Sobre vantagens e desvantagens do uso das redes sociais: reflexões a partir de Epicuro e Papa Francisco

É fato que as redes sociais são uma ferramenta tecnológica muito ampla no que tange o auxílio para coisas consideradas benéficas na atualidade, e de modo análogo, podem ser usufruídas sem cautela, desencadeando assim, graves problemas em diversos âmbitos, tais como o comprometimento de outras atividades devido o tempo excessivo de uso, desinteresse por relacionamentos reais, baixa autoestima, isolamento, ansiedade, depressão entre outros. Cabe ressaltar que as redes sociais estão dentro de um grande conjunto tecnológico, a saber que

a humanidade entrou numa nova era em que o poder da tecnologia nos põe diante de uma encruzilhada. Somos herdeiros de dois séculos de ondas enormes de mudanças: a máquina a vapor, a ferrovia, o telégrafo, a eletricidade, o automóvel, o avião, as indústrias químicas, a medicina moderna, a informática e, mais recentemente, a revolução digital, a robótica, as biotecnologias e as nanotecnologias. É justo que nos alegremos com estes progressos e nos entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes (FRANCISCO, 2015, p. 65).

A partir do exposto, vê-se que a nova era tecnológica é recente, ou seja, ao tentar fazer especulações, corre-se sérios riscos de apontamentos insuficientes, pois “cada época tende a desenvolver uma reduzida autoconsciência dos próprios limites” (FRANCISCO, 2015, p. 67). Mas, na atual conjuntura da sociedade, “como qualquer outro fruto do engenho humano, as novas tecnologias da comunicação pedem que sejam postas a serviço do bem integral da pessoa e da humanidade inteira. Quando usadas sabiamente, podem contribuir para satisfazer o desejo de sentido, verdade e unidade que é aspiração mais profunda do ser humano” [1].

A partir dos aspectos mencionados, busca-se fazer uma especulação, tendo em vista o proposto: se Epicuro estivesse vivo hoje, em meio ao nosso tempo e sociedade, ele faria uso das redes sociais? Partido do exposto, sabe-se que ao fazer uma apropriação dos textos, percebe-se na parte da ética que Epicuro chamava “ao prazer princípio e fim da vida feliz. Com efeito, sabemos que é o primeiro bem, o bem inato, e que dele derivamos toda a escolha ou recusa e chegamos a ele valorizando todo bem com critério do efeito que nos produz” (EPICURO, 1988, p. 17). 

Nesse hiato, vive-se mais feliz ou menos feliz ao utilizar as redes sociais? A resposta pode ser impactante, pois cada pessoa usa de uma maneira diferente e utiliza para várias saídas diferentes. De fato, é uma especulação, para uma maior compreensão necessita-se de uma pesquisa de campo. Mas, Epicuro seria mais feliz usando as redes sociais? Sabendo que, “a ausência de perturbação e de dor são prazeres estáveis; por seu turno, o gozo e a alegria são prazeres de movimento, pela sua vivacidade” (EPICURO, 1988, p. 17). Sabemos que as redes sociais não causam dores físicas, mas podem causar muitas dores emocionais, ainda mais com a chamada cultura do cancelamento, que é uma realidade significante. No que tange a perturbação, no âmbito da inquietude e liberdade de expressão isso pode ser um grande problema, já que as redes sociais instigam e tem um alto poder de sempre querer estar dentro das publicações que cada uma comporta. Então, diretamente nesta abordagem, não seria vantajoso segundo os ideais de Epicuro fazer uso das redes sociais.

Se analisarmos isso também como um desejo, podemos ver que “alguns dos desejos são naturais e necessários; outros são naturais e não necessários; o seu impulso pode ser facilmente posto em parte, quando é difícil obter a sua satisfação ou parecem trazer consigo algum prejuízo” (EPICURO, 1988, p. 18). Assim sendo, traduzindo sua análise, as redes sociais poderiam até mesmo se encaixar nos desejos que são naturais na sociedade em que vivemos, mas não são necessários, pois podem ser vistas somente como uma perda de tempo.

Doutro modo, Epicuro sempre deixou muita claro a importância e a virtude principal do ser humano, pois

não são os convites e as festas contínuas, nem a posse de meninos ou de mulheres, nem de peixes, nem de todas as outras coisas que pode oferecer uma suntuosa mesa, que tornam agradável a vida, mas sim o sóbrio raciocínio que procura as causas de toda a escolha e de toda a repulsa e põe de lado as opiniões que motivam que a maior perturbação se apodere dos espíritos. De todas estas coisas, o princípio e o maior bem é a prudência, da qual nascem todas as outras virtudes; ela nos ensina que não é possível viver agradavelmente sem sabedoria, beleza e justiça, nem possuir sabedoria, beleza e justiça sem doçura. As virtudes encontram-se por sua natureza ligadas à vida feliz, e a vida feliz é inseparável delas (EPICURO, 1988, p. 19).

