Un viaje por Frida

Sempre fui apaixonada pela cultura mexicana, pela cor, pela vivacidade, pela forma única com que as pessoas deste país, devido às heranças de povos milenares, lidam com as dificuldades. Atrai-me, principalmente, a forma como lidam com a morte, não como um momento de adeus, mas como uma passagem para outro plano e, por isso, os mexicanos acenam um “até logo” àqueles que se foram, já que, anualmente, no mês de novembro, acreditam que eles voltarão ao convívio familiar no que se conhece como “Día de los Muertos”. 

E essa paixão pela cultura mexicana e pela pintora Frida Kahlo, expressiva representante do México, que se mostrava uma constante em minhas aulas de língua espanhola, transformou-se em meu projeto de tese de doutorado. Para a realização deste estudo, então, comecei a buscar bibliografias no Brasil a respeito a autora e do universo mexicano e percebi que elas eram muito escassas, mas, mesmo assim, entre outros materiais, encontrei o livro “Cartas apaixonadas de Frida Kahlo”, de Martha Zamora. Por curiosidade, já que não conhecia a autora, comecei a segui-la no Facebook e percebi que se tratava de uma pessoa muito acessível e atenciosa; foi quando decidi, despretensiosamente, perguntar a ela se aceitaria conversar comigo. Para minha surpresa, não apenas aceitou, como me convidou a conhecer seu escritório em Ciudad de México. Foi o início da realização de um sonho. 

Para aqueles que, talvez, não conheçam, assim como eu também não conhecia, Martha Zamora é biógrafa de Frida e escreveu importantes obras sobre a artista, como “Cartas apasionadas de Frida Kahlo” (traduzido para português e para inglês), “En busca de Frida”, “Heridas, amores de Diego Rivera” e sua grande produção “El pincel de la angustia”. A autora também se dedica a outras personalidades históricas, como os imperadores Maximiliano de Habsburgo-Lorena e Carlota da Bélgica, sobre quem também publicou importantes obras. 

No ano de 2020, assim, antes do início da pandemia de coronavírus, que nos limitou de formas que pareciam impossíveis, eu tive a oportunidade de ir à capital do México, de conversar pessoalmente com esta importante escritora, a qual me recebeu com muito carinho, e de conhecer importantes espaços onde morou e por onde circulou Frida Kahlo, além de ver pessoalmente as pinturas que sempre me fascinaram. Nesse contexto, meu percurso começou pela Casa Azul, principal residência da pintora – uma fascinante construção que foi herança de seus pais e que vivenciou importantes momentos históricos, como a Revolução Mexicana, quando Frida ainda era muito pequena, e o conturbado matrimônio de Frida e Diego Rivera, além de ter recebido importantes figuras do meio artístico, como André Breton, líder do Movimento Surrealista, e do meio político, como Leon Trotsky, marxista e revolucionário bolchevique. 

Neste espaço, Frida viveu, amou, expressou-se, sofreu e passou os últimos momentos de sua vida. Hoje, o local guarda um dos museus mais visitados do mundo, onde ainda é possível sentir Frida Kahlo, uma vez que seus móveis, seus objetos pessoais e, sem dúvidas, sua essência, ainda permanecem lá, mesmo passados 67 anos de seu falecimento. Suas cinzas estão respeitosamente guardadas em uma urna no espaço que era um de seus quartos. Na Casa Azul, ainda se pode visitar uma exposição permanente – “Las aparienciais engañan”-, que exibe suas vibrantes e vistosas roupas, seus originais acessórios, e até os artefatos que usava devido ao acidente que sofreu quando ainda tinha 18 anos, coletes e outros objetos que chocam pelo peso que aparentam ter e pelo quanto limitaram os movimentos da artista. 

Nesta viagem, visitei ainda outros espaços que também são importantes para quem busca conhecer mais sobre Frida Kahlo. Entre eles, estão a Casa Estudio Diego Rivera, também conhecida como Casa de Sán Angel, e o Museu Dolores Olmedo, que não são tão conhecidos como a Casa Azul, mas que também guardam sua importância. A primeira, porque foi uma construção feito pelo arquiteto Juan O’Gorman a pedido de Diego Rivera, uma casa em estilo funcionalista que abrigou o estúdio do muralista e marido de Frida, e que consistia, na verdade, em duas residências, uma para Frida e outra para Rivera e ambas estão reunidas por uma ponte. Nesta construção, Frida fez duas de suas mais conhecidas pinturas, Lo que el agua me dioeLas dos Fridas“.

O segundo, por ser o museu com o maior acervo de obras de Frida Kahlo no mundo, além de também contar com pinturas de Diego Rivera e Angelina Beloff, primeira esposa de Rivera. Maria dos Dolores Olmedo foi uma importante empresária e colecionadora de arte mexicana, amiga íntima de Frida e Diego. Hoje, sua casa abriga, além do museu com pinturas e relíquias arqueológicas, uma natureza exuberante, com pavões e cães da raça xoloitzcuintles (conhecido como pelado-mexicano), os favoritos de Frida. 

Nesta oportunidade, visitei ainda outros espaços turísticos, na capital e em cidades próximas a Ciudad de México, e que também são importantes redutos de arte e de cultura, aliás, não por acaso, são conhecidos como “pueblitos mágicos”. O México tem muito a oferecer àqueles que se dispõem a conhecê-lo, a provar os sabores de uma culinária única, a conhecer simpáticas pessoas sempre dispostas a contar uma história, sobretudo se você comenta que é do Brasil. Sim, eles amam os brasileiros, a nossa língua e as características próprias de nosso país, talvez porque a alegria seja algo em comum entre as duas nações, mesmo que em ambas os problemas socioeconômicos atrapalhem aquilo que de mais belo possuem, o seu povo e a sua cultura.


Mariane Rocha Silveira: Doutoranda em Letras pela Universidade de Passo Fundo (UPF); Mestre em Letras – Estudos Literários pela Universidade de Passo Fundo (UPF); Especialista em Ensino e Aprendizagem de Língua Espanhola pela Universidade de Passo Fundo (UPF), Especialista em Tradução de Espanhol pela Universidade Gama Filho (UGF), Graduada em Letras pela Universidade de Passo Fundo (UPF); Coordenadora Pedagógica da UPF Idiomas; Professora de Redação no Centro de Ensino Médio Integrado UPF; Bolsista Capes; marianesilveira@upf.br.

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