Os multiletramentos, segundo Rojo (2012), envolvem a tecnologia e a multiplicidade semiótica e cultural, exigindo uma mudança nas práticas de sala de aula. Soares (1988) enseja que o momento atual oferece uma oportunidade extremamente favorável para refinar o conceito de letramento e torná-lo mais claro e preciso por estarmos vivendo a introdução na sociedade de novas modalidades de práticas sociais de leitura e de escrita, propiciadas pelas tecnologias de comunicação eletrônica – o computador, a rede (a web), a internet. Este momento é imprescindível para repensar as práticas em sala de aula.
Letramento, segundo Soares (2002), designa um estado ou condição em que vivem e interagem indivíduos ou grupos sociais letrados, que fazem uso da leitura e da escrita em seu dia a dia. Assim sendo, as práticas sociais de escrita e leitura desempenham um papel de reorganização nesse estado ou condição. Hoje, usamos a escrita e a leitura o tempo todo em diferentes práticas. Analisemos aqui a prática diária de algumas crianças com idade entre 8 a 10 anos que trabalham na feira municipal do produtor rural em Ariquemes, Rondônia. Na feira municipal vendem-se hortaliças, sementes, frutas, artesanatos e peixes. As crianças fazem uso de máquina de cartão de crédito e débito, pagam, recebem, conferem os produtos, fazem uso de Pix (Forma de pagamento instantâneo criado pelo Banco Central do Brasil) e dinheiro em espécie tanto para receber quanto para pagar aos fornecedores. Usam da escrita em placas para propagandear a venda dos produtos, como: “Tenho cartela de ovos brancos: R$14,00, ovos vermelhos: R$17,00”, também assinam notas de recebimento e de troca de produtos vencidos.
Todas essas práticas configuram processos de (multi)letramento e numeramento que não são abordados na escola em favor do ensino-aprendizagem de outros “conteúdos”. Práticas essas muito úteis para a vida das crianças e, consequentemente, para as famílias. Além disso, oralmente são capazes de chamar os possíveis clientes usando práticas oratórias diversas e dinâmicas para vender, também fazem uso da leitura corporal dos clientes, dos diferentes signos (sinais, cores, ícones) utilizados nas máquinas de cartões ou nas telas de celular, dentre outros.
Ainda, como salienta Rojo (2012, p.15), “no caso brasileiro, em nossas salas de aula, essa mistura de culturas, raças e cores não constitui constatação tão nova, embora passe o tempo todo quase totalmente despercebida ou propositadamente ignorada (…)”. Não só a mistura de culturas, raças e cores como também os saberes mais utilizados no cotidiano, as leituras de mundo do estudante, suas percepções e seus conhecimentos são, muitas vezes, ignorados.
As diversas ações citadas são multiletramentos de diversas formas na prática social, econômica e autônoma que não são valorizados na escola. Ainda na situação de pandemia da Covid-19, essas crianças estudam pelo telefone celular ou o material impresso durante uma venda, fazendo uso das tecnologias e de novas formas de ler, estudar, pensar. Soares (2002, p. 152) argumenta que “a tela como espaço de escrita e leitura [requer] um novo letramento”. As ações dessas crianças oportunizam o desenvolvimento da autonomia, do exercício da cidadania, na prática do trabalho e diversidade de prática social como orienta a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018, p. 8).
Nesta análise, não está em questão a eficiência do trabalho ou dos estudos dessas crianças, mas a presença inegável de multiletramentos na prática diária na feira municipal do produtor rural de Ariquemes Rondônia. Hoje há necessidade de conhecer as práticas das crianças para que se valorize a vivência dos estudantes fora da escola, para que a escola reflita tudo e toda a forma de ensinar, transformando a sua forma de ensino-aprendizagem.
Evidencia-se, nesta proposta, que existe uma explosão de contextos sociais que podem ser explorados pela escola para letramento, todos esses contextos sociais trazidos para dentro da sala de aula podem significar no aprendizado que será consolidado pelos estudantes. Multiletrar é considerar o contexto e as necessidades de saber dos alunos. É também significar as práticas vivenciadas por eles.
A escola precisa estar voltada para as necessidades do sujeito, dando a ele o saber para a vida. A vida na escola é indissociável da vida real, mas a escola negligencia, muitas vezes, a oportunidade de aprender na escola para fazer na vida.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.
ROJO, Roxane. Pedagogia dos Multiletramentos. In: ROJO, Roxane; MOURA, Eduardo. (Orgs.) Multiletramentos na Escola. São Paulo: Parábola, 2012, p. 11-32.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Autêntica, Belo Horizonte, 1988.
SOARES, Magda. Novas práticas de leitura e escrita: letramento e cibercultura. Educação & Sociedade, Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/es/v23n81/13935.pdf . Acesso em: 18 abr. 2015.

por André Agnaldo Sant’ Anna do Nascimento, formação em Letras, Português e Inglês pelo Centro Universitário São Camilo – ES. Mestrando em Letras pela Universidade de Passo Fundo (UPF/RS), 2021/23, em convênio com a Secretaria de Educação de Rondônia – SEDUC/RO. Professor de Português/Inglês na Escola Estadual e Ensino Médio Ricardo Cantanhede, Ariquemes, RO. professorandre2014@gmail.com.