Ou seja, se usar as redes sociais com prudência pode tornar o homem mais virtuoso, por que não usar? Doutro modo, como discernir o que é, e alcançar a prudência nestes meios? Mas, se as virtudes estão relacionadas estreitamente com uma vida feliz, e as redes sociais podem fazer do sujeito um homem feliz e virtuoso, nada impediria Epicuro de usar as redes sociais, sob este âmbito. Para sustentar ainda mais a afirmação, cabe lembrar que “a internet e a articulação das redes sociais digitais passaram a ser partes integrantes da vivência cotidiana contemporânea, despertando diferentes possibilidades de comunicação e de relação na sociedade (FRANCISCO, 2015, p. 119). A partir do exposto, como imaginar o homem articulado, sábio e inteligente, longe das redes sociais? A resposta pode se derivar do contexto em que Epicuro estaria inserido, pois o próprio se retirou da vida política/pública para não ficar refém de seus humores e opiniões.

Epicuro, um homem esclarecido na contemporaneidade, reto em suas atitudes, não deveria temer ao uso dessas tecnologias, pois “o justo é sumamente sereno, o injusto cheio da maior perturbação” (EPICURO, 1988, p. 19). Ora, não é utópico pessoas serenas e justas usando as redes sociais, não necessariamente que Epicuro fosse em sua época, mas na atual conjuntura, nada lhes impediria de ser. 

Outro fato que contribui no pensamento positivo que faz pensar uso das redes sociais é que 

as novas tecnologias permitem que as pessoas se encontrem para além das fronteiras de tempo e espaço e das próprias culturas. As redes digitais contribuem para favorecer formas de diálogo e debate que, se realizadas com respeito e cuidado pela privacidade, com responsabilidade e empenho pela verdade, podem reforçar os laços de unidade entre pessoas e promover eficazmente a harmonia da família humana. A essência da rede digital é sua conectividade (FRANCISCO, 2015, p. 119).

Como um bom filósofo, Epicuro teria ambiente propício para o diálogo, debate e busca da verdade, e ainda um terreno fértil para demonstrar o respeito e a responsabilidade. Nesse sentido, volta-se para a essência da tecnologia e consequentemente às redes sociais, a sua conectividade, pois a partir disso encontramos amigos, cria-se laços de forte amizade, ainda mais quando se sabe que “de todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade” (EPICURO, 1988, p. 20). Isso é reforçado pelo Papa Francisco, pois ele nos diz que

a interatividade das pessoas com as mídias, caracterizada pela autonomia e pelo protagonismo, exige cada vez mais relações de respeito, diálogo e amizade marcadas pelo espírito colaborativo e cooperativo. O modo de pensar e agir decorrentes dessa atitude interativa exige novas relações na família, na escola e no trabalho. Essa visão requer maior responsabilidade e senso ético diante de si mesmo, dos outros e da sociedade. Levando em conta o respeito pela dignidade e pelo valor da pessoa humana e o diálogo marcado pela verdade, compreensão e tolerância, as relações sociais mediadas pelas novas tecnologias podem chegar a construir amizades autênticas (2015, p. 120).

As amizades autênticas, sólidas e de grande valor também são pilares da vida de um sujeito, já que “não temos tanta necessidade da ajuda dos amigos, como de confiança na sua ajuda” (EPICURO, 1988, p. 20). Supondo que as redes sociais ofereçam o exposto anteriormente, nota-se que elas podem ser um instrumento que ajuda para que o ser humano viva uma vida feliz, desta forma, Epicuro poderia se utilizar delas para este fim. Mas, como confiar com exatidão na confiabilidade destes meios?  

A partir dos aspectos acima mencionados, fica claro alguns pontos a favor e contra o uso das redes sociais. Nesse hiato, ao fazer uma breve análise dos escritos, e da sociedade atual, é notável que Epicuro teria princípios para aderir ao uso delas ou não. Mas, Epicuro poderia ser um grande inovador, que usasse esses meios de forma tão positiva a espalhar seus ideais e ser um influenciador positivo para os navegadores dessas redes.

[1] BENTO XVI. Mensagem para o 45° Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2011.

REFERÊNCIAS

CONFERÊNCIA, Nacional dos Bispos do Brasil. Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil. Brasília: Edições CNBB, 2014.
CONFERÊNCIA, Nacional dos Bispos do Brasil. Guia de implantação da pastoral da comunicação. Brasília: Edições CNBB, 2019.
FRANCISCO, PAPA. Laudato Si´sobre o cuidado da casa comum. Brasília: Edições CNBB 2015.
SILVA, Agostinho. Epicuro: os pensadores. São Paulo: Nova Cultura, 1988.


por Eduardo Martello. Acadêmico do 3º semestre do Curso de Bacharelado em Filosofia da Universidade de Passo Fundo (UPF).
E-mail: eduardomartellod@gmail.com>.

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