
A leitura literária precisa ser repensada na educação, ela exige muitos aspectos externos ao ato de ler (reflexão, imaginação, tempo, conhecimento de mundo), caso os leitores encarem os livros apenas como obrigação, o docente estará perdendo leitores, é o que comenta Silvia Castrillón em “O direito de ler e escrever”. É importante no trabalho com a leitura observar o leitor (estudante), os mediadores (professores), os livros, a escola e os lugares até onde a leitura chega.
A leitura literária aparece em vários tempos e espaços. Verificando as práticas de leitura em outros contextos, além da instituição escolar, é possível compreender de que modo as práticas leitoras podem ser desenvolvidas para que a escola possa contribuir com a formação de alunos leitores.
Dessa forma, a leitura literária é uma ferramenta de transformação e, portanto, ela não deve estar limitada ao espaço escolar, mas pode ser utilizada como ponte entre a escola, o leitor e a sociedade, portanto a minha proposta de trabalho teve como base a investigação de novas perspectivas de leitura em diferentes comunidades de leitores e como elas afetam a escola, o leitor e todos os envolvidos no processo, principalmente como mudança social.
Analisando essas possibilidades, desenvolvi uma atividade que levou meus alunos leitores a vivenciarem a função da prática social da linguagem.
A atividade foi desenvolvida em uma turma do sexto ano do ensino fundamental II da EMEF Firmino Frizzo de Capão Bonito do Sul/RS, na disciplina de Língua Portuguesa. A metodologia do trabalho envolveu a relação dos alunos com um Lar dos Idosos. Nesse Lar de Idosos, os estudantes leram livros literários para e com os idosos. A interação, que no início era tímida, foi tomada pela literatura e pelos livros literários. Após lerem juntos, alunos e idosos passaram a conversar sobre histórias antigas, sobre os relatos da infância dos idosos. Impossível deixar que essas histórias ficassem guardadas apenas na memória, então resolvi desenvolver outro projeto: desta vez, de produção de um livro ilustrado. Esse livro foi escrito e ilustrado pelos próprios alunos, os quais transformaram os idosos em personagens do livro. O projeto despertou tantas emoções que, nas comemorações de final de ano, quando os professores apresentam seus projetos, convidamos os idosos para irem até a escola assistirem à encenação do livro, ou seja, assistirem às suas próprias histórias de vida relatadas em teatro pelos pequenos alunos de onze anos. Todas essas atividades desenvolvidas passaram a integrar um projeto geral chamado “Vidas que envelhecem, histórias que se perpetuam”.
Infelizmente, não conseguimos retornar ao Lar dos Idosos para a entrega do livro, em virtude da pandemia do CoronaVírus, mas esse projeto com certeza não está por encerrado.
Teresa Colomer (2007) enaltece a importância de trabalhos como esse serem desenvolvidos, pois a autora, em sua publicação “Andar entre livros: a leitura literária na escola”, reflete: “Formar alunos cidadãos da cultura escrita é um dos principais objetivos educativos da escola […] o que a escola deve ensinar, mais do que “literatura” é ‘ler literatura’.”, ou seja, a sua concepção de literatura mostra que a literatura contribui para a formação da pessoa, tendo em vista a sociabilidade por meio da linguagem.
Registros
Os rostos não foram mostrados para preservar os direitos de imagem
REFERÊNCIAS
CASTRILLÓN, Silvia. O direito de ler e de escrever. São Paulo. Pulo do gato, 2011.
COLOMER, Teresa. Andar entre livros. A leitura literária na escola. Trad. Laura Sandroni. São Paulo. Global, 2007.
Relato de experiência escrito por Ana Carolina Boldori, Mestranda em Letras do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo/RS. Bolsista Prosuc Capes Modalidade II. E-mail: 190493@upf.br, sob orientação da Profa. Dra. Marlete Sandra Diedrich