
Quando um sujeito questiona “o que significa ensinar Língua Portuguesa na escola?”, logo imaginamos que a resposta será relacionada a um ensino voltado para a Gramática normativa, já que o ensino do Português sempre esteve associado a este sistema convencional de regras. Entretanto, cabe salientar que há um universo de aspectos constituintes da Língua Portuguesa que o sistema de códigos não abarca, aspectos os quais deveriam ser adotados pelos professores de língua nas suas aulas, uma vez que acima de tudo é através da linguagem que os indivíduos se comunicam.
Partindo desse pressuposto, Benveniste (1995, p. 285) afirma que “é um homem falando que encontramos no mundo, um homem falando com outro homem, e a linguagem ensina a própria definição do homem”, assim fica evidente o papel primordial que a língua possui durante toda a existência humana: o de propiciar o contato de um sujeito com outro. Acerca disso, desvincular um pouco o ensino de Português da sua estrutura e concomitantemente da Gramática, e possibilitar um enfoque maior nos aspectos enunciativo-discursivos da língua é um meio eficaz e necessário para o desenvolvimento das competências e habilidades comunicativas dos alunos, as quais eles usarão cotidianamente no convívio social.
À vista disso, é importante que os docentes de língua materna tenham esta visão de um ensino voltado para o processo interacional dos educandos, já que eles precisam ensinar aos seus alunos as diversas maneiras deles interagirem uns com os outros, evidenciando que cada âmbito social requer um modo de manifestar-se linguisticamente, ora formal, ora coloquial, etc. Desse modo, cabe ao professor de Português desmistificar a ideia de que o Brasil é um país monolíngue e homogêneo, incluindo nas suas aulas atividades de ensino-aprendizagem que sejam pautadas no respeito às variantes linguísticas e não permita que o ensino dirigido apenas a Gramática deslegitime os diferentes modos existentes de falar.
Ademais, outro aspecto extremamente importante que precisa ser desmistificado no ensino de Língua Portuguesa é a utilização dos livros didáticos, uma vez que os docentes ao invés de utilizar as atividades propostas nos livros de modo que enriqueçam suas aulas, somente as repassam sem analisar se elas irão contribuir efetivamente para o aprendizado dos alunos. Com isso, saber olhar criticamente e com autonomia para o conteúdo dos livros, modificando e descartando determinados exercícios que não estão de acordo com as necessidades dos educandos, é um possível caminho de propiciar modificações significativas no ensino do Português.
Para tanto, o ensino de Língua Portuguesa deve contemplar aspectos orais, escritos e extralinguísticos, além de incluir métodos de ensino-aprendizagem que sejam pautados em ensinar aos alunos como se comunicar em todas as situações de uso da língua. Ademais, desenvolver o senso crítico e a argumentação deles, trabalhar a análise sintática em textos de diversos gêneros textuais que circulam nas esferas sociais bem como a interpretação e compreensão, são meios para que a utopia de um ensino de Língua Portuguesa com enfoque na busca de uma aprendizagem significativa de gramática possa vir a ser alcançada.
REFERÊNCIAS
OLIVEIRA, Luciano Amaral. Coisas que todo professor de português precisa saber: a teoria na prática. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.
BENVENISTE, Émile. Da subjetividade na linguagem. In: ____. Problemas de Linguística Geral I. Campinas, SP: Pontes, 1995.
Ensaio produzido pela acadêmica Rhaíssa Hannecker Barbosa durante a disciplina de Sintaxe II do curso de Letras da Universidade de Passo Fundo.