Caro leitor, provavelmente você esteja se perguntando, o que significa [a’sĩ sI ‘sa.bI], certo? Para sua surpresa, ou não, este é, exatamente, o intuito do título acima. Através dele, abordaremos no presente texto, o [a’sĩ sI ‘sa.bI] & Assim se explica, o que constitui a trajetória dos docentes. Aqui, em especial, os futuros docentes ou já atuantes nas áreas das línguas. Primeiramente, antes de adentrarmos na discussão, acredito ser importante esclarecer, caso ainda não tenha ficado claro – se não ficou, fique tranquilo, é normal – que [a’sĩ sI ‘sa.bI] é a transcrição fonética (SILVA, 2003, p. 36) das palavras “assim se sabe”. Ou seja, é a expressão falada da ortografia “assim se sabe”. Pois bem, elucidado isto, acredito que estejamos prontos a dar continuidade.
Note que, ao dizer transcrição fonética ou expressão falada, refiro-me a um mesmo significado, apenas utilizando-me de termos distintos. Certo, mas por que isto? Facilitar sua compreensão, caro leitor, também é meu dever como autor do texto. “O texto é uma máquina preguiçosa” (ECO, 2017, p. 9). Contudo, a relação entre autor e leitor precisa da reciprocidade. Da doação de ambas as partes. Nada adiantaria escrever um texto, explicando algo interessante, que poderia vir a acrescentar positivamente em sua vida, se você não conseguisse entender o que pretendo transmitir. A vida profissional da docência linguística também é isso. É ser a ponte facilitadora do conhecimento dos vossos alunos. É saber da importância acarretada no domínio técnico dos termos linguísticos, mas também, ter o bom senso de que seu aluno não precisa, necessariamente, ter o mesmo domínio. Pelo contrário, para ele, bastaria compreender de tal forma que consiga fazer disso algo útil à sua construção pessoal, e quem sabe, profissional.
Para concretizarmos o exposto, nada melhor do que exemplificar isso tudo, relacionando com a prática da docência em sala de aula. Trago agora situações-exemplo de como poderíamos sair da caixa do assim se sabe, abdicando do uso de termos e teorias técnicas, para nos permitir adentrar a caixa do assim se explica. Utilizando-se, do didaticamente falando, de explicações e termos coerentes ao público.
Exemplo 1
Ao estudarmos a teoria das relações associativas entre os termos linguísticos, presente na obra de Saussure, nós, como professores, avançamos de nível (digamos assim). Passamos então, a ter conosco uma visão mais técnica a respeito deste conceito, uma vez que compreendemos a relação associativa como sendo determinados signos distintos que oferecem entre si, algo e/ou termos em comum a memória, fazendo-os passíveis de serem associados. Ou ainda, “uma palavra qualquer pode sempre evocar tudo quanto seja suscetível de ser-lhe associado de uma maneira ou de outra” (SAUSSURE, 2006, p. 146). Vejamos o exemplo a seguir:
O signo ensinamento pode estabelecer relações associativas com os seguintes termos:
■ ensinar;
■ ensinamos;
■ educação;
■ aprendizagem;
■ desfiguramento;
■ armamento.
Por outro lado, ao se tratar de alunos do 7° ano do ensino fundamental, não precisamos ensinar a eles o que são relações associativas, menos ainda, utilizar-nos de termos e explicações técnicas. Podemos, ou melhor dizendo, devemos simplificar e facilitar à eles a compreensão. Michèle Petit, reitera em sua obra, que “o leitor não consome passivamente um texto, ele se apropria dele, o interpreta, deturpa seu sentido, desliza sua fantasia, seu desejo, suas angústias entre as linhas […]” (2013, p. 27). Sabendo da importância de incentivar-se a cultura da leitura desde cedo, uma sugestão seria, ao realizar-se um trabalho de leitura com a turma, por exemplo com o livro Viagens de Gulliver de Jonathan Swift – adaptação de Ana Maria Machado – podemos, em determinado trecho, selecionar palavras que estão em voga na narrativa. Como é o caso de aventura, desbravar e terra. Com base nelas e em suas derivações, faz-se aexplicação do que é o radical de uma palavra e, consequentemente, as derivações sufixais e prefixais que ele está suscetível. Vejamos:
■ aventura → aventurança, altura…
■ desbravar → bravo, desligar…
■ terra → terraço, terroso…
Note que as partes sublinhadas referem-se às relações associativas. Mas quando apresentadas aos alunos do 7° ano, tornam-se radicais e derivações sufixais e prefixais.
