A exemplo disso é o monólogo da nossa mais brilhante modernista, que é Clarice Lispector, chamado por aí de “Água Viva”.
Quando digo que Lispector “é” a mais brilhante modernista, me refiro à artista Clarice que encontramos nas obras publicadas, porque a escritora Clarice, Clarice mesmo, morreu e já faz um tempo. Ela nos deixou em 1977 e pouco antes dessa personalidade sagrada da cultura nacional falecer, deixou-nos de presente, e põe presente nisso, viu!, uma obra gigantesca. A mulher era genial. Entre seus trabalhos está “Água Viva”, de 1973, que se auto intitula um objeto gritante: uma tentativa de captar a quarta dimensão das palavras, o instante-já. Nesse livro que não é bem um livro, cuja identidade está mais para uma pintura concreta feita de palavras, temos uma personagem que é a narradora dos próprios pensamentos. Pensando melhor, o preferível mesmo seria chamá-lo de “it”, “diário” ou “um coração batendo”. “Água Viva” precisa essencialmente ser lido para ser entendido, porque é um ato de enunciação puro. Trata-se de um mistério que deve ser investigado pelo leitor, uma carta aberta sobre a mesa com o lacre violado. Nele a artista rompe-se às flores, aos animais, ao tempo e às descrições metódicas de seus hábitos, tornando a narração uma espécie de devaneio contínuo, sem começo e sem fim. Fala sobre saúde, amor e morte. Pura Clarice. É, à beira das descrições, uma produção sobre a vida. Não a vida aqui e agora, estática, mas a vida atrás do pensamento. É possível, lá pelas tantas, ouvir o telefone tocar, ver a praia pela janela e se não houver praias e janelas, trate de imaginar as suas e atender o seu telefone, porque ele tocará em algum momento. Clarice criou um estilo que, longe de ser padrão, é único. É um livro que não tem segundas intenções e, mesmo assim, conversa com muitas e com a do próprio leitor, já que explode em referências advindas de seu contexto de concepção e prolifera clímax. Fala em horas exatas, instantes exatos e impressões feitas pela narradora sob a sua perspectiva, que por vezes é melancólica e trivialmente alegre.
“Água Viva” é um improviso arrebatador, profundo e pode ser encarado como uma experiência. Recomendo-o.
Resenha de Denny Freitas, aluno do Curso de Letras da Universidade de Passo Fundo