
Quando falamos em educação do futuro, cercam-nos na imaginação figuras robóticas, instrumentos revolucionários e visualmente impressionantes, ou, em outras palavras, a sofisticação pomposa de elementos metálicos. Na contramão destes pensamentos involuntários, Edgar Morin (2011) realiza uma sóbria reflexão sobre o assunto, quando elenca os sete saberes necessários para educação do futuro. Não são as máquinas que ocupam o centro de seu texto, mas reflexões mais profundas sobre a essência do humano, em toda sociedade e em toda cultura. Dessa forma, ao situar suas reflexões sobre o futuro através de saberes necessários no presente, faz-nos pensar que a educação do futuro é a educação hoje, a nossa educação, que será legada às novas gerações. Assim, não devemos nos situar em uma sala de espera, reféns de grandes revoluções tecnológicas, mas passar a construir um modelo de ensino que desenvolva um pensamento crítico, em um mundo cada vez mais tecnicizado.
É neste mundo em que muitos dos saberes considerados essenciais por Morin ficam turvos, vendados com a opacidade do dinheiro. A pressa em ter um retorno financeiro por parte de empresas, instituições e indivíduos leva ao erro, à ilusão, ao egoísmo, à incompreensão e à ganância. Como um antídoto para seus efeitos, operam magicamente alguns elementos que fogem, em certo sentido, a uma lógica utilitarista, e que, muitas vezes, acabam sendo desvalorizados ou postos em um segundo ou em um terceiro plano. Assim, conforme afirma o filósofo italiano Nuccio Ordine (2016, p.12) sobre o contexto em que vivemos, “um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que um poema, uma chave de fenda mais que um quadro: porque é fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto é sempre mais difícil compreender para que podem servir a música, a literatura ou a arte”. Apesar de sua pretensa desimportância, acreditamos que as artes “podem desempenhar um papel fundamental no cultivo do espírito e no crescimento civil e cultural da humanidade” (ORDINE, 2016, p.9.), bem como podem auxiliar no desenvolvimento dos saberes destacados por Morin. Nesta breve reflexão, a partir da elucidação de alguns textos fundamentais em minha formação, abordarei como um ensino preocupado com a educação literária pode ajudar os alunos a compreender o real valor da literatura, desenvolvendo, dessa forma, os sete saberes necessários à educação do futuro.
“Um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que um poema, uma chave de fenda mais que um quadro: porque é fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto é sempre mais difícil compreender para que podem servir a música, a literatura ou a arte”
O primeiro saber destacado por Morin envolve as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão. A produção de conhecimento está e sempre esteve ameaçada por essas possibilidades, mas engana-se quem acredita que somente através do intelecto, ou de sua falta, que eles se dão. O erro intelectual é um entre tantas possibilidades, sendo possível realizar uma distinção entre o racionalismo e a racionalidade: o primeiro deles “ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida” (MORIN, 2011, p.23) e, por isso, é irracional. Embora tivesse o conhecimento necessário para a criação de sua criatura, Victor Frankenstein ultrapassou os limites da racionalidade. A tragédia que toma conta do enredo do romance de Mary Shelley pode levar o leitor a questionar a ambição e o orgulho de quem almeja carreiras bem sucedidas e invenções revolucionárias, deixando para trás qualquer discussão ética.
Da mesma forma, os erros podem vir de nossa percepção, visto que “nossa mente, inconscientemente, tende a selecionar as lembranças que nos convêm” ou a “projetar sobre o outro a causa do mal” (MORIN, 2011, p.21). Melhor exemplo que a célebre discussão sobre a traição (ou não traição) de Capitu não há para exemplificar o fato. Se o adultério consolidou-se ou foi apenas uma fixação dos pensamentos de Bentinho, não importa, pois o que o nosso escritor maior planejava era gerar a dúvida. Será que podemos ser tomados pelas mesmas fixações de Bentinho? Ou será que ele detinha a razão? Para Morin, “o dever principal da educação é de armar cada um para o combate vital para a lucidez”. Somente através de uma educação aberta, que leve em conta discussões sobre o nosso processo cognitivo, conseguiremos nos manter mais distantes do erro e da ilusão, e, nesse sentido, a literatura pode ter um papel essencial de sensibilização e autorreflexão.
