Sombra e luz em “no faro das migalhas”

Depois do sucesso de “Duas fomes“, lançado em 2017, a poetisa, letrista e professora Márcia Barbosa, mais uma vez, presenteia-nos com sua sensibilidade em “no faro das migalhas”, uma publicação da editora Class. Nesta coletânea, a palavra entrega-se à reconstituição de imagens que rodeiam a todos; imagens que, constantemente, definem e que são definidas; imagens que machucam, mas que também curam; imagens as quais poucas pessoas têm o desembaraço ou a habilidade de traduzir com clareza e precisão, como a autora o faz por meio de sofisticadas construções, as quais se revelam em migalhas poéticas.

Sob essa ótica, a obra encontra-se dividida em duas partes, atinentes às imagens delineadas em cada uma. Na primeira, denominada “Espectros e a palavra sangrada“, desnuda-se o cotidiano e a crueldade humana, sobretudo, em um tempo e um espaço em que a luz e a vida se encontram ameaçadas pela sombra num contexto aparentemente evadido de um pesadelo, mas que, por infelicidade, refere-se à vida em meio ao caos da desumanização. Logo, pela visão de um sagaz eu lírico, emergem críticas incisivas a respeito de temáticas em torno da violência em distintos níveis e contextos, como o racismo, o machismo, os problemas ambientais e o surgimento de uma pandemia avassaladora: “O planeta afogado em cifras/ mortes aos milhões chegam com o jornal/e algumas, avulsas, individuais/ às vezes íntimas/ num telefonema/ inundam nossos olhos/ flagelam nossos dias (Gota a gota)”. É a rendição da palavra frente à face violenta da realidade.

Na segunda parte, por sua vez, cujo nome é “Quase canto“, o eu lírico lança luz e esperança a esse mundo obscuro que vivenciamos. Para isso, tece imagens alusivas ao sonho, à memória e à saudade; e ressalta os elementos simples, porém belos, do cotidiano. Emergem, então, as referências musicais e seus instrumentos, a passagem do tempo e suas estações, o aroma do café evocando sentimentos e lembranças, o próprio processo de escrita e sua clandestinidade. É a vida que se manifesta, é a vida que se destaca: “Nós os sobreviventes/escapamos da morte e do desastre/ Nós os sobrevividos/restamos/permanecidos/porque nos deixamos viver/porque ficamos sem sucumbir/escondidos/ou esquecidos de ruir (Supervivos)”. Assim, as imagens se constroem e se descontroem, lançam sombra e luz à humanidade – ou seria o contrário? Não sabemos, na verdade. O que podemos afirmar com segurança é que Márcia Barbosa entrega-nos, em “no faro das migalhas”, um redemoinho de sentimentos expresso por um eu lírico atento ao seu entorno e sensível em seu manifesto. Seus versos, em consonância com o poema “Bagagem“, têm fundos falsos e neles há todo um universo de possibilidades a serem descobertas pelos clandestinos leitores que, assim como eu, lançam-se nessa viagem poética, uma experiência sensorial.


Texto escrito por Mariane Rocha Silveira, professora no curso de Letras da UPF

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