Exemplo 2
Trago agora um segundo exemplo voltado ao ensino médio e também ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), tão importante e talvez decisivo na vida de muitos adolescentes. Uma das etapas do exame é a elaboração da redação, que comporta: introdução, desenvolvimento e conclusão. Exige do aluno atenção e domínio especiais à língua, para que possa articulá-la ortograficamente e com certa coesão e coerência. Diante disso, nós, enquanto futuros profissionais e/ou já atuantes na área, podemos facilitar e mediar este processo de preparação para a prova, uma vez que já temos estabelecida noções mais técnicas a respeito da língua enquanto sistema e, consequentemente, a reciprocidade existente entre seus termos.
Uma palavra pode ser trocada por algo dessemelhante: uma ideia; além disso, pode ser comparada com algo da mesma natureza: uma outra palavra. Seu valor não estará então fixado, enquanto nos limitarmos a comprovar que pode ser “trocada” por este ou aquele conceito, isto é, que tem esta ou aquela significação; falta ainda compará-la com os valores semelhantes, com as palavras que se lhe podem opor. Seu conteúdo só é verdadeiramente determinado pelo concurso do que existe fora dela. Fazendo parte de um sistema […]. (SAUSSURE, 2006, p. 134)
Pode-se, com isso, desenvolver-se um trabalho relevante voltado ao poder de significação presente na escrita, voltando-se à ideia de que na língua só existem diferenças. Mas, ao expor aos estudantes, fazemos o uso de termos que sejam didaticamente compreensíveis a eles. Dizendo, por exemplo, que:
■ O significado de uma palavra pode se modificar pelo fato de uma palavra vizinha ter sofrido modificação (aqui, pode-se ainda, voltar-se aos conectivos, que facilitam a escrita da redação);
■ O que distingue uma palavra da outra é seu valor individual somado ao contexto em que ela é utilizada (o uso de “sinônimos”, por exemplo).
Vejamos:
1. Pode enviar nova versão, contudo, a publicação ficará atrasada.
X
2. Pode enviar nova versão, mas, a publicação ficará atrasada.
OBS.: evite utilizar exemplos soltos e/ou isolados, trata-se de uma exemplificação apenas.
Infere-se, então, a importância de profissionais qualificados tecnicamente, mas sobretudo, qualificados humanamente. Passíveis e dispostos a transformações. Não tenho dúvidas de que a docência precisa ser prazerosa para quem está exercendo-a. Isso é fato. Precisamos utilizar recursos e técnicas que nos deixem confortáveis e seguros diante dos discentes. Mesmo assim, acredito ser de grande valor disponibilizarmos de um olhar atencioso e individual aos nossos alunos, observando se nossas explicações estão chegando até eles de maneira eficiente ou se há barreiras e percalços que estão dificultando essa troca de conhecimento. Esses empecilhos podem vir da parte do aluno sim, mas não se esqueça de que eles também podem vir da nossa parte. Portanto, voltar o olhar para si, também faz-se necessário para que as mudanças na educação ocorram. “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas mudam o mundo” (FREIRE, 1987, p. 87).
REFERÊNCIAS
ECO, Umberto. Seis Passeios pelos Bosques da Ficção. 13a ed. São Paulo: Editora Schwarcz S. A., 2017.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17a ed. São Paulo: Paz e Terra, 1987.
PETIT, Michèle. Leituras: do espaço íntimo ao espaço público. 1a ed. São Paulo: Editora 34 Ltda, 2013.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. 27a ed. São Paulo: Editora Pensamento – Cultrix LTDA, 2006. SILVA, Thais Cristófaro. Tabela fonética consonantal. In: SILVA, Thais Cristófaro. Fonética e Fonologia do Português: roteiro de estudos e guia de exercícios. 7a ed. São Paulo: Editora Contexto, 2003.
por Camila Donida Letras – Português e Inglês