Quando lemos, por exemplo, A metamorfose, de Franz Kafka, e nos deparamos com a preocupação em chegar no horário no trabalho, chocamo-nos com a atitude de agir com normalidade mesmo diante de uma situação surreal. Ocorre uma espécie de automatização não apenas do protagonista, mas também de sua família.
Morin aborda também a questão de se ensinar a condição humana, e, em um de seus subcapítulos, celebra a diversidade cultural. Com relação à humanidade, afirma apaixonadamente que cada um “traz em si multiplicidades interiores, personalidades virtuais, uma infinitude de personagens quiméricos, uma poliexistência no real e no imaginário, no sono e na vigília, na obediência e na transgressão […]” (MORIN, 2011, p.51) e assim por diante. Somos profundamente diversos e plurais enquanto humanidade, e essa diversidade deve ser celebrada, apesar de barreiras alienantes da modernidade. Quando lemos, por exemplo, A metamorfose, de Franz Kafka, e nos deparamos com a preocupação em chegar no horário no trabalho, chocamo-nos com a atitude de agir com normalidade mesmo diante de uma situação surreal. Ocorre uma espécie de automatização não apenas do protagonista, mas também de sua família. Sabemos poucas informações sobre eles, tendo apenas traços genéricos dessas personagens, que vão aos poucos perdendo a empatia pelo filho/irmão, distanciando-se dele. A forma como lidam com a transformação de Gregor Samsa demonstra esse distanciamento, ao notarmos que a maior preocupação é o receio em relação à forma como a família irá se sustentar sem o emprego do caixeiro-viajante. A consequência para a personagem, por ter deixado de ser o provedor financeiro da família, é justamente sua morte. A automatização das personagens corrobora para que a obra atinja uma literatura preocupada em chocar o leitor, levando-o a questionar a sua própria automatização no mundo moderno, em que a alienação do capital sustenta a homogeneização, a indiferença com o outro e as desigualdades sociais. Nossa condição humana não é a de uma máquina, mas de um ser que contém em si “impulsos de desejos e amores insatisfeitos, abismos de desgraças, imensidões de indiferença gélida, queimações de astro em fogo, acessos de ódio, desregramentos, lampejos de lucidez, tormentas dementes” (MORIN, 2011, p.52). Somos constituídos também pelos nossos sentimentos e pela cultura, e o que podemos questionar com Gregor Samsa é o quanto estamos nos transformando em máquina para dar conta de uma rotina repleta de afazeres.
Morin, em seu texto, também aborda o enfrentamento às incertezas. Se a ciência, ao longo do século passado, progrediu ostensivamente, também é certo que deixou muitas lacunas, e que vivemos em um mundo de constantes transformações. Em nossa existência, devemos lidar com incertezas de origens diversas, como as citadas por Morin: incertezas lógicas, racionais, psicológicas e com a própria incerteza do real, já que a realidade nada mais é do que a própria ideia que fazemos dela. Quem melhor pode nos falar sobre isso do que um protagonista que se questiona sobre sua vida todo o tempo. Acompanhamos seus medos diante da guerra, suas incertezas diante do amor por Diadorim, mas ante ao tanto que pode ser dito sobre a magnitude desta obra, Grandes Sertões: Veredas, gostaria de relembrar uma pequena frase: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. A frase, uma das mais célebres, nada mais faz do que relembrar que as incertezas fazem parte da vida, e que para combatê-las, é preciso ter coragem. Para isso, conosco, está todo este mundo de personagens do sertão.
Se a ciência, ao longo do século passado, progrediu ostensivamente, também é certo que deixou muitas lacunas, e que vivemos em um mundo de constantes transformações.
Conosco também estão, nas adversidades da vida, os personagens, os enredos, os versos, os ritmos, as passagens, as cenas, as rimas, os espaços, as perspectivas, as visões, os valores, os encantamentos, as vivências e mais tudo que a literatura pode nos proporcionar para lidar com as nossas incertezas, aprender a sermos compreensivos, lutar contra o que nos cega e engana e ensinar a nossa condição passageira na terra, para construirmos um mundo melhor.
REFERÊNCIAS
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília´, DF: UNESCO, 2011.
ORDINE, Nuccio. A utilidade do inútil: um manifesto. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
Ensaio reflexivo escrito por Aylon de Oliveira Dutra, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Letras da UPF, linha de pesquisa Leitura e Formação do Leitor (e-mail: aylonsm@gmail.com), produzido na disciplina Estágio de Docência I, ministrada pela professora Luciana Maria Crestani