
As viagens de Gulliver foi publicado em 1726 e continua a ser uma das maiores sátiras da literatura. O autor, maior satírico inglês, parece não querer dar respostas, apenas inquietar o mundo. A obra é misteriosa e pode ser interpretada em vários níveis, pois o escritor é um homem cético, de muitas contradições e parece gostar de enigmas. Escreveu até quase a metade do século seguinte. Ele também era cantor, era do clero e tocava órgão na igreja, era doutor em teosofia na catedral de Dublin. Odiava a guerra, o colonialismo e a escravidão.
Na obra, o autor pergunta: quem sou eu? Qual é a minha natureza? O protagonista, o cirurgião Gulliver, é vítima de um naufrágio em sua viagem de quatro partes e relata fatos impressionantes sobre criaturas que viviam muito longe. O texto também procura desvendar questões da alma, da natureza humana, questionando se somos criaturas benevolentes ou egoístas. O autor não acreditava que o homem poderia se elevar acima de sua natureza.
O romance foi escrito na Idade da Razão, momento em que a sociedade se modificou profundamente, pois os europeus viajavam para descobrir e explorar terras distantes, obter informações sobre o mundo e expandir aquilo que conheciam. O autor questiona as imperfeições e os vícios humanos através das quatro viagens e nos força a examinar a nossa própria natureza. As viagens não foram o único elemento da realidade do autor colocada na obra. Além disso, ele gostava de ir a feiras nas ruas, e é interessante saber o que havia lá, pois isso também afeta a obra. Após se dirigir às maiores feiras que existiam em Londres na época, as que costumava frequentar, ele passava pelas quatro grandes exibições: dos anões, gigantes, grande variedade de animais adestrados e também os humanos degenerados, como o irlandês selvagem e peludo. São essas as estruturas básicas das viagens.
O autor usa monstros para questionar o que é ser humano e mostra que pouco sabemos sobre nós mesmos. Na primeira viagem, Gulliver vai para a ilha de Lilliput, onde há pessoas requintadas, porém pequenas. Ao passar um tempo com eles, percebe como são desprezíveis. O autor satiriza os ingleses e a política da época, ou seja, a corte, que se baseava em despotismo, favoritismo e corrupção. Além disso, os costumes e o modo que as pessoas se tratavam entre si. Pelo modo mesquinho de agir tornam-se insignificantes e isso acaba se refletindo na sua estatura.
Quando houve evolução na imprensa, isto é, quando se tornou possível imprimir materiais, o autor aproveitou para publicar panfletos, o mais famoso era “Modest Proposal”, uma sátira para a atitude desumana e arrogante dos ingleses com a pobreza dos irlandeses, povo ao qual se identificava e amava.
Já no segundo livro, o nosso personagem novamente é jogado ao mar, porém, desta vez não vai parar em uma ilha com pessoas muito pequenas, e sim, em um lugar com gigantes, foi para Brobdingnag, que, como dizem os críticos, o autor exagerou nos vícios da carne para mostrar outro lado da grosseria humana. Percebe-se que há uma mudança de perspectiva. No primeiro momento, o protagonista é um gigante em uma terra de anões. Já no segundo momento, ele se torna um anão perto dos gigantes. Essa mudança na perspectiva mostra o que é se sentir pequeno e desamparado nas nossas vivências de mundo. Neste lugar, os desafios tornaram-se maiores, pois ele era tratado como criança e a rainha gostou tanto dele que ele ganhou uma pequena mesa para comer ao lado dela.
Os estudiosos descobriram que ele tinha problemas com a sujeira e viver naquela época não deve ter sido fácil para ele, pois havia excrementos de cavalo nas ruas e as pessoas mal tomavam banho. Também tinha problemas com as mulheres e isso acaba se refletindo na sua obra, pois foi raptado aos três anos e até os seis ficou afastado da mãe, em outras palavras, o que ele experimentou foi o abandono. Talvez, por isso não tenha se casado. Teve dois relacionamentos, mas ninguém sabe se os relacionamentos foram amorosos ou platônicos.
No livro três, o autor explorou o sentimentalismo humano sobre a razão, a ciência e a tecnologia. Ele não acreditava que a ciência poderia tornar as pessoas melhores, não podia crer que isso nos traria felicidade, por isso, não via o crescente otimismo da época com bons olhos. Nesse ponto da história ele está em “A Laputa”, uma ilha voadora, um lugar onde a ciência tornava mais abstrata a vivência dele lá. Conheceu um lugar, na ilha, onde as pessoas não morriam, porém não paravam de envelhecer, isso é, a tecnologia pode nos fazer viver por bastante tempo, mas não podemos ser jovens para sempre. Além disso, mostra que é um tormento ter que viver eternamente preso em um corpo senil.
No livro quatro, o protagonista chega a “Des Houyananms” e começa a se questionar sobre a própria natureza, sobre o que é normal, pois lá encontrou dois povos, um deles lhe agradou muito, pois eram inteligentes, mas o outro lhe desagradou muito, pois eram sujos, brutos, animalescos e irracionais. Mas, ao olhar um indivíduo do povo grotesco percebeu que aquele vivente poderia ser humano e que ele estava olhando diretamente para as profundezas dos homens, para a parte que ninguém quer ver e acreditava que esse lado grotesco da natureza humana precisa ser contido. Quando voltou para casa não conseguia ficar na companhia de sua mulher e filhos, somente com seus cavalos, que pareciam compreendê-lo consideravelmente bem.
Definitivamente, ele é um gênio, pois percebeu e criticou elementos da sociedade da época, aqueles que as pessoas querem esconder, demonstrou que os homens podem ser cruéis e se disfarçar com uma camada de polidez. O autor apontou diretamente para a hipocrisia e maldade humana, que vivem ignorando o bem estar dos outros para se manter no poder, não se importando com suas necessidades básicas. Ele deixou suas propriedades e riquezas para um hospital psiquiátrico, para ajudar aqueles que eram denominados loucos e que, na época, eram vistos como vítimas de possessão demoníaca, ou seja, até no fim de sua vida ele ajudou os que necessitavam da forma como pôde.
O autor se importava com as pessoas e não suportava ver maldade, e esse ponto é bastante enfatizado em sua obra. O livro é tão bom que continua a ser vendido e fazem-se filmes sobre ele. É claro, uma obra prima dessas não pode ser esquecida, contém críticas ao comportamento humano e à maneira que agimos e interagimos entre nós mesmos. Certamente sua obra causou muito impacto e isso é muito positivo, pois fez emergir das sombras aquilo que os homens não querem ver e procuram esconder de si mesmos, além da busca por respostas que os homens precisam encontrar. Então, sim, ele é um gênio, mas tão inteligente e enigmático que não pode ser compreendido por todos.
Referências
As viagens de Gulliver. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=rPrV5wxB1UA>. Acesso em: 15 abr 2020.
Escrito por Ana Bárbara Bufon do curso de Letras da UPF para a disciplina de Literatura em Língua Inglesa