Não sei quando foi a primeira vez que o reconheci, mas tenho certeza de que ele me viu primeiro. Tenho certeza de que foi no dia 20 de abril, talvez 21. Tenho certeza de que ele não suportou a ideia de ter que me compartilhar. Tenho certeza de que ele odiava quando chegava em casa e eu estava dormindo. Tenho certeza de que ele fazia de tudo para me acordar, mesmo que isso fosse deixar todo mundo louco. Tenho certeza de que, mesmo passando dois anos grudados sob o mesmo teto, não foi o suficiente pra ele, e talvez nem para mim. Tenho certeza de que os 16 anos que sucederam esses dois também não foram o suficiente para nenhum de nós. Nenhuma quantidade de tempo jamais seria suficiente para nós, nunca. A gente sempre queria e precisava de mais.
Passamos muitas noites acordados escutando as músicas preferidas dele, mas as tardes sempre eram as minhas preferidas. A varanda de casa era nosso lugar favorito e eu perdi a conta de quantas vezes eu escutei a mesma história, apenas para ter o prazer de lhe ver inovar (e inventar) os detalhes todas as vezes que eu perguntava quem era Eva. O pátio de casa era perfeito para ele me explicar e me mostrar todas as noites como encontrar as Três Marias e como usar delas toda vez que quisesse voltar para casa. A mesa da cozinha era sempre motivo de confusão, mas, no final, estávamos sempre juntos quando ele me mandava comer as cenouras do prato, afinal “Faz bem para os olhos. Você já viu algum coelho usando óculos?”. A sala de entrada serviu para que ele me convencesse a parar de roer as unhas, eu não queria acabar com uma cicatriz na barriga depois de ser forçada a fazer uma cirurgia por um motivo tão bobo, né? Era ele quem carregava as cicatrizes, não eu.
Eu achava engraçado como ele conseguia lembrar das histórias de criança e juventude com tanta vivacidade, mas quando os últimos anos chegaram, a única coisa que eu queria era tê-lo comigo no presente. Quando os 16 de maio chegavam e nós nos reuníamos novamente, eu implorava para que fosse um daqueles bons dias, um daqueles que ele estaria 100% ali, comigo, com nós. Às vezes eu era recepcionada calorosamente já na porta de casa. Às vezes não era assim. Às vezes eu era recebida com olhares de estranhamento e confusão. De todos os nossos 18 anos juntos, os 3 últimos foram os mais difíceis.
Eu ainda lembro do 20 de setembro que te tirou de mim. Eu ainda lembro do 19 de setembro que me preparou para o fim. Eu ainda lembro do 21 de setembro que me deixou dormente, quase como um pesadelo que você não consegue acordar. Eu ainda lembro do primeiro 25 de dezembro sem você. Eu ainda lembro da primeira virada de ano sem o teu desejo de feliz ano novo. Eu ainda lembro do primeiro 20 de abril sem a tua mensagem. Eu ainda lembro do primeiro 16 de maio sem te visitar. Mas, jamais conseguiria esquecer, mesmo que às vezes tentando muito, do nosso último encontro.
O corpo cansado e frágil quase não fazia peso em cima do colchão e, mesmo naquele frio de Julho, eu consegui sentir o calor da nossa despedida. Afinal, quando te perguntaram se ainda lembrava de mim, a tua resposta quase espontânea de “como eu poderia esquecer da minha neta?” me deu a certeza de que o laço seria pra sempre, seria nosso.
por Alice Nicolodi. Estudante do sexto semestre de Letras. 184414@upf.br