
Quando se fala ou se pensa em alguma palavra, pode-se ter sua projeção mental, uma ideia palpável e depois algo concreto sobre ela, seja sobre uma emoção ou um objeto. Assim funciona uma habilidade muito mais antiga do que possamos imaginar, que se chama linguagem. Mas, saber isso é algo espontâneo, já estamos no piloto automático para pensarmos isso; agora, se quisermos nos preparar para um verdadeiro abismo na mente, basta tentarmos pensar como essa linguagem surgiu. Como surgem as línguas antes das linguagens?
Para tentar responder a essas perguntas, que, por sinal, não é algo fácil, pois são objetos de estudo até hoje, volto-me para um exemplo que demonstra muito bem a percepção de um signo e como se pode constituir uma língua e uma linguagem: “Alice no País das Maravilhas” e “Alice através do Espelho e o Que Ela Encontrou Lá”, ambos da autoria de Lewis Caroll. No primeiro exemplo, é muito interessante perceber como o autor brinca com os signos e os torna completamente diferentes de como os conhecemos: um coelho age como um humano, segurando um relógio e estando sempre atrasado, ou uma lebre toma chá e profere palavras provocadoras. Como diz o título, é um país das maravilhas, modificado, novo, onde o que se encontra lá é completamente diferente, é inusitado.
Interessa-nos a segunda obra, na qual, através do espelho, Alice retorna para o país das maravilhas por meio da imagem invertida de um espelho. A parte mais interessante é quando Alice se encontra em um bosque no qual as coisas não tinham nome, ela era incapaz de lembrar o nome das árvores e, por isso, não conseguia compreender a dimensão e a realidade em torno do bosque, o que culmina em não compreender a própria realidade. Esse trecho, apesar de parecer algo simples de uma história infantil, mostra exatamente como a realidade só se forma conforme as pessoas e civilizações dão um valor e significado a isso, como o professor José Luiz Fiorin cita em seu texto chamado: “A Linguagem humana: Do mito à ciência”.
Agora, entendido que se é impossível compreender a própria realidade se não pudermos entendê-la e organizá-la ao nosso redor, pense, por que uma pedra se chama pedra no caso do português? Stone no Inglês? Pierre no Francês? Pietra no Italiano? Bem, aí estão questões muito complexas que são alvos de muitos estudos até hoje, em que padrões foram descobertos, mas não se conseguiu chegar a fonte de seu surgimento, talvez seja até mesmo impossível voltar tão ao passado. Entretanto, podemos dizer que cada signo deve ter um significado agregado, para a compreensão do mundo, e esse significado se diferencia entre culturas e civilizações, mas ao mesmo tempo possui seus padrões. Observemos que Pedra, Stone, Pierre, Pietra são empregadas em línguas diferentes, devido à suas civilizações e culturas diferentes, sendo que cada uma precisou criar sua língua, ou seja sua compreensão do mundo. Mas, ao mesmo tempo uma pedra, possui o mesmo significado universalmente, uma formação rochosa formada por elementos químicos que possui certo peso, o significado se manteve, inclusive com inspiração do latim “petra”, só foi alterado na sua língua. Isso não quer dizer que todos os objetos possuem significados universais em todas as culturas, basta olharmos para povos indígenas entre os quais certos rituais possuem objetos com significados sagrados, enquanto para outros povos, é apenas um objeto comum. A questão é que a identificação de um signo, que precisa da implementação de um significado através de uma língua criada para conseguir abranger estes significados, só é possível com uma civilização e uma base em coisas e percepções ou línguas já existentes, talvez desde as pinturas rupestres nas cavernas fosse assim.
Por fim, não há como dizer de onde veio a primeira língua criada no mundo, talvez nem como dizer qual foi realmente a primeira língua criada, muito menos em que ela se baseou, mas sabemos que ela surgiu de uma necessidade, uma necessidade de compreender o mundo, de dominar o espaço e o que há nele. Tudo isso está relacionado com a evolução e o surgimento da humanidade, com o aumento da população, com a necessidade de organização, é uma função primitiva que se estendeu até a passagem dos tempos, afinal, humanos são seres que fizeram sua evolução com uma inacreditável capacidade de aprender.
Escrito por Yure B. Ferreira, do curso de Letras da